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Pagar com o telemóvel? Só quando os bancos portugueses quiserem

A MasterCard pretende trazer para Portugal a plataforma de pagamentos online MasterPass durante 2016. Quanto ao uso de tokens e pagamentos por telemóvel... só quando os bancos portugueses estiverem dispostos a investir.

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Hugo Séneca

Studio Northwood

Em Portugal, ainda não é possível fazer pagamentos com telemóveis. E ainda não há sistemas que substituem os números de cartões de crédito por tokens que limitam os riscos de fraude ou usurpação porque funcionam quando associados a um dispositivo e a um perfil de utilizador. Paulo Raposo, gestor da MasterCard Portugal, confirmou hoje, num encontro com jornalistas, que a tecnologia já está disponível para entrar no mercado Português, mas recordou também que os bancos têm um papel «fulcral» sobre a evolução dos meios pagamentos e transações: «Nos últimos tempos não tem sido fácil falar de investimento num banco. E talvez por isso não haja ainda um modelo de negócio e de adoção da tecnologia que os bancos considerem atrativo».

Apesar da retração a que os bancos, o responsável da MasterCard em Portugal não tem dúvidas de que os pagamentos por telemóvel vão avançar, com maior ou menor atraso. «É algo que vai acontecer, nem que seja através de entidades que tradicionalmente não estão neste segmento ou então entidades externas que podem ver Portugal como um mercado apetecível».

Google Pay, Samsung Pay, e até a Apple Pay figuram entre as «entidades externas» ou «não tradicionais» com maior potencial de entrada no mercado. A estas marcas poderão juntar-se ainda os operadores de telecomunicações (o Meo já tem algumas experiências na matéria), que têm grande proximidade com os clientes, mas necessitam de recorrer a cartões SIM com segurança acrescida para conseguirem prestar serviços neste segmento sem depender de terceiros.

A MasterCard já trabalha com a Google e a Samsung em sistemas de pagamento, mas está apostada em não perder a relação privilegiada com os bancos nacionais, através do fornecimento de tecnologias que poderão ser usadas para os bancos criarem as denominadas carteiras eletrónicas, que mais não são que apps que são usadas nos telemóveis para fazer pagamentos.

Sem as carteiras virtuais, também o investimento em sistemas de tokens perde boa parte da razão de ser. Nos mercados mais avançados, a tokenização tem sido usada para garantir que uma transação é efetuada uma única vez a partir de um dispositivo predefinido. Resultado: não é necessário usar o número do cartão de crédito e as tentativas de fraude têm menos chances de ser bem sucedidas – mesmo quando um hacker consegue obter esse token. Mais uma vez, Paulo Raposo remete a última palavra para quem tem de investir nestas soluções: «estamos a trabalhar com os bancos nessa questão».

Vem aí o MasterPass

A crise pode ter deixado alguns métodos de pagamento em modo de stand-by, mas não deverá travar outros que mereceram igual destaque no desfile de tecnologias da MasterCard. A meio dessa ronda pelos novos métodos de pagamento, Paulo Raposo fixou uma meta para uma estreia: «queremos trazer o MasterPass para Portugal durante 2016».

O MasterPass tem os fãs do comércio eletrónico como principais destinatários. À semelhança de outros métodos de pagamento que já existem em várias lojas online, este sistema agiliza o processo de compra, evitando que o utilizador tenha de inserir números e códigos de um cartão de crédito quando faz um a compra na Internet – ou mesmo dentro de uma app. «Estamos em conversações com bancos e comerciantes para a adoção desta solução», arescentou Paulo Raposo à margem do evento.

O líder da MasterCard Portugal lembrou ainda que o MasterPass não se limita às compras online. «Também pode agregar compras nas lojas tradicionais, transações efetuadas por NFC (telemóveis) e contactless (cartões de crédito que funcionam com RFID)», acrescenta.

Uma dessas variantes já começou a ser explorada no mercado português muito antes do MasterPass ser anunciado: Em 2009, a MasterCard lançou, em Portugal, os primeiros serviços de pagamento através de cartões contactless, que confirmam pagamentos através de comunicações de radiofrequências com terminais compatíveis. A Visa também lançou um serviço semelhante – mas as duas soluções tardam em destronar o porta-moedas para os pagamentos de baixo montante.

Paulo Raposo lembra que o contactless já é uma realidade em Portugal, mas também admite que ainda há espaço para crescer: «Em Portugal, há 30% de terminais de pagamentos compatíveis com cartões contactless». Há mais alguns números que ajudam a descrever o cenário: no segundo trimestre de 2015 as transações com cartões contactless registaram um crescimento de 277% face ao mesmo trimestre de 2014. Em média, cada transação com um cartão contactless não supera os 11,29 euros.

Os números confirmam que o contactless está realmente “está vivo”, mas destoam dos valores apresentados noutras paragens. «Em Espanha, 60% dos terminais já permitem pagamentos por contactless», informa Paloma Real, diretora de Desenvolvimento de Negócio da MasterCard para Portugal e Espanha.

Os dois responsáveis da MasterCard admitem que a colocação do símbolo de pagamentos através de redes sem fios poderia ajudar os consumidores a lembrarem-se que, eventualmente, têm na carteira cartões que já permitem pagamentos por contactless. Mas essa é apenas uma das peças necessárias para a engrenagem dos “pagamentos sem fios” se expandir no mercado. O crescimento do contactless e do “primo mais novo” que costuma ser usado através das comunicações de NFC com telemóveis depende em boa parte dos serviços aderentes – e da conveniência que propicia aos utilizadores.

Chris Kangas, diretor da Área de Contactless e Pagamentos em Dispositivos Móveis da MasterCard na Europa, dá como exemplo o sucesso alcançado com a bilhética do transporte público de Londres. O sistema Oyster suporta mais de 12 milhões de transações relativas ao uso de bilhetes dos transportes públicos da capital britânica. E muitas delas já são desencadeadas por “commuters” que atravessam a cidade, todos os dias, de casa para o trabalho e têm os títulos de transporte sempre à mão – desde que tenham os respetivos telemóveis consigo. Chris Kangas nota que há uma diferença entre Londres e Lisboa. «Há dois anos passei férias aqui. Quis dar uma volta num daqueles elétricos históricos, só que deparei-me logo com um problema: onde é que posso comprar um bilhete».

A lacuna também já foi devidamente identificada por Paulo Raposo: nos últimos tempos, a MasterCard tem vindo mostrar, junto dos operadores de transportes públicos da capital, os benefícios da adoção de um sistema de bilhética que é também um método de pagamento – e que opera no telemóvel. Não existem quaisquer previsões para a estreia de um serviço similar. Uma incógnita que também terá razões de ordem económica: as empresas de transportes públicos de Lisboa e do Porto foram alvo de processos de concessão - e os sistemas de pagamento contactless dificilmente terão estado no topo das prioridades das respetivas equipas de gestão.

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