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Model 3, o carro que quer mudar o mundo

O Tesla Model 3 pode representar para a indústria automóvel o que o iPhone representou para os mercados das telecomunicações e dos gadgets. Saiba porquê

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Sérgio Magno

Há quem acredite que o Tesla Model 3 pode ser tão importante como o Ford Model T, o carro que, por ter sido o primeiro a ser fabricado em série, mudou não só a indústria automóvel como a sociedade – foi o primeiro carro com um preço acessível a uma boa parte dos trabalhadores norte-americanos. E os números das reservas para o Model 3 parecem confirmar esta ideia. Apesar de a Tesla ter anunciado que o carro só vai começar a ser entregue no final de 2017, já foram registadas quase 300 mil reservas para este veículo totalmente elétrico e com forte componente tecnológica. Ainda mais impressionante: mais de 100 mil foram feitas nas lojas da marca gerida por Elon Musk ainda antes de se conhecer qualquer imagem do veículo. Aliás, nas redes sociais rapidamente surgiram imagens de longas filas junto às lojas da Tesla, algo muito semelhante ao que estamos habituados a ver nas lojas da Apple após o lançamento de um iPhone ou de um iPad. Isto porque as reservas online só abriram depois da primeira apresentação do veículo. Os números impressionantes – basta considerar que o Nissan Leaf, o carro elétrico mais popular da história, demorou cinco anos a chegar a 200 mil unidades vendidas – são justificados pelas expetativas criadas: preço de venda de 35 mil dólares, tecnologia de ponta (incluindo o Autopilot), autonomia real superior a 300 km, elevado desempenho e, é claro, o design Tesla. Independentemente do que se vier a passar, uma coisa a Tesla já assegurou: cerca de 300 milhões de euros para ajudar a desenvolver e produzir o carro. Isto porque cada reserva custa 1000 euros na Europa e 1000 dólares nos Estados Unidos (valor reembolsável).

Encomendas nacionais

O facto de não existir qualquer loja Tesla em Portugal não impediu alguns portugueses de estarem nos primeiros lugares das filas para reservar o Model 3 na lojda marca em Tilburg, Holanda. Foi o caso de Henrique Sanchez, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), que justifica esta aposta aparentemente cega: «Tanto a Tesla como Elon Musk inspiram confiança por aquilo que já fizeram. Durante o processo de reserva e na visita que fizemos à fábrica de Tilburg só encontrámos pessoas que acreditam no que estão a fazer. A Tesla está focada na energia e não apenas na venda de automóveis. Estão a cumprir a missão de ajudar a economia a deixar de estar baseada em combustíveis fósseis e passar a estar baseada em fontes de energia sustentáveis. Ao comprar um Model 3 estou a pensar em mim e nos meus filhos».

Henrique Sanchez, presidente da UVE, viajou até à Holanda para ser um dos primeiros a reservar o Model 3

Este espírito de investimento numa marca que aposta na sustentabilidade é partilhada por Sérgio Almeida, outro dos portugueses que reservou o Model 3 antes da apresentação. «Fiz a reserva porque acredito que temos de mudar a nossa mobilidade. Quer fosse ou não um carro fabuloso, acho que o meu dinheiro está bem entregue a uma empresa que está a mudar o mundo». Mais adepto das duas rodas, o líder da Zevtech, uma empresa que comercializa motos elétricas, admite que «ficaria desiludido se o carro ultrapasse muito os 40 mil euros».

O preço é uma questão importante devido à promessa de Elon Musk: preço base de 35 mil dólares. Um valor nunca antes visto num Tesla, que facilmente custam três ou quatro vezes mais, e até mais baixo que concorrentes com características semelhantes com motores de combustão interna. Ao fim de contas, estamos a falar de um carro sofisticado e, na versão base, capaz de acelerar dos 0 aos 100 km/h em 6 segundos ou mesmo menos – estão prometidas versões ainda mais potentes. Mas, como relembra Carlos Jesus da Zeev, empresa que já vendeu dezenas de Tesla Model S em Portugal, «o valor em dólares é enganador porque não inclui IVA, taxas de importação e custos de transporte e legalização». Para este empresário ligado à mobilidade elétrica e às energias renováveis, «em Portugal é de esperar um preço final entre os 45 e os 50 mil euros». Isto para a versão base.

Outro possível problema é a falta de assistência técnica oficial e lojas em Portugal. A Tesla aposta exclusivamente num modelo de comercialização direta, sem recorrer a importadores ou outros intermediários. Isto significa, por exemplo, que os clientes portugueses da Tesla podem incorrer em custos de deslocação para centros de assistência disponíveis em outros países europeus, mesmo que surja um problema durante o período de garantia. Carlos Jesus diz que «infelizmente, a Tesla ainda não tem planeado lançar qualquer loja ou centro de assistência em Portugal». Mas talvez surja um serviço oficial de assistência mais próximo brevemente, porque, em resposta no Twitter a um cliente espanhol, Elon Musk anunciou a intenção de abrir um centro em Espanha ainda este ano. Entretanto a UVE e alguns utilizadores de Tesla em Portugal já estão a organizar uma concentração em Lisboa no dia 8 de maio como forma de demonstrar a Elon Musk que já faz sentido apostar no nosso país. Até porque, segundo Carlos Jesus, em Portugal entre carros adquiridos e encomendados já devem existir quase 100 Tesla Model S. O que é um valor considerável para um modelo que tem um preço médio de venda acima dos 100 mil euros.


Carregadores rápidos

Como o iPhone da Apple, boa parte do sucesso da Tesla está associado ao ecossistema. Além dos carros, a os clientes Tesla têm acesso a uma rede gratuita de carregamento rápido. Rede que está em expansão em ritmo acelerado e que deve chegar a Portugal até ao final do ano com três carregadores. Ao que a Exame Informática conseguiu apurar, já foram desbloqueadas as questões relacionadas com a regulamentação nacional, que proíbe a instalação de pontos de carga públicos que não estejam integrados na rede Mobi.e. No entanto, a Tesla não acedeu aos nossos pedidos para confirmar esta informação, limitando-se a anunciar que os planos incluem instalar três postos de carga em território nacional até ao final do ano, como indicado no site da marca (um na zona do Porto, outro na zona de Lisboa e um terceiro no Algarve).

A possibilidade de, por exemplo, viajar de Lisboa a Paris sem qualquer custo energético associado muda por completo o conceito de mobilidade, expandido o que já acontece com os veículos elétricos em zonas urbanas. Isto porque além da carga ultarrápida da rede Tesla, o Model 3 deverá ser capaz de fazer mais de 300 quilómetros sem carregamentos intermédios, eliminando assim uma das limitações mais importantes dos veículos elétricos.

A rede própria, sem custos associados, vai ser também uma arma da Tesla para diferenciar-se dos concorrentes. Isto porque não é só a Tesla que está a preparar o lançamento de carros elétricos de preço acessível e grande autonomia. Antes da chegada do Model 3 o Opel Ampera-E, a versão europeia do Chevrolet Bolt, já deverá estar a circular nas estradas nacionais. Também este Opel será capaz de fazer Lisboa – Porto sem carregamentos intermédios. E já hoje é possível adquirir um Nissan Leaf com autonomia máxima anunciada superior a 200 km.

À rede privada da Tesla, as outras marcas respondem com as redes públicas interoperáveis. O que nos faz lembrar as primeiras fases da luta Google Android vs Apple iOS. De um lado, um sistema mais aberto, de outro um sistema mais fechado, mas com funcionalidades exclusivas. Em Portugal, o governo já anunciou que a expansão da rede de carga rápida, que neste momento conta com pouquíssimos carregadores, vai crescer até aos 50 postos de carga. Esta expansão da rede pode fazer toda a diferença para quem tem dúvidas em adquirir um elétrico.

Uma coisa é certa. Com quase 300 mil reservas, que, a confirmarem-se, representam vendas superiores a 10 mil milhões de dólares, o Model 3 vem pressionar toda a indústria automóvel a acelerar o processo de desenvolvimento e comercialização dos elétricos. O que pode mudar todo o mercado muito mais rapidamente. É que a adoção de veículos elétricos tem consequências muito vastas em áreas como a produção e distribuição de combustíveis, assistência técnica e pós-venda. Uma vez mais, a comparação com o iPhone surge naturalmente. Recorda-se como eram os telemóveis antes do iPhone e quais as marcas que controlavam o mercado?

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