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Insólitos

Os robôs do sexo vieram para ficar. E se forem proibidos?

Amor com pessoas. Sexo com robôs. Será moda, tara ou tendência? Roxxxy, uma fembot que muda de personalidade e tem um coração mecânico é a prova de que há vida para lá da tentação da carne. E se um dia alguém se lembrar de a banir?

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Hugo Séneca

ROBYN BECK

A mais recente intervenção de Kathleen Richardson poderá não ser a mais apropriada para debater com um menor de idade ou pessoas mais suscetíveis, mas retoma um tema cada vez mais atual: deverão as bonecas sexuais robóticas ser alvo de proibição? A especialista em ética robótica, que trabalha na Universidade de De Monfort, no Reino Unido, não deixa muita margem para dúvidas sobre as medidas que as autoridades deverão tomar em breve: «Os robôs do sexo são uma área em crescimento na indústria da robótica e os modelos que têm vindo a ser desenhados – a aparência, os papéis que deverão desempenhar – são deveras perturbadores».

A investigadora justifica o banimento das bonecas sexuais com o facto de que, alegadamente, estes robôs reduzirem à atração sexual as relações entre dois amantes, e fomentarem relações desiguais entre homens e mulheres, ou entre dois elementos de um casal homossexual, ou mesmo nas relações entre adultos e crianças.

As declarações de Kathleen Richardson à BBC contrastam de sobremaneira com as mais recentes tendências da indústria – que nas duas últimas década não parou de desenvolver bonecas sexuais cada vez mais sofisticadas.

Roxxxy, uma amante robotizada da True Companion, é possivelmente o mais mediatizado projeto nesta área. A Wikipédia permite ter uma ideia mas aproximada desta fembot: 1,70 metros de altura e 54 quilos de peso, pele sintética, um coração mecânico que também bombeia um líquido através de um aparelho circulatório artificial, cinco personalidades diferentes, inteligência artificial para “perceber” quais são as preferências do proprietário, sensores que detetam movimentos e ainda altifalantes para “conversar”.

Apresentada em 2010, a Roxxxy tem sido vendida em modelos personalizáveis com preços entre os 7000 e os 9000 dólares. Atualmente, a empresa liderada por Douglas Hines também vende robôs "masculinos". A True Companion diz que não se trata de um robô, mas sim de uma companheira – apesar da aparência assustadora que esta máquina do sexo também pode ter junto de quem prefere fazer amor com humanos.

A True Companion não está sozinha na disputa deste filão: Nos EUA, a Abyss Creations a respetiva marca Real Doll têm vindo a somar dinheiro e encomendas com bonecas sexuais hiper-realistas, que começaram com o uso de silicone.

Por enquanto, é a possibilidade de personalização de várias partes do corpo que tem contribuído para o sucesso deste negócio que tira partido da timidez, do fetichismo ou da falta de beleza dos compradores. E, sim também, há mulheres a comprar. O recurso a funções robotizadas poderia exponenciar vendas da Real Doll e, eventualmente, cumprir as previsões de Henrik Christensen, quando era presidente da Rede Europeia de Robótica, que apontava, em 2006, como provável as pessoas começarem a fazer sexo com robôs por volta de 2011: «As pessoas já estão dispostas a fazer sexo com bonecas insufláveis, tudo o que seja acrescentado será uma melhoria».

A previsão feita em entrevista ao The Economist estava certa em parte: já há pessoas a fazer sexo com robôs – mas talvez porque o tema é pouco recomendável para ser televisionado em família durante o horário nobre, ou também porque facilmente pode ser convertido em chacota, quase não se fala no assunto. O que dificulta a descrição deste segmento no que toca a valores faturados e número de potenciais clientes.

No Japão, terra fértil da robótica, há muito que as bonecas sexuais e as sucedâneas robóticas são conhecidas. Nalguns casos, como o da Aïko, retomam a tradição das gueishas, falam línguas e seguem à linha o protocolo, apesar de não haver grandes descrições sobre a vertente sexual. Noutras situações, reina o deboche: a marca Doll No Mori tornou-se famosa enquanto pioneira dos bordéis de bonecas sexuais. A Marie Claire francesa, que estudou o assunto, lembra que os clientes deste bordel tanto são atraídos pela possibilidade de fazerem o que quiserem como se deparam com o tédio – pois as bonecas mantêm-se inertes e sem reação.

Foi com o objetivo de dar resposta a estes dois extremos comportamentais que investigadores da Universidade de Victoria, Nova Zelândia, decidiram de analisar a fundo a “sexualidade robotizada”. E concluíram que o sexo com robôs poderá generalizar-se até 2050. O estudo de Ian Yeoman e Michelle Mars apontam mesmo algumas virtudes no sexo com robôs: a redução do tráfico de humanos, dos abusos sexuais, e da transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Os investigadores dos neozelandeses lembram, ainda assim, que os robôs sexuais só poderão generalizar-se se conseguirem ser atrativos do ponto vista espiritual.

Ainda na Marie Claire, David Lévy, especialista em inteligência artificial, recorda que o apego às máquinas não é assim tão incomum quanto parece à primeira vista: «As experiências de psicologia cognitiva permitiram identificar as o que motiva o estado amoroso: o sentimento de proximidade, a reciprocidade, a troca de lembranças da infância, a vida íntima, a aparência física… é possível programar um humanoide a fim de que possa reproduzir todos estes elementos. Algumas pessoas reservam já um lugar afetivo para o computador ou o smartphone, projetando sobre as suas máquinas sentimentos humanos. Esses laços vão tornar-se cada vez mais intensos se as máquinas assumirem uma aparência humana».

Douglas Hines, líder da True Companion, nega qualquer intenção em substituir as namoradas de carne e osso e aponta baterias para o segmento de utilizadores solteiros, viúvos ou que se encontram entre relacionamentos. O que não o impede de passar a ideia de que os amantes robóticos poderão ser suficientes para preencher a vida de alguém – por muito estranha que essa ideia possa parecer à maioria dos humanos da atualidade.

«O ato físico do sexo será apenas uma pequena parte do tempo despendido com um robô do sexo – a maior parte do tempo será passado a socializar ou a interagir», garante Douglas Hines.

Será que os humanos vão mesmo trocar os “pecados da carne” pela “sensualidade” dos autómatos? Kevin Curran, especialista em robótica do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrónicos (IEEE), também está convicto de que os robôs do sexo acabarão por expandir-se comercialmente – mas levará tempo a livrarem-se da polémica: «Tem havido campanhas de ativistas contra os robôs assassinos, mas acredito que, em breve, haverá humanos a fazer lóbi contra os companheiros robóticos ou até manifestarem-se para que não sejam usados nos respetivos bairros».

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