Colecionador de Cromos
Pois é, eu fui um coleccionador de cromos "profissional". Os mais difíceis, eram trocados a 4 ou a 6 meio difíceis. E não podiam estar amachucados ou rasgados senão não trocava! Era como os bilas e os abafadores. E jogava à carica na berma do passeio da minha rua. E jogava à bola na estrada porque naquela altura só tinha geringonça quem fosse "pessoa de bem na vida". Hoje, qualquer sem abrigo tem uma geringonça... E fazíamos "guerras". A malta do começo da rua contra a malta do fim da rua. Os do meio tinham de decidir-se por quem alinhavam. E nestas "guerras" entravam espadas e escudos de madeira à moda vicking, cuidadosamente cortadas e lixadas no contraplacado que conseguíamos arranjar. E pintadas com desenhos de clãs. E também andávamos com os arcos de ferro e respectiva gancheta de arame. Os aros eram comprados no ferro-velho e tinham pertencido a lavatórios velhos e ferrugentos que na altura se usavam para lavar a cara e quando de maior diâmetro (da parte de cima do lavatório) melhor pois rolavam por cima de buracos e saltavam que nem ginjas. E jogávamos à bisca nos poiais das portas (serviam de mesas) quando estávamos fartos de bola, de guerras, de bilas e de arcos... E respirava-se ar mais puro, comia-se melhor e mais barato (uma posta de bacalhau demolhada na mercearia do sr. Américo, custava 1 escudo - cerca de 0,005 ao câmbio de hoje). o açúcar, arroz, grão, feijão, vinham em cartuchos de papel pardo que depois eram aproveitados, embebidos em álcool de queimar, para assar chouriços. Não havia ASAE nem era preciso! Ah! As refeições eram feitas no fogareiro a petróleo, em tachos de barros, de alumínio ou de esmalte (mais fino). E quando um tacho de esmalte ou de alumínio tinham os fundos já gastos ou um buraquinho, todos os dias o funileiro (homem que fazia este tipo de consertos), fazia um remendo com solda ou colocava um fundo novo. Como o amolador afiava facas e tesouras, colocava varetas nos chapéus de chuva (hoje compram-se no chinês a 5 euros). Como a mulher da fava-rica passava logo de manhãzinha com a panela da sopa à cabeça, ou a varina com a canasta de peixe fresquinho e os seus pregões que faziam vir à porta o pessoal, ou o petrólino que não passava de um verdadeira mercearia ambulante pois vendia de tudo, desde o petróleo para os fogões, como o álcool de queimar (para aquecer as cabeças desses fogões, tipo motor de arranque), carvão, azeite, óleo, etc.. E mais tanta coisa que os cromos de hoje nem sonham que existiam naquela altura a não ser que tenham um like desse tempo que se disponha a contar estas estórias... São filmes que já não passam em nenhuma sala de cinema.

