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Watson: de cozinheiro ao diagnóstico do cancro da mama

Visitámos os laboratórios da IBM em Zurique e provámos alguns pratos propostos por um supercomputador. No final, descobrimos como o big data pode ajudar a prevenir o cancro da mama.

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Hugo Séneca, em Zurique

Aconteça o que acontecer, a comida da mamã será sempre a comida da mamã. Não se sabe o que o Watson pensa da comida das mamãs, mas é um dado adquirido que nunca provou comida nem tem mamã. O que não o impede de criar receitas culinárias originais. Num cozinheiro de carne e osso, seria uma falha imperdoável, mas num computador cozinhar sem nunca ter provado comida até soa a elogio. Na IBM, o elogio é ilustrado com números: 30 mil receitas descarregadas e 9 triliões (9.000.000.000.000.000.000) de combinações de ingredientes possíveis. Os números também comem – e talvez por isso, a IBM não perde a oportunidade de mostrar aos jornalistas que visitam os laboratórios nos arredores de Zurique que já é possível usar a análise de padrões e tendências em grandes volumes de dados. E por isso, bem a meio da agenda com encontros sobre algumas das mais recentes novidades tecnológicas há um momento que se distingue: um buffet com comida confecionada a partir das receitas idealizadas pelo Watson.

E afinal, é possível sobreviver à comida idealizada pelo Watson? Sim, é possível. Na globalidade, as receitas do Watson não ficam atrás daquelas que podem ser encontradas em qualquer buffet “normal” - e pode mesmo superar a qualidade de muitas cantinas que por aí andam.

Os aperitivos que combinam tiras de carne com framboesas e flores, ou que propõem vieiras com uma “cama” de tomate e cebola estão em consonância com o que alguns chefs mais ousados já fazem pela Europa fora. Pelo contrário, a carne sobre papaia com cebola caramelizada já revela uma ousadia acima da média para a culinária do Velho Continente – mas não chega a merecer um lugar no livro de recordações do palato.

No buffet de demonstração, a verdadeira pièce de résistance chegou com a carne panada colocada sobre uma fatia de pitaia e batatas fritas regadas com um molho que mais parece papa de aveia. Para quem gosta de aromas adocicados, poderá ser prato por que sempre esperou… para quem prefere o polo oposto (os ácidos, picantes e amargos) pode tornar-se enjoativo – o que não chega a beliscar a originalidade e a combinação dos ingredientes.

Hoje, qualquer pessoa pode testar os dotes de culinária do Watson na Internet. Basta colocar a lista de ingredientes disponíveis e esperar o resultado. A larga maioria das receitas apresentadas é original – e muitas delas nunca foram sequer confecionadas. Em todas as receitas, é possível substituir um dos ingredientes por outro que se equivalha; e é também possível aplicar restrições relacionadas com alergias ou questões de saúde na formulação das receitas.

Hoje, o Watson opera com base nos ensinamentos de chefs reconhecidos, roteiros de culinária e até do regime alimentar da Marinha dos EUA. Maria Soimu, investigadora da IBM que apresentou um pequeno balanço sobre a aplicação do big data à culinária, recorda que o Watson ainda não desistiu de aprimorar as receitas, que têm por base combinações que potencialmente são bem recebidas pelo gosto humano: «No futuro, podemos vir a adicionar o reconhecimento de comandos de voz, e receitas que têm em conta uma determinada dieta ou o exercício físico que é praticado por uma determinada pessoa».

Os responsáveis da IBM admitem ainda usar tweets e posts nas redes sociais para a definição de um perfil de utilizador (se é um conservador ou um aventureiro) que poderá influenciar a adaptação de receitas aos gostos de cada pessoa. Quem não quer deixar o almoço ou o jantar ao critério de uma plataforma de big data, poderá contentar-se com a variante de receitas de cocktail ou experimentar ferramentas que estão em desenvolvimento nos laboratórios da IBM e permitem analisar o valor alimentar de um prato, através da análise de cores que surgem em fotografias tiradas a um prato que já tenha sido confecionado.

Maria Soimu não envereda pela velha dicotomia dos “humanos contra as máquinas”, mas lá deixa escapar uma das razões que levaram uma grande marca das tecnologias a apostar na culinária big data: «Usar as máquinas para levar os humanos a ponto a que nunca chegaram».

As receitas do Watson podem deslumbrar, mas a sua capacidade de análise pode salvar vidas: em 2016, a IBM deverá começar a comercializar uma primeira solução desenvolvida com o Hospital Universitário de Viena, que permitirá ao Watson analisar com rapidez e detalhe mamografias, radiografias, ressonâncias magnéticas e ultrassons de despiste do cancro da mama.

A solução não só poderá apresentar probabilidades no que toca aos tipos de maleita que eventualmente possam ter sido detetados como também permitirá recomendar terapias e indicar os procedimentos que um radiologista deverá seguir. Em 2017, a mesma ferramenta deverá começar a ser disponibilizada para a especialidade de cardiologia.

A IBM ainda não garantiu a necessária certificação de entidades como a Food And Drugs Administration (FDA), dos EUA, e talvez por isso prefira não referir qual a taxa de erro do Watson na análise de exames que envolvem imagens. Mas sempre lembra que a capacidade de análise do Watson é constante, não está sujeita à fadiga ou ao humor – e provavelmente conseguirá uma taxa de erros inferior aos 15% a 30% dos especialistas humanos… que, mesmo assim, terão sempre a palavra final.

A comida da mamã será sempre a comida da mamã – e há uma única coisa que o Watson pode fazer sobre isso: ajudar os médicos da atualidade as salvar as mamãs.

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