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Aguinaldo Salvaterra tem o domínio de São Tomé e Príncipe e não o vai «entregar de mão beijada»

O domínio de topo .st já foi a capital dos sites de pornográfia africanos. Hoje, o gestor do endereço, que nunca chegou a acordo com o governo de São Tomé e Príncipe, continua a dizer que é proibido registar endereços pornográficos em .st.

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Hugo Séneca

Aguinaldo Salvaterra, gestor do .st, entrevistado pela RTP em São Tomé e Príncipe

Aguinaldo Salvaterra, gestor do .st, entrevistado pela RTP em São Tomé e Príncipe

São duas letras apenas: st. A sigla tanto podia ser usada para designar street como style, mas desde 1993 que corresponde ao domínio de topo de São Tomé e Princípe. Nos anos 1990, ter duas letras tão apetecíveis poderia valer uma boa soma de dinheiro. Hoje, com a liberalização dos domínios de topo e dos sufixos da Internet o valor do .st já terá sofrido alguma erosão, mas não é isso que leva Aguinaldo Salvaterra (à direita na foto) a mudar de ideias: «Não vamos entregar o .st de mão beijada».

Aguinaldo Salvaterra, 53 anos, é um empresário santomense que se licenciou, na década de 1990, no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). No regresso a São Tomé, obtém junto da Internet Assigned Numbers Authority (IANA) a gestão do domínio de topo do país africano. «Na altura qualquer cidadão de um país podia solicitar a gestão do domínio de topo desse país», acrescenta Aguinaldo Salvaterra.

Reservado o domínio de topo do pequeno arquipélago de língua oficial portuguesa, Aguinaldo Salvaterra começa a matutar na exploração comercial. «Pedi um parecer técnico a entidades portuguesas, mas responderam-me que era muito trabalhoso. E foi por isso que recorri à Bahnhof (da Suécia)».

O empresário santomense, que hoje lidera uma das principais empresas tecnológicas do arquipélago, garante que, por mais de uma vez, tentou contactar o governo e as entidades reguladoras de São Tomé e Príncipe ao longo dos anos. Diz também que apresentou várias propostas, com o objetivo de estabelecer parcerias. Em todas essas ocasiões alega ter recebido «respostas negativas».

Em 2000, chega a acordo com a Bahnhof para a exploração comercial do sufixo. E passados quatro anos, o .st dá que falar pela primeira vez – e logo no seleto Financial Times. De acordo com jornal britânico, o domínio de São Tomé e Príncipe havia sido transformado na capital dos sites pornográficos africanos, alojando 307 mil dos 389 mil endereços africanos que se dedicavam à temática libidinosa. Na altura, quem quisesse explorar um endereço terminado em .st tinha de pagar 35 dólares anuais. Além de alegar a ilegalidade da gestão do domínio de topo, o governo santomense garantia nunca ter recebido qualquer receita relativa à exploração do domínio de topo do país.

Aguinaldo Salvaterra desmente a notícia com quase 11 anos, que tinha por base um estudo levado a cabo pela consultora Secure Computing. Segundo o empresário, o .st  nunca foi um ninho de pornografia. «Tentámos, com grande esforço, localizar quem lançou esse estudo, mas não conseguimos. No .st não era permitido registar sites pornográficos».

Aguinaldo Salvaterra não revela quanto sites estão hoje alojados em .st.  «É um número muito variável». Sobre a exploração comercial do domínio de topo diz apenas que reparte as receitas em partes iguais com a Bahnhof. 

Hoje, registar um endereço em .st tem um custo de 35 euros anuais. O gestor do endereço garante que os habitantes de São Tomé e Príncipe conseguem registar endereços por um valor menor: 200 mil dobras (cerca de 10 euros) para cinco anos de uso.

Quanto é que vale ao certo o .st? A questão não tardará a colocar-se. Na semana passada, a associação DNS.pt, que gere o registo de endereços no domínio de topo .pt, assinou um acordo de parceria com as autoridades de São Tomé e Príncipe com o objetivo de proceder ao «resgate» do domínio de topo do arquipélago africano. 

«Vamos tentar entrar em contacto com Aguinaldo Salvaterra e a Tecnisys para chegar a um acordo. Se não chegarmos a um acordo, vamos trabalhar com o governo de São Tomé e Príncipe para solicitar a redelegação do domínio junto da Internet Assigned Numbers Authority (IANA). Acho que vamos conseguir a redelegação. Pode ser um processo mais lento ou mais rápido, mas vamos conseguir a redelegação», revelou, na altura, Luísa Gueifão, diretora da DNS.pt sobre o processo.

Aguinaldo Salvaterra mostra-se recetivo a «negociações de alto nível» e admite mesmo entregar o domínio «ao governo de São Tomé e Príncipe». Mas dá a entender que só abandona o .st se for ressarcido. «Há muitos anos que tenho trabalhado nisto. Criei uma carteira de clientes, onde se encontram a Google e a Microsoft, e não a vou entregar de mão beijada a outra empresa», reitera.

Caso se confirme, a mudança de mãos do .st não será inédita. Entre 1993 e 1999, o endereço foi explorado por Manuel Quaresma da Cruz Lima, com o apoio comercial e técnico de uma empresa sedeada nos EUA, com a denominação de ST Domain Registry. Segundo o site da Bahnhof, o .st foi retirado aos gestores anteriores após a morte de Cruz Lima (os regulamentos exigiam que a gestão do domínio de topo estivesse a cargo de um cidadão santomense). 

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