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Portugal ardeu em outubro, e o cheiro chegou à Holanda

Vincent-Henri Peuch passou por Lisboa durante a reunião do Serviço de Monitorização da Atmosfera da Copernicus

Se os negacionistas das alterações climáticas olhassem mais para os dados recolhidos por satélite, provavelmente deixaria de haver … negacionistas das alterações climáticas. Entrevista ao homem que gere o serviço de monitorização da atmosfera do programa Copernicus

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Vincent-Henri Peuch, diretor do Serviço de Monitorização da Atmosfera do programa Copernicus, lidera uma das principais ferramentas que hoje permitem conhecer ao pormenor a evolução do tempo que vai fazer amanhã e também a evolução e os registos climáticos que escapam à probabilidade prevista para cada altura do ano. Há pouco mais de um ano, em paralelo com os incêndios na Lousã, Sertã e Pinhal de Leiria que vitimaram 50 pessoas, várias poeiras vindas do Sara pintaram de amarelo os céus do Norte da Europa. Eis a entrevista feita ao responsável pela monitorização meteorológica feita com os dados da constelação europeia.

Na apresentação que fez aqui em Lisboa, mostrou como os ventos e as poeiras do Sara passaram pela Europa entre 16 e 17 de outubro do ano passado. Terá esse fenómeno contribuído para os fogos que assolaram Portugal nessa altura?

Não. De facto, houve uma conjunção (de ocorrências) devido a uma tempestade que se encontrava sobre o Atlântico, e de um fluxo de poeiras vindo do Sara, que surgiram na mesma altura da deflagração de fogos em Portugal e Espanha. E essa massa de ar transportava poeiras, colunas de fumo, brisas marítimas, porque havia várias ondas… e, na maioria do território da Norte da Europa, o céu tornou-se completamente amarelo. O Sol ficou vermelho; foi uma atmosfera muito estranha.

Não há, portanto, uma relação de causa e efeito?

Não, foi apenas uma coincidência de dois fenómenos: o fogo e a poeira, que ocorreram ao mesmo tempo, na mesma massa de ar. A dimensão do fogo era tão grande que o céu ficou amarelo, devido a todas as partículas de fogo que se encontravam a grandes altitudes. As pessoas conseguiam sentir o cheiro! Havia gente na Holanda que dizia que conseguia sentir o cheiro de coisas queimadas como se estivesse a haver um incêndio nas imediações, mas era o fogo que estava a lavrar em Portugal. Mas não houve qualquer relação de causa e efeito entre estes dois fenómenos – mas sim uma junção de fenómenos que levou a este cenário.

A informação captada pelos satélites pode ajudar a prever ou a evitar incêndios?

Sim. Há as previsões relativas aos riscos de incêndio. Quando estamos a monitorizar o ambiente ou os níveis de seca nos solos, que é algo que é feito por satélites que trabalham com o programa Copernicus e também pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) em Portugal, é fazer previsões quanto às condições existentes para a existência de um incêndio. É uma previsão que permite ter um horizonte de uma ou duas semanas de avanço, e que permite saber que algumas zonas estão mais sujeitas a risco que outras zonas. As autoridades podem, por exemplo, tomar medidas para restringir o trânsito em determinadas estradas, ou para evitar que as pessoas mandem beatas para o chão. Quando o incêndio deflagra, os satélites podem recolher dados sobre a intensidade. A partir do pixel relativo ao fogo que está a arder é possível conhecer a temperatura (no local). O satélite permite ter informação sobre o local em que o fogo está a decorrer, quanta poluição foi emitida… CO2, monóxido de carbono e outras partículas. O que permite fazer previsões sobre os efeitos produzidos na qualidade do ar. Se tivermos um incêndio a iniciar-se numa floresta e o vento seguir na direção da cidade, poderemos prever quantas partículas de matéria haverá (na cidade) e as autoridades poderão assim fazer a antecipação deste fenómeno e dar conselhos mais adequados.

A entidades da proteção civil podem solicitar-vos informação diretamente ou têm de recorrer aos institutos de meteorologia nacionais?

No Copernicus, costumamos trabalhar com as agências nacionais, como o IPMA, até por questões de linguagem e por conhecimento do contexto. O nosso papel no Copernicus é fornecer informação em bruto para as diferentes agências, que terão a missão de providenciar esses dados de forma a torná-los compreensíveis. Os satélites também podem ajudar depois dos incêndios. A partir daí, torna-se possível estimar as perdas devidas aos incêndios – é algo em que os satélites podem ajudar. Portanto, os satélites não podem parar um incêndio, mas é possível estimar os riscos de incêndio ou as perdas económicas depois dos incêndios com base nos satélites.

O governo português e o IPMA têm feito o uso adequado de toda a informação que vocês têm disponível?

Têm feito mais do que isso. O IPMA é responsável por desenvolver um dos nossos produtos, que está relacionado com os fogos que estão a lavrar, e que dá a conhecer a potência das radiações provenientes dos fogos. É algo que o IPMA que está a desenvolver para o Copernicus e para a Europa. O IPMA está a atuar como um fornecedor de informação crítica, e também como um importante veículo para as autoridades públicas fornecerem outros serviços de informação que não são fornecidos pelo IPMA. Por exemplo: há uma Universidade no Reino Unido que estima, a partir da potência das radiações dos incêndios, as emissões de CO2. Não sei o suficiente quanto à gestão local. Ter o IPMA como parte central do sistema é essencial. No caso de Portugal, o facto de ter uma entidade que é a parceira que é utilizadora dos dados do Copernicus ajuda bastante. Por exemplo, na Itália não temos um grupo envolvido na monitorização dos fogos. Os produtos que disponibilizamos para Itália têm a mesma qualidade daqueles que disponibilizamos para Portugal ou Espanha, mas o aproveitamento é menor, porque não há alguém responsável nas autoridades públicas para fazer chegar a informação à população.

Por vezes, as autoridades dos vários pedem-vos informação e mapas especiais!

Sim, temos um serviço de emergência. Quando há uma catástrofe, seja uma inundação, fogo ou tremor de terra, esse tipo de imagens é obtido… e por vezes, são usados drones ou aviões, porque se houver demasiadas nuvens os satélites poderão não ser uma opção durante para monitorizar uma catástrofe. É uma parte importante do Copernicus que pode dar suporte a um estado-membro da UE, ou para suportar Organizações Não Governamentais (ONG) que estão a prestar auxílio numa qualquer zona do mundo.

Há planos para fazer crescer a vossa constelação?

Temos um programa operacional que tem uma visão de longo prazo, para monitorizar diferentes aspetos da Terra e do ambiente, usando seis famílias de satélites. Cada uma destas famílias tem uma função. A família Sentinel 1 é composta por dois satélites – um é o Sentinel 1A e o outro é o Sentinel 1B, e quando chegar o final do período de utilização de um destes satélites, será lançado o Sentinel 1C. É por querermos monitorizar as alterações climáticas e como o nosso sistema está a desenvolver, não podemos fazer uma coisa cheia de interrupções… e por isso o programa está desenhado para garantir a monitorização contínua para providenciar a Europa e o resto do Mundo. Hoje, temos sete satélites a orbitar de quatro famílias. Temos um roteiro para o lançamento de satélites destas sete famílias e, além disso, estamos em processo de definir novas famílias de satélites. Já sabemos que vai haver uma família de satélites para monitorizar as emissões de CO2. E para isso vamos ter três satélites, que são necessários para garantir a monitorização das emissões de CO2. É um programa de longo prazo. No que toca à meteorologia, a EUMETSAT é a entidade responsável que gere os satélites e tem planos que também preveem uma monitorização “perpétua”, com satélites de órbitas geoestacionárias (que acompanham em permanência a órbita da Terra, captando informação do mesmo ponto em permanência). Quando um satélite está em vias de chegar aos últimos anos de “vida”, haverá outro em vias de entrar em funções. E quando um satélite falha - é uma coisa que acontece… - já há outro a ser construído, e em vias de ficar pronto para ser lançado para manter a capacidade de observação.

Presume-se que os satélites mais recentes sejam mais evoluídos que os outros que já estão em órbita.

Sim, tem havido uma evolução incremental. Dentro de cada família de satélites, as versões A, B e C são iguais, mas as versões E, F e G estão em desenvolvimento. É uma evolução incremental e não um sistema totalmente novo, porque queremos garantir continuidade. Por exemplo, a resolução horizontal está entre as coisas que podem ser melhoradas. A ótica terá de melhorar para que, em vez de ter (uma resolução de) 10 por 10 quilómetros, ter uma resolução de dois por dois quilómetros. Estamos a identificar os aspetos que terão de beneficiar de melhoria.

Um dia chegarão a resoluções ainda mais detalhadas!

Atualmente, há satélites conseguem resoluções na ordem dos centímetros… o que permitiria tirar uma selfie a partir do espaço, a 300 a 600 quilómetros de distância. E nesse caso apenas seria necessário esperar que um destes satélites passe sobre o local para tirar a foto! Também há satélites com outros instrumentos que captam imagens de duas dimensões, que são lisas, e há satélites que usamos para os serviços de meteorologia que permitem fazer perfis. A atmosfera não é lisa, tem três dimensões. E por isso, é feita a medição de substâncias consideradas críticas… como por exemplo da camada de ozono, ou se há uma coluna de fumo que está a viajar a uma determinada velocidade, e se está a influenciar a qualidade do ar, ou se foi para a atmosfera superior e se interfere na luz do Sol.

O aquecimento global e alterações climáticas tornaram mais difícil fazer previsões?

O que é claro é que há alterações climáticas. Por vezes, falamos de aquecimento global, porque se formos medir a temperatura média em todo o planeta verificamos que houve um aumento. Houve um aumento de mais de 1 grau centígrado se compararmos com o período pré-industrial. Por alguma razão tem havido um debate com negacionistas das alterações climáticas. O que para mim é uma estupidez. Trata-se de uma lei da Física. Tem havido uma alteração climática e houve um aumento de cerca de 1 grau centígrado. Esperamos que, com o Acordo de Paris, possamos ficar à volta de um aumento de 1,5 graus. O debate, que é iminentemente político, deveria incidir sobre aquilo que vamos fazer para conseguir esse aumento. As pessoas podem responder que não querem fazer qualquer esforço nesse sentido, porque acham que é mais importante o crescimento económico. Muito bem, é uma questão de debate público. Mas depois há os negacionistas que dizem que as nossas observações estão erradas. Estão a negar a ciência…

Mas não são os satélites que ajudam precisamente a desmentir os negacionistas?

Os satélites são realmente importantes para recolher provas para o público em geral que revelam que as alterações climáticas. Referi um aumento de um grau, mas é um pouco mais complexo que isso. Há locais em que o aumento foi de seis ou sete graus e há outros em que, na verdade, houve um arrefecimento. As alterações climáticas mudam a forma como o ecossistema evolui. Hoje, temos previsões muito boas; se vamos continuar a ter depois destas alterações todas, não sei responder. Aquilo a que chamamos o sistema terrestre e a forma como funcionam o oceano, a atmosfera, a vegetação depende de um equilíbrio que foi estabilizado há vários séculos. Estamos a alterar esse equilíbrio com o aumento dos gases de efeito de estufa aprisionados nas camadas mais baixas da atmosfera. O que significa que tudo vai reagir. A temperatura ficará mais quente, haverá mais evaporação, mais nuvens e a radiação solar será diferente e passa a haver um efeito em cadeia. A ciência diz-nos que se conseguirmos mitigar as emissões de CO2, em particular, e se ficarmos num nível mais ou menos próximo daquele que temos hoje, continua a haver riscos, mas não demasiado grandes… se não limitarmos o aumento da temperatura a 1,5 graus ou dois graus, superamos um ponto de viragem que muda completamente o clima tal como conhecemos. E não sabemos se essas mudanças serão massivas. Eventualmente, as cidades onde vivemos e que são populosas poderão tornar-se inabitáveis devido às tempestades ou à força dos elementos. Esta questão das mudanças climáticas é muito importante e é por isso que o Copernicus disponibiliza informação não só para a Europa como para o resto do Mundo. Há cada vez mais provas daquilo que se está a passar…

Portanto, há cada vez maior capacidade para fazer previsões!

As previsões do clima usam observações do dia… numa das minhas apresentações, mostrei que, desde 2000, temos vindo a recolher informação de vários satélites. O que significa que temos agora uma capacidade de previsão muito boa, que é igual no hemisfério norte e no hemisfério sul. No hemisfério norte, há muitas estações meteorológicas terrestres, mas não no hemisfério sul. O que significa que o que leva a melhorar a qualidade das previsões meteorológicas são os satélites. Os satélites “veem” as mudanças climáticas à medida que vão acontecendo, mas é muito importante que se saiba distinguir o tempo, que é aquilo que vamos ter amanhã, ou se há ou não uma tempestade, e clima, que é algo que nos permite ter uma expectativa não para um determinado dia, mas para aquilo que costuma acontecer (naquele período). Imagine que nesse período há um dia extremamente quente, mas ainda nos encontramos dentro desta probabilidade. O que a mudança climática faz é alterar a probabilidade. O clima tem a ver com a probabilidade, com a recolha de dados ao longo de anos.

Com toda a informação que é reunida, possivelmente o Copernicus precisa de um computador bem potente para fazer previsões…

Sim. Atualmente, usamos 70 instrumentos diferentes nos vários satélites. Estes instrumentos monitorizam os ventos, a composição da atmosfera e, para podermos trabalhar esses dados, precisamos de modelos numéricos. É uma expressão grande para uma coisa muito simples: dividimos a atmosfera em pequenas células, o que nos permite descrever o mundo inteiro à maneira do Minecraft. Com o supercomputador, pegamos nas observações dos satélites e realocamos essas observações para as células pretendidas. Fazemos isso com todos os satélites para diferentes células, e depois o supercomputador já permite fazer a combinação de tudo isto. A cada observação é associado um erro; se o erro é muito pequeno acabará por não se fazer notar no nosso Minecraft da atmosfera; mas se o satélite não estiver a captar bem alguns parâmetros, haverá maior flexibilidade para lidar com esse erro e de juntar toda a informação para ter uma imagem tridimensional e então poderemos fazer previsões de um, dois dias, ou uma ou duas semanas. O que sabemos da teoria e da prática é que quanto melhor for a imagem que criarmos no início, melhor será a previsão que será feita. É por isso que é bom ter o máximo de observações possíveis é a melhor forma de ter melhores previsões para os dias ou semanas seguintes.

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