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Uma ilha no Espaço

A ESA lançou hoje mais quatro satélites Galileo para o Espaço. Na ilha de Santa Maria, a missão foi acompanhada durante 942 segundos cruciais para o alargamento de um projeto que pretende dar à UE a independência necessária face ao americano GPS. Nos Açores, o hub aeroespacial começa a ganhar forma

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O céu está coberto de nuvens num típico dia de Outono na Ilha de Santa Maria, mas na Estação de Rastreio de Satélites da Agência Espacial Europeia (ESA) quase todos insistem em falar de «visibilidade». O termo é pronunciado com o nervoso miudinho de quem espera que algo importante aconteça. Até que acontece mesmo. Do Centro Espacial de Kourou, Guiana Francesa chegam as imagens. O som roufenho das transmissões de rádio propaga-se no pequeno abrigo que serve de sentinela tecnológica a meio do Atlântico. O dejá vu é notório quando chega a hora da contagem decrescente. Toda a gente já viu algo parecido na TV ou na Internet. E esse algo parecido continua a ter um poder de atração inexplicável quando chega as 13H06S48, na Hora Universal que, por sinal, é também a hora de Portugal Continental, mas é uma hora a menos nos Açores: «3,2,1, descolagem!» E aí vai o foguetão Ariane 5 ao serviço de mais uma missão estratégica para a Europa. A bordo leva quatro satélites Galileo que deverão juntar-se aos 14 que já se encontram em órbita, a mais de 22 mil quilómetros da Terra.

No abrigo da Estação de Rastreio de Satélites da ESA, que é operada pela Edisoft, a atenção é redobrada. Nenhum dos cinco operadores da Edisoft ousa tirar os olhos dos respetivos ecrãs. Até que cerca de 10 minutos depois do lançamento, começa o período de visibilidade. Lá fora o ambiente é idílico, as vacas mugem ou mudam de pasto, a borrasca ameaça e logo desaparece e o mar vê-se em quase todos os lados. O céu está coberto e opaco. Só alguém com superpoderes poderia tentar ver, a olho nu, o que resta do Ariane 5 (que entretanto foi cumprindo a missão com a desacoplagem de alguns módulos) com os quatro Galileos a bordo. Mas dentro da estação de rastreio o período de visibilidade já teve início. Se tudo correr como definido no plano da missão, deverá durar 942 segundos – 15,7 minutos no total, o período necessário para o Ariane 5 atravessar quase todo o Atlântico até chegar à Ucrânia.

É durante este trajeto que a Estação de Rastreio de Satélites da Ilha de Santa Maria assume o protagonismo: através de uma antena parabólica com 5,5 metros de diâmetro, são captados múltiplos dados enviados por comunicações de rádio do lançador. Com estes dados, que são reenviados diretamente para Kourou, torna-se possível saber, na hora, o estado em que se encontram os diferentes componentes críticos do lançador e também é possível conferir se a trajetória seguida está de acordo com o previsto. Não há som roufenho nos altifalantes, mas Vera Carvalho, profissional da Edisoft que é responsável pela Operação do Sistema de Telemetria, já começou uma contagem decrescente na sua cabeça.

Por volta dos 24 minutos após o lançamento, já na reta final do denominado período de visibilidade alcançado pela Estação de Rastreio de Satélites de Santa Maria, o lançador reduz a taxa de débito de dados para a Terra de 1 Megabits por segundo (Mbps) para 500 Mbps. Está definido que o procedimento tem de ser feito de forma automática, mas Vera Carvalho sabe que um imprevisto pode obrigar a uma intervenção manual. Os olhos não saem do ecrã. Até que chega o momento crucial. Vera esboça um sorriso para Ricardo Conde, o líder da equipa e responsável pela Coordenação da Estação de Rastreio de Satélites. De seguida volta a fixar compenetradamente o ecrã. E sopra de alívio. O procedimento automático foi ativado como previsto.

«Já tínhamos treinado esta situação. Se tivesse de fazer a mudança de bitrate manualmente, provavelmente, conseguiria fazê-lo em menos de cinco segundos, mas implicaria sempre a perda de informação. E isso é algo que não queremos que aconteça, não é?», explica a operadora de telemetria da Edisoft, já depois de a equipa ter festejado timidamente o fim do período de visibilidade, sem qualquer falha ou percalço, e com o Ariane 5 a caminho dos céus da Austrália, onde deverá ativar nova propulsão para deixar a órbita de lançamento e elevar-se até à órbita operacional da constelação Galileo.

À semelhança dos restantes operadores, Vera Carvalho esteve seis semanas em treino para aquele momento. «Passámos por várias situações de contingência que envolveram até satélites reais. Fomos submetidos a testes, que pretendem saber se sabemos reagir às diferentes situações. Temos de saber manter a calma e também temos de mostrar que sabemos o que temos de fazer a cada momento», acrescenta.

Tudo em duplicado

Na Estação de Rastreio de Satélites segue-se a mesma máxima da redundância que é aplicada a todos os veículos, equipamentos ou aplicações espaciais. Vera Carvalho não precisou, mas se fosse necessário teria a colega e conterrânea Vanessa Esteves pronta a entrar em ação e a assumir a responsabilidade pela telemetria. O mesmo acontece com a operação da antena parabólica que capta os dados da missão: Hugo Braga assume a operação, mas caso tivesse de abandonar o posto por algum imprevisto incontornável seria substituído por Rui Chaves.

Os quatro jovens são hoje os rostos de uma nova profissão que se estreou na ilha em 2008 com a instalação das primeiras antenas de rastreio ou comunicação com satélites que são geridas pela Edisoft. São eles os pioneiros de uma potencial transformação económica que já abriu caminho ao lançamento do programa AIR Center, que resulta da coordenação do Governo Regional dos Açores e o Governo da República.

Nas parangonas dos jornais, foi a possibilidade de instalação de uma base espacial para lançamentos de menor dimensão na Base das Lajes que mereceu maior destaque. Mas há mais infraestruturas que poderão vir a dar força ao ainda embrionário programa espacial açoriano. O rastreio de satélites é seguramente uma das vias possíveis – e Ricardo Conde não esconde que a Edisoft, que tem como acionistas a gigante francesa Thales e o Estado Português, está apostada em reforçar a presença nesse segmento com a eventual instalação de novos equipamentos ou a inclusão de novas funcionalidades no que toca à comunicação com as diferentes missões espaciais. E lembra mesmo que não é só nas Lajes que há capacidade para a instalação de uma base espacial. Na Ilha de Santa Maria também há uma pista que garantiu a certificação necessária para figurar na lista de locais que poderia ser usados pelo Space Shutle da NASA, em caso de um qualquer imprevisto.

Como seria de esperar de um dos gestores da Edisoft e dos principais peritos da indústria aeroespacial nacional, Ricardo Conde não tem como esconder o entusiasmo. Até porque a própria Edisoft pode dizer orgulhosamente que é a produtora do sistema operativo dos Galileo. Mas o responsável da empresa portuguesa tem também números que justificam o entusiasmo: «Desde 2008 até agora, só na Ilha de Santa Maria, a indústria gerou um retorno para economia local de 2,5 milhões de euros. E estamos a falar apenas das atividades relacionadas com a Edisoft. A indústria espacial pode funcionar como uma alavanca económica da região. Segundo as estimativas da Associação Proespaço, que representa as empresas portuguesas deste setor, cada euro investido pode valer um retorno de quatro».

Gerhard Billig, Engenheiro de Sistemas da ESA e responsável pelos Serviços de Rastreio de Lançamentos em Santa Maria e New Nortia (Austrália), é visita frequente da ilha mais a sul do arquipélago dos Açores. Apesar de ser um forasteiro que trabalha a maior parte do ano em Darmstad, Alemanha, o perito alemão conhece bem as virtudes de Santa Maria. E aponta-as no mapa. «Podíamos estar noutras ilhas (dos Açores), mas nunca poderíamos fazer este tipo de trabalho no Continente. Aqui, conseguimos ter visibilidade do horizonte entre nordeste e sudoeste. Apenas o Pico Alto tapa esse horizonte a Leste», refere.

O alto do Pico

Apesar de ser a maior elevação da ilha que gera uma zona de sombra que limita a visibilidade (a captação de dados) das antenas parabólicas, o Pico Alto não chega a criar qualquer transtorno. Regra geral, as missões lançadas das Américas são enviadas em direção a Leste, para tirar partido da rotação da Terra. E não se prevê que o lançamento de missões a partir de Baikonur, no Cazaquistão, se faça para Oeste, pelo que o obstáculo na prática não afeta a operacionalidade das antenas parabólicas de Santa Maria, que foram instaladas já com o lançamento da constelação Galileo em mente.

A Estação de Rastreio de Satélites de Santa Maria apenas pode ser útil nos denominados lançamentos de média inclinação (o que exclui lançamentos que usam órbitas em torno dos Polos ou do Equador). Para a ESA, essa restrição não é limitadora: «Os lançamentos da constelação Galileo vão continuar. Além dos lançamentos que deverão completar a constelação, haverá ainda lançamentos que têm por objetivo a manutenção ou a substituição de satélites. E todos eles exigem a visibilidade que alcançada aqui na Ilha de Santa Maria», acrescenta Gerhard Billig.

Stephane Corvaja

É a primeira vez que são enviados para o Espaço quatro satélites acomodados num único lançador. A expectativa – e o nervoso miudinho são óbvios. À data de publicação deste texto já se sabia que os quatro satélites foram libertados com sucesso na órbita definida, mas a missão só poderá ser totalmente dada por concluída depois das correções previstas para os dois dias seguintes, que recorrem a comandos à distância que ativam os propulsores de cada satélite.

Na ESA estão já elencadas as três virtudes da cartilha deste projeto que levaram a UE a avançar com investimentos milionários que, em 2017, já deverão permitir que os utilizadores de telemóveis ou dispositivos de navegação optem pela constelação Galileo ou pela concorrente GPS: 1) a constelação europeia não depende de militares; 2) o serviço disponibilizado à população tem uma precisão inferior a um metro e é 10 vezes superior à do GPS que é disponibilizado livremente; e 3) haverá indicadores que alertam os utilizadores quando, por algum imponderável, a precisão do serviço não é suficiente para suportar serviços críticos para a comunidade.

Billig seguramente que conhecerá estes três traços distintivos, mas o seu pensamento continua centrado na Estação de Rastreio de Satélites de New Nortia, que deverá acompanhar a missão até ao primeiro momento crítico em que serão desacoplados os dois primeiros satélites, e o segundo momento crítico que ocorre cinco minutos depois, com a desacoplagem de mais dois satélites: «Nesta área não há trabalhos rotineiros. Podemos testar tudo 10 vezes e correr tudo bem e à 11ª depararmo-nos com algo diferente. E por isso treinamos as situações em que há erros, e tentamos sempre seguir os procedimentos definidos e a comunicação entre equipas».

No Espaço, a imprevisibilidade destrói as rotinas – e na pequena e formosa ilha de Santa Maria, os hábitos seculares já entraram, de alguma forma, em mutação. Com a experiência ganha em missões que captam dados de satélites ou que levam veículos de reabastecimento para a Estação Espacial Internacional, Vera Carvalho tornou-se testemunha privilegiada dos tempos que mudam: «Hoje, o meu filho diz na escola que é a mãe que guia os satélites e os veículos que levam comida para os astronautas»

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