Opinião: Colecionadores de Cromos - Exame Informática

Opinião: Colecionadores de Cromos

02/06/2011 00:57:05

Nos meus tempos de miúdo não havia cá MTVs, nem Internet, nem 100 canais de televisão, nada. Era fazer carrinhos de rolamentos, jogar à bola, aos polícias e ladrões, roubar fruta nas quintas das redondezas... E colecionar cromos.



Embora não fosse grande maluco da coisa, também colecionei cromos. Mas havia pessoal que era mesmo obcecado com os cromos. Em particular os de futebol. Compravam as carteirinhas que podiam e que não podiam, fazia trocas altamente especializadas... Eram especialmente malucos coms os chamados "cromos difíceis".

As redes sociais são actualmente o campo de acção dos colecionadores de cromos. Têm um amigo em comum com um gajo qualquer, toca de chatear o dito gajo para amizade, follow, like, etc. Encontram um tipo qualquer que viram na televisão toca de mandar um pedido de amizade no Facebook, baseado num like e num comentário tipo "altamente". Trocaram um cartão de visita num congresso qualquer, sai um pedido de amizade no LinkedIn. É um fartar de colecionar cromos.

Recebo pedidos de "amizade" todos os dias. Amizade? Oh amigo eu nunca te vi mais gordo! Ah, falámos de raspão num congresso? Não sou teu "amigo", nem sequer te conheço. Recuso e ignoro diariamente meia dúza de "amigos". Só me "ligo" a pessoas que realmente conheço, com quem passei mais de uma ou duas horas. E há pessoal que se zanga. Que amua. Que se sente rejeitado. É como os colecionadores de cromos, quando era eu é que tinha o cromo difícil e não o queria trocar.

O que as pessoas parecem não perceber, tanto os que colecionam cromos nas redes sociais como os que aceitam serem cromos colecionáveis, é que quanto mais se ligam menos valor tem a rede social em causa. De facto julgam até o contrário: quanto mais ligações tiver, melhor, mais valor. Errado. Se o valor fosse maior com o número de ligações, a coisa era simples: o Facebook (ou outra rede social qualquer) ligava toda a gente a toda a gente. Valor dessa rede social? Zero.

Eu, António (faz de conta), sou amigo do Bruno e temos uma ligação de "amizade". E o Bruno é amigo do Carlos com quem tem uma ligação. Esta rede tem valor porque a minha ligação ao Bruno permite-me chegar ao contacto com o Carlos. Mas se eu, António, estiver ligado ao Carlos directamente, sem que haja uma relação real, esta pequena rede passou a ter um valor de zero. A minha ligação ao Carlos é fictícia e a ligação do Bruno ao Carlos perdeu valor porque para chegar ao Carlos o António, supostamente, não precisa do Bruno.

Alguém se lembra da rede social que ia mudar Portugal? O Startracker? Pois é. Vale zero. Toda a gente se ligou a toda a gente. Toda a gente era "amiga" do Presidente da República. Valor final: zero. Resultado final: os utilizadores abandonaram o barco. Especialmente os colecionadores de cromos.

Quando vejo perfis no Facebook, no Twitter, no LinkedIn e outros, com coisas tipo 543 amigos, 1254 followers, 871 ligações profissionais, a minha reacção é logo: tanga. E é logo um factor de perda de credibilidade. Para mim é alguém que não reserva nem preserva as suas ligações pessoais reais, alguém que quer mostrar algo que não tem, que se quer credibilizar por uma rede de conhecimentos que, na realidade, é completamente fictícia. É o que dá colecionar cromos.

Sobre o autor

Mário Valente podia ter sido apenas mais um licenciado de informática, mas o seu currículo diz-nos que foi também líder do primeiro ISP privado português (Esotérica), que se dedicou a algumas piratarias (Transpac/PCPursuit) e a algumas passagens por cargos de chefia (ITIJ, no Ministério da Justiça, e Personalis). Pelo meio ainda arranjou tempo para servir ao balcão e tocar guitarra em bares. Entrado na ternura dos 40, cortou o cabelo e começou a dar aulas na Universidade. Em paralelo, criou a empresa Maverick e passou a dedicar-se ao investimento em novas ideias de negócio no setor das tecnologias.

Palavras-chave do artigo
cromos, cromos da bola, redes sociais

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Colecionador de Cromos

Pois é, eu fui um coleccionador de cromos "profissional". Os mais difíceis, eram trocados a 4 ou a 6 meio difíceis. E não podiam estar amachucados ou rasgados senão não trocava! Era como os bilas e os abafadores. E jogava à carica na berma do passeio da minha rua. E jogava à bola na estrada porque naquela altura só tinha geringonça quem fosse "pessoa de bem na vida". Hoje, qualquer sem abrigo tem uma geringonça... E fazíamos "guerras". A malta do começo da rua contra a malta do fim da rua. Os do meio tinham de decidir-se por quem alinhavam. E nestas "guerras" entravam espadas e escudos de madeira à moda vicking, cuidadosamente cortadas e lixadas no contraplacado que conseguíamos arranjar. E pintadas com desenhos de clãs. E também andávamos com os arcos de ferro e respectiva gancheta de arame. Os aros eram comprados no ferro-velho e tinham pertencido a lavatórios velhos e ferrugentos que na altura se usavam para lavar a cara e quando de maior diâmetro (da parte de cima do lavatório) melhor pois rolavam por cima de buracos e saltavam que nem ginjas. E jogávamos à bisca nos poiais das portas (serviam de mesas) quando estávamos fartos de bola, de guerras, de bilas e de arcos... E respirava-se ar mais puro, comia-se melhor e mais barato (uma posta de bacalhau demolhada na mercearia do sr. Américo, custava 1 escudo - cerca de 0,005 ao câmbio de hoje). o açúcar, arroz, grão, feijão, vinham em cartuchos de papel pardo que depois eram aproveitados, embebidos em álcool de queimar, para assar chouriços. Não havia ASAE nem era preciso! Ah! As refeições eram feitas no fogareiro a petróleo, em tachos de barros, de alumínio ou de esmalte (mais fino). E quando um tacho de esmalte ou de alumínio tinham os fundos já gastos ou um buraquinho, todos os dias o funileiro (homem que fazia este tipo de consertos), fazia um remendo com solda ou colocava um fundo novo. Como o amolador afiava facas e tesouras, colocava varetas nos chapéus de chuva (hoje compram-se no chinês a 5 euros). Como a mulher da fava-rica passava logo de manhãzinha com a panela da sopa à cabeça, ou a varina com a canasta de peixe fresquinho e os seus pregões que faziam vir à porta o pessoal, ou o petrólino que não passava de um verdadeira mercearia ambulante pois vendia de tudo, desde o petróleo para os fogões, como o álcool de queimar (para aquecer as cabeças desses fogões, tipo motor de arranque), carvão, azeite, óleo, etc.. E mais tanta coisa que os cromos de hoje nem sonham que existiam naquela altura a não ser que tenham um like desse tempo que se disponha a contar estas estórias... São filmes que já não passam em nenhuma sala de cinema.

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Re: Colecionador de Cromos

Belos, belos tempos amigo! O curioso é que a malta crescia e ficávamos "grandes"...
Há coisas que agora me escapam...

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Re: Colecionador de Cromos

... grandes e responsáveis! Aos 14 comecei a trabalhar, aos 16 por falecimento de meu Pai virei Chefe de Família, aos 18 casei e aos 19 era Pai.

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Re: Opinião: Colecionadores de Cromos

"Nos meus tempos de miúdo não havia cá MTVs, nem Internet, nem 100 canais de televisão, nada"

Mas hoje em dia ainda temos 4 canais de acesso livre , como pode falar 100 canais ?
100 canais para quem tem dinheiro para os pagar, pois pagar 40 euros para meos e outos zons e etc .. nem toda gente é assim tão rica .

Ao contrario de outros países com implementação da Televisão digital terrestre aumentou numero de oferta de canais livres , mas cá em Portugal esta tudo na mesma , no tempo de miúdo via a MTvs por satélite em acesso livre sem pagar um tusto.
Agora com evolução estranhamente paga-se mais do que aquilo que se devia pagar , isto no caso de Portugal , pois em outros países consegue-se ter acesso a vários canais sem pagar um tusto .

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Re: Opinião: Colecionadores de Cromos

Nao sei o q é q isto tem a ver com o artigo, mas OK.

-- MV

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Re: Opinião: Colecionadores de Cromos

Mais um do meu clube!
Não há paciência para os "amigos".

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hummm

hehehehe muito bom

Tambem é engraçado ver algumas empresas a dizer
que tem não sei quantos milhares de seguidores na
"pagina" do facebook.

Os gajos só fizeram like porque ainda não tinham o
tal cromo :-)

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Re: Opinião: Colecionadores de Cromos

Não posso deixar de concordar...

Eu próprio fiz uma experiência: criei um perfil no facebook para a loja da minha mulher. Não coloquei qualquer informação nem imagem no perfil e pus-me à cata de "amigos". Em pouco mais de um mês consegui mais de 3000 "amigos". Pessoas que não nos conheciam, nem ficaram a conhecer com o perfil que tínhamos na altura mas que concordaram em nos aceitar como "amigos", e outras que nos convidavam só porque tínhamos 40 ou 50 "amigos" em comum.

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E HOJE ...

"...roubar fruta nas quintas das redondezas...".

E Hoje São Uns Downloadzinhos Piratas ?

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Mário Valente podia ter sido apenas mais um licenciado de informática, mas o seu currículo diz-nos que foi também líder do primeiro ISP privado português (Esotérica), que se dedicou a algumas piratarias (Transpac/PCPursuit) e a algumas passagens por cargos de chefia (ITIJ, do Ministério da Justiça e Personalis). Pelo meio ainda arranjou tempo para ser servir ao balcão e tocar guitarra em bares. Entrado na ternura dos 40, cortou o cabelo e começou a dar aulas na Universidade. Em paralelo, criou a empresa Maverick e passou a dedicar-se ao investimento em novas ideias de negócio no setor das tecnologias.