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Estas apps fazem (quase) o mesmo que a Uber, mas não são ilegais

As apps que permitem reservar um táxi ou uma boleia não são todas iguais. Algumas destas aplicações aumentaram os proventos dos taxistas e outras são ignoradas apesar de não contarem com motoristas licenciados.

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Em Algés, mesmo na fronteira do município de Lisboa com o de Oeiras, há uma praça de Táxis com um telefone fixo, suspenso num poste. Quem passa talvez não saiba, mas aquele telefone toca. E quando toca há um taxista que atende, a fim de ganhar mais uma “corrida” de um cliente que precisa de ir para um qualquer destino dentro ou fora da capital. Quando trouxe a 99Táxis para Portugal, Pedro Fonseca ficou surpreendido ao descobrir que ainda havia taxistas que se levantavam do banco do condutor para atender um telefone que está no passeio. Com o tempo descobriu mais uma ou outra praça que funcionam com telefones fixos em Lisboa, resistindo à invasão das apps. «Em São Paulo, o nosso serviço é tão grande e desenvolvido que não dava para imaginar que ia encontrar algo do género em Portugal», comenta o gestor brasileiro.

A 99Taxis chegou a Portugal antes da Uber – e nunca foi levada a tribunal nem acusada de ilegalidade, apesar de também funcionar com uma app que permite chamar, pagar e até pontuar um serviço de táxi. Atualmente conta com mais 10 mil utilizadores registados e 600 taxistas. Por que é que a ANTRAL (Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros), que representa as centrais de táxis, tolera a 99Táxis e não aceita a Uber? É Florêncio Almeida, presidente da associação, que dá a resposta: «Nada temos contra as empresas que cumprem os requisitos e estão licenciadas para operar em Portugal. E nada temos contra as empresas que dão serviço aos táxis que estão licenciados para operar em Portugal».

Durante o diferendo que tem mantido com a ANTRAL – e que dia 23 de junho deverá conhecer a primeira audiência – a Uber tem defendido uma posição diferente: os parceiros que aderiram à app já estavam licenciados antes de a marca norte-americana chegar a Portugal e, por isso, não haverá razão para o serviço ser ilegal.

João Carvalho, presidente do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), tem uma posição que, curiosamente, consegue ter pontos em comum com a Uber e a ANTRAL: numa recente deslocação ao Parlamento não hesitou em considerar que a Uber incorre numa violação à lei atual, mas também sugeriu aos deputados que se procedesse à análise do “caso Uber” a fim de, eventualmente, serem introduzidas alterações à lei que permitirão a entrada num novo paradigma dos transportes públicos.

Mas nem só de Uber vive a concorrência aos serviços de táxis atuais: serviços como BlaBlaCar ou Boleia.net também têm procura em Portugal. E em nenhum dos casos, a ANTRAL parece preocupada: «Não conheço outras que cobrem valores pelos serviços de transporte de pessoas como cobra a Uber. Há outras plataformas a funcionar, mas têm por objetivo a partilha de automóveis e não têm grande procura», refere Florêncio Almeida.

A resposta da Boleia.net tem várias similaridades com a da ANTRAL: «Não fazemos concorrência aos táxis. Apenas permitimos que as pessoas partilhem os custos das viagens de automóveis; os trajetos são conhecidos por quem procura o serviço; e não é possível ter lucros», explica Toni Jorge, o líder da Boleia.net.

Hoje, o Boleia.net conta com 10 mil utilizadores registados. Condutores e passageiros não são diferenciados, pois «a mesma pessoa que é passageira pode recorrer ao serviço como condutora». «Controlamos a nossa comunidade, avisamos as pessoas que estão a praticar preços que aparentemente têm o lucro como objetivo. E os utilizadores podem expressar a opinião uns dos outros», acrescenta Toni Jorge.

Toni Jorge garante que o Boleia.Net não cobra qualquer comissão aos consumidores individuais, mas lembra que já está a operar com cerca de uma dezena de empresas que aceitaram pagar para poderem usar a plataforma e disponibilizar boleias aos respetivos funcionários.

A TaxiMotions também está a expandir no mesmo sentido. Com cerca de 1000 utilizadores e pouco mais de 100 táxis em Lisboa, a startup deverá começar a explorar, no final do verão, o segmento empresarial, tendo como atrativo a faturação eletrónica e a possibilidade de integração facilitada com o software de gestão das diferentes empresas que solicitam táxis.

Bernardo Alves, líder da TaxiMotions, lembra que não basta ter tecnologia para singrar no segmento: «As centrais de Táxis querem ter mais serviços inovadores, mas não querem a abandonar algumas abordagens que têm seguido até à data e só estão dispostas a aceitar estes serviços quando têm a certeza de que não estão a desviar clientes que costumam usar outros canais. Só que não é possível distinguir se um cliente da nossa app usava ou não outro canal para contactar uma central de táxis. Além disso, as centrais não querem um serviço que distinga os motoristas com ratings – dizem que querem melhorar na globalidade do serviço e que dão formações com esse objetivo».

Além da renitência das centrais de táxis, há mais uma razão que levou a TaxiMotions a apostar no segmento empresarial: «No segmento particular, há uma grande concorrência, com grandes recursos financeiros. E por isso optámos pela diferenciação, sem abandonar o segmento particular», explica Bernardo Alves.

O MeoTaxi é um bom exemplo dos “tais” concorrentes com muitos recursos financeiros: atualmente, a app da Meo permite solicitar os préstimos de 1500 taxistas aderentes, espalhados por diversos concelhos do Porto, Lisboa, Vila Nova de Gaia, Sintra, Gondomar, Vila do Conde, Guimarães, Viana do Castelo, Ponte de Lima, e ilha da Madeira e ainda a ilha da Madeira. A app é gratuita – e terá como objetivo prioritário garantir a fidelização de um grupo de profissionais a determinados serviços de telecomunicações... mas, com o ritmo crescimento que tem ostentado através da angariação de taxistas e empresários não alinhados com as centrais de táxis, bem poderia ter pretensões a concorrer com uma central de táxis tradicional (o que é improvável).

É este o panorama disforme que Pedro Fonseca descobriu com o lançamento da 99Táxis em Portugal. No Brasil, a marca é patrocinadora de clubes de futebol, tem 85 mil táxis e quatro milhões de utilizadores. Aqui, está ainda na fase de investimento – ainda não colhe lucros, e tenta garantir a preferência junto dos taxistas com a oferta de descontos nas lavagens dos automóveis.

Depois de Lisboa, Porto, e Algarve, a marca brasileira pretende estender-se a Braga, Coimbra e Setúbal, apesar da resistência de parte das centrais de táxis e da concorrência do maior operador de telecomunicações. «Temos uma versão smartwatch em Portugal. Hoje, somos a único marca que tem uma versão para smartwatches Android e iOS», garante Pedro Fonseca.

Sejam bem-vindas ou não, as apps vieram para ficar, e os táxis que quiserem continuar a somar proventos terão de acompanhar a parada. E, caso queiram aumentar o número de clientes, terão de se sujeitar às pontuações que determinam as hierarquias que prevalecem entre dois carros equidistantes e habituarem-se à omnipresença do GPS e das triangulações das redes GSM, que indicam onde está o carro e também o passageiro. 

Pedro Fonseca admite que ainda há muitos consumidores que receiam fazer pagamentos online, mas lembra que a mentalidade também terá de mudar entre os motoristas de táxis: «Ainda há muitos taxistas que têm telemóveis antigos. Se lhes dissermos que têm de passar a usar uma app para apanharem passageiros, apanham um susto. Se lhes perguntarmos se aceitam pagamentos online têm um segundo susto ainda maior».

 

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