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Internet das Coisas: europeus e americanos estão em guerra

Viagem ao mundo dos objetos que comunicam, passando pelos implantes cerebrais, pelos automóveis, pelos arredores de Lisboa, e também sem esquecer um pouco de geopolítica. Estamos a chegar ao tempo em que as coisas falam.

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Hugo Séneca

Pedro Maló, professor da Universidade Nova de Lisboa e líder do recém-criado “braço” português da Aliança para a Inovação da Internet das Coisas (AIIOT), nada tem contra os americanos, mas lembra que os dois lados do oceano Atlântico estão numa concorrência aberta: «A cada hora que passa, estamos a perder terreno para os americanos».

Começou com os computadores, passou para os telemóveis e já chegou aos carros e televisores. O futuro da Internet passa pelas coisas. Por todas as coisas, como repetiram por mais de uma vez os vários investigadores e peritos internacionais que discursaram no Internet Week de Lisboa, que se realizou a 16 e 17 de junho. Pedro Maló dá o exemplo do contrarrelógio em curso: «Com o lançamento de um smartwatch, a Apple lançou um health kit, que permite recolher informação em larga escala dos consumidores. Futuramente, há de lançar um home kit. E aí acabou. Também as casas dos consumidores passam a ser da Apple».

A Comissão Europeia já está a par desta corrida intercontinental. Estimativas como a da IDC apontam para que, em 2020, o mercado das coisas conectadas valha mais de mil biliões de euros na Europa. Para a indústria europeia chegou a hora de tomar as medidas necessárias para ganhar a maior fatia possível do investimento que empresas e consumidores vão fazer nos tempos mais próximos. Como é que isso pode ser feito? Thibaud Kleiner, perito da Direção Geral Connect da Comissão Europeia, que tem liderado a pasta da Internet das Coisas, lembra que as marcas de automóveis, os fabricantes de eletrodomésticos e os operadores de telecomunicações europeus podem ter uma importante palavra a dizer no futuro.

No que toca a iniciativas políticas, o perito da Comissão Europeia destaca o investimento de 100 milhões de euros que a Comissão Europeia vai disponibilizar para seis projetos de teste de longa escala. Os seis grandes projetos, que deverão agregar empresas, laboratórios, governos e municípios deverão começar a ser implementados no início de 2017. Cidades inteligentes, wearables, agricultura inteligente, transportes, ambiente e gestão de água, saúde e terceira idade são as seis áreas em que os seis projetos devem incidir (a escolha das áreas de atuação ainda não está concluída)

Até lá muita coisa terá de ser definida. Ovidiu Vermesan, cientista-chefe que coordena o Grupo de Investigação Europeu da Internet das Coisas (IERC) alerta: «É um dos paradigmas tecnológicos mais complexos que aí vêm».

O sistema dos sistemas

Vermesan ilustra a complexidade do futuro «sistema que integra muitos outros sistemas» numa única página de Powerpoint. Nessa página, vê-se uma árvore com múltiplos frutos, uma nuvem que ilustra a cloud e as raízes que suportam essa árvore. Sobre este desenho surgem os nomes dos múltiplos componentes que dão forma a uma rede de coisas: edge cloud, plataformas, middleware, software, gateways, redes, armazenamento, cloud, sensores, identidade, automação… e muitas outras denominações que representam as várias “frentes de batalha” em que as marcas europeias e americanas (e coreanas e chinesas) se estão a “mexer”.

Como é que todas estas tecnologias se vão concertar? Vermesan não tem a solução, apenas aponta as lacunas que terão de ser sanadas nos tempos mais próximos: «Há várias organizações interessadas em criar um standard de arquitetura tecnológica para a Internet das Coisas (IoT). E era importante que se criasse esse standard».

Os standards são conhecidos por conseguirem juntar a complexidade típica de um processo negocial entre grandes empresas com a complexidade típica de um processo político. O que significa que o resultado final será sempre demorado – e até pode ser infrutífero e não se compadecer as expectativas de marcas americanas como a Nest (termóstatos), a Apple (smartwatches) ou a Cisco (redes), ou empresas europeias como a BMW (e os seus carros conectados), a Sigfox (com as redes das coisas), ou a Bosch (eletrodomésticos e componentes de automóveis). Todas estas marcas e muitas outras mais já começaram a desbravar o novo mercado das coisas que comunicam – e todas elas estarão pouco dispostas a ceder terreno no que toca às tecnologias e arquiteturas que deverão prevalecer como referências.

Falta de uniformidade

Outro exemplo das diferentes velocidades da IoT: as normas da quinta geração de telemóveis (5G) ainda não estão fechadas, mas há quem não hesite em apontar a futura tecnologia como o principal suporte das futuras redes das coisas. Jan Holler, investigador Principal dos Laboratórios da Ericsson, acredita que a 5G pode almejar a tornar-se a rede que garante a densidade necessária para comunicar com milhares de milhões de dispositivos. Sobre o protocolo a adotar, não tem dúvidas de que o conhecido TPC/IP será o mais indicado para evitar a fragmentação prevista num segmento em que os sensores reduzem para um terço do tamanho a cada triénio, recorrem a baterias que duram mais de 10 anos, e necessitam de comunicações de muito baixa latência.

«Hoje, por cada dispositivo tem de se criar uma app e nenhuma dessas apps é interoperável», atira Jan Holler.

Por muito boas que sejam as intenções de homens de negócios e políticos, dificilmente será definido um único standard mundial. Pelo que há quem já esteja a trabalhar com o objetivo de marcar uma posição para o futuro. O Fiware Mundus é um dos exemplos do esforço que a UE tem feito para influenciar as decisões que serão tomadas no futuro. Além de um conjunto de interfaces de aplicações que podem ser usadas livremente em sem custo para conectar múltiplas famílias de dispositivos e criar novas aplicações, a iniciativa conta ainda nove centros de inovação instalados em várias grandes cidades da Europa e 16 aceleradoras de negócios e startups (uma das aceleradoras, a Soul-fi, é liderada pelo Instituto Pedro Nunes, de Coimbra).

Com um budget total de 80 milhões de euros, a Fiware Mundus conta poder dar um empurrão a vários produtos na área da saúde, da energia, dos transportes, da agricultura, da educação e de muitos outros setores que poderão vir a beneficiar de aplicações que extraem informação de múltiplos dispositivos e permitem criar serviços classificados como “inteligentes”, que tiram partido da automação.

As nanocoisas

Jose Gonzalez, representante do Fiware Mundus, recorda as estimativas que apontam para um total de 50 mil milhões de dispositivos conectados por volta de 2020. A estimativa ilustra apenas parte do universo tecnológico que começou a tomar forma: «Vamos ter objetos virtuais, gateways virtuais, máquinas com capacidade de aprendizagem e computação cognitiva», refere Jose Gonzalez, lembrando que muitas destas evoluções estão ainda em estado de rascunho, apesar de quase todas terem como propósito uma crescente automação.

Quem ache que é futurismo a mais, que fale com Pedro Marrón, coordenador da iniciativa de investigação Smart Action – e cedo deverá descobrir que a rede das coisas também pode abarcar as nanocoisas, ou melhor, os minúsculos objetos, que são invisíveis a olho nu e que eventualmente poderão encontrar-se dentro do corpo humano. Além das previsões que apontam para o aparecimento de aplicações que variam consoante o contexto e das interfaces entre computadores e cérebro humano, o líder da Smart Action atenta para os desafios que terão de ser superados na segurança e na privacidade. «Vai ser necessário desenvolver novos materiais. Ainda vai levar tempo», acrescenta.

A uma escala maior e com um prazo mais de espera mais curto, Pedro Maló recorda que iniciativas como a Loures Inova, que envolve o município saloio e o Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL) e mais 15 entidades, deverão começar a trabalhar em breve nos primeiros ensaios com redes das coisas. Na margem sul, há mais um outro projeto que merece destaque por pretender usar a IoT na monitorização da qualidade das águas urbanas – e que junta o SMAS de Almada, a Uninova, e a empresa Unparallel. São apenas dois projetos que comprovam que, em Portugal, também a nova revolução tecnológica já começou a produzir efeito. Outros como a rede veicular da Veniam, no Porto, não tardarão a dar que falar.

Pedro Maló não gosta de excessos de euforia: «há quem pense que a Internet das Coisas vai resolver todos os problemas do mundo, mas vai chegar o tempo em que se vai descobrir que apenas resolve muitos dos problemas do mundo». E conclui com um exemplo: «Hoje, fala-se de trocar as chaves e as fechaduras tradicionais por sistemas eletrónicos. Eu nunca usarei uma fechadura eletrónica. Basta uma falha na eletricidade para termos um problema a abrir a porta de casa».

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