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Web Summit: Na maior piscina do mundo mergulha-se rumo ao Espaço

John Vickers, líder da Blue Abyss, está convicto de que a futura escola de astronautas de Bedfordshire não terá falta de interessados

José Caria

John Vickers, líder da Blue Abyss, quer construir uma megapiscina para ensinar robôs e humanos a cooperarem. E também para dar resposta ao turismo espacial que se adivinha

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Bedfordshire, a meio da Inglaterra, deverá albergar a maior piscina do mundo com quase 70 milhões de litros de água e a dimensão de 16 piscinas olímpicas. Quem achar que a nova infraestrutura tem por objetivo fomentar um novo tipo de desporto aquático que se engane. A Blue Abyss pretende usar o novo espaço para criar uma primeira “escola” de turistas espaciais, exploradores e até astronautas que poderão usar o meio subaquático para ter uma noção do ambiente que vão encontrar quando saírem da atmosfera terrestre. Além de aventureiros espaciais, John Vickers recorda que a nova infraestrutura pode ser usada na preparação de robôs usados no Espaço ou na imensidão oceânica que permanece desconhecida. A estreia está prevista para 2019. De passagem pela Web Summit, Vickers acredita que vai haver procura suficiente para construir mais mega-piscinas noutros pontos do Globo.

O que é que levou a Blue Abyss a apostar no Espaço?

O elemento de ligação entre o Espaço e os oceanos é a água… que existe na Terra! Apenas conhecemos cinco por cento daquilo que existe debaixo dos oceanos. E queremos fazer mais. Este elemento de ligação para o Espaço pode ser explorado em três dimensões – como no Espaço. Por isso é natural que se usem os oceanos. O problema com os oceanos é que não são controláveis e não é possível controlar o ambiente; não é possível fazer com que tenha luz ou escuridão, que seja agreste ou agradável. Ao construirmos a maior piscina do mundo, pretendemos fomentar a exploração dos mares e também a exploração do Espaço por humanos e robôs.

Acredita que as agências espaciais nacionais vão solicitar os vossos préstimos?

Pode acontecer, mas nós não estamos apontar para os astronautas das agências espaciais nacionais. Temos por alvo o turismo espacial que tem vindo a ser promovido por pessoas como Charles Branson e Elon Musk. As pessoas que conhecemos no dia-a-dia vão querer fazer isso. O Espaço é um ambiente extremo. Queremos preparar as pessoas para lidar com esse tipo de ambiente. Se uma pessoa apenas vai lá acima e volta para baixo num foguete, provavelmente vai precisar de menos treinos do que se for para um hotel espacial, ou andar a orbitar à volta da Terra, ou passar algum tempo na Lua ou em Marte. É necessário preparar as pessoas, mas não da mesma forma como as agências nacionais espaciais… que têm treinos que chegam a 18 meses. Uma pessoa que queira ir para o Espaço numa semana vai para um treino de 18 meses? Não me parece. Nós queremos dar toda a formação de um astronauta em apenas uma semana – com o mesmo nível de certificação, com a mesma qualidade de formação e o uso dos mesmo equipamentos – mas de uma forma bastante mais resumida.

Já há pessoas a solicitar esse tipo de serviços?

Claro. As pessoas estão a ficar cada vez mais atentas ao que se passa: como espécie, queremos explorar para lá do nosso planeta; queremos voltar à Lua, queremos ir a Marte; estamos a enviar sondas para todos os lados do sistema solar; estamos em busca de planetas e luas; e por isso acho que há pessoas interessadas. Quem serão os primeiros? Serão as pessoas com dinheiro ou quem quer poder dizer que foi o primeiro?

Quando é que essa escola de astronautas estará montada?

Queremos abrir essa infraestrutura em 2019. Vamos começar a construí-la no próximo ano. Vai ficar em Bedfordshire a norte de Londres, num espaço que a Força Aérea vai abandonar. Vamos ser o primeiro de um conjunto de negócios que se vão instalar naquele espaço que vai ser usado para criar um parque de ciência e… que vai ter essa coisa pouco usual que é a maior piscina do mundo. Vamos construir mais umas quantas no mundo.

Essa piscina também poderá contribuir para a exploração da parte que não se conhece nos oceanos?

Sim, como disse, os humanos apenas conhecem cinco por cento do que está por baixo dos oceanos. Sabemos que os detritos de plástico estão a tornar-se um problema sério, temos vindo a explorar as pescas até um ponto em que passamos a perguntar se ainda há peixe suficiente. Como espécie, queremos viver em harmonia com planeta, mas sabemos muito pouco sobre os oceanos. Os humanos não podem viver no Espaço, mas também não conseguem viver debaixo de água, mas há uma oportunidade de ajudar os humanos a explorar mais coisas e talvez usaremos mais robôs para fazer esse tipo de exploração. Mas eventualmente haverá mais oportunidades para os humanos irem a mais locais debaixo de água que aqueles a que já fomos.

Há sempre os limites de pressão criados pela profundidade…

O recorde humano está fixado em 600 metros. Para lá disso, há um problema fisiológico relacionado com a quantidade de gases que suportam os nossos pulmões e quanto oxigénio há nesses gases… há um limite natural. Para ir até essas profundidades é necessária preparação, é necessário muito tempo, muita matemática e muito gás. Mas há a oportunidade para os submarinos irem cada vez mais fundo, assim como os robôs. Temos consumido muito petróleo e gás – e vamos continuar a usá-los até já não ser necessário usá-los. Mas precisamos de usá-los de forma mais ecológica e ter uma noção dos danos que causamos (com a extração do petróleo no fundo mar).

E os robôs também vão poder ser treinados na vossa piscina?

A ideia é ter uma piscina que várias empresas vão querer usar quase como um campo de jogos. Na indústria da robótica, há empresas que seguem um caminho e outras que seguem um caminho diferente… quando é necessário que ambos os tipos de empresas trabalhem em conjunto é muito difícil. Há uma grande oportunidade para a standardização, como aconteceu, por exemplo com o USB nos computadores.

E como é que encara essas novas formas de cooperação?

Os humanos vão continuar a explorar… e ao mesmo tempo vamos evoluindo nas tecnologias, e enviando mais sondas para Plutão, ou para as luas de Júpiter e Saturno que, eventualmente, podem albergar vida, e minerais e recursos que podemos usar. Além de robôs, também haverá pessoas que querem fazer essas viagens e temos de ajudar a preparar essas pessoas e robôs a trabalharem em conjunto seja debaixo de água ou no Espaço.

Presume-se que a preparação de humanos é diferente da preparação de robôs…

Hoje, isso já acontece. Na extração de petróleo já há robôs a trabalhar muito bem – mas por vezes há novos desafios e temos de preparar novas soluções. Maioria das pessoas pensa que para ir para o Espaço basta um pouco de treino… e aí vamos nós. Mas apenas cerca de 500 pessoas foram ao Espaço. Os astronautas são pessoas muito inteligentes e, acima de tudo, são mentalmente muito bem preparados. Se é necessário turismo espacial, explorar um planeta ou minerar um asteroide, é necessário ter pessoas que têm condições físicas, competências técnicas, e também a atitude certa… porque quem vai para Marte já sabe que ninguém o vai buscar no dia seguinte.

Com um robô, apenas há que preparar a robustez!

Sim, vejamos os rovers em Marte: apenas recebem pequenos comandos da Terra. De resto, o robô tem de saber por si próprio o que fazer. Se houver uma tempestade de pó, o robô tem de se fechar para proteger as câmaras, mas a expectativa é que o robô seja autónomo. Penso que há uma oportunidade para os robôs continuarem a evoluir para podermos ver através dos olhos desses robôs, sentir o que “sentem” os robôs, e coordenar robôs mais à maneira da coordenação dos humanos, e eventualmente poder enviar coisas parecidas com humanos mas que são robôs… que vão preparar a ida dos humanos. Mas aquilo que eu quero fazer não se limita a preparar robôs. Eu quero preparar pessoas para ir para o Espaço.

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