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Tugaflix: o que diz o dono de um site pirata português

O Tugaflix começou a operar dias depois de o Wareztuga fechar. O mentor do projeto garante que nenhum memorando antipirataria vai conseguir bloquear o endereço que hoje conta com mais de 3200 links piratas. «Este memorando acaba por ser uma anedota», diz.

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Hugo Séneca

Qual o valor das entrevistas por e-mail? As opiniões divergem. No caso do Tugaflix, há três razões para usar o e-mail e saber o que pensa(m) o(s) respetivo(s) dono(s) do site: 1) em breve, um memorando que reúne autoridades, operadores de telecomunicações e indústria de conteúdos deverá começar a bloquear os sites piratas mais usados em Portugal; 2) o Tugaflix está apostado em não cumprir o memorando; e 3) é raro os gestores de sites piratas darem entrevistas sem ser por e-mail e sem ser sob anonimato.

O dinheiro faz mexer muitas coisas no mundo – mas não faz mexer o Tugaflix… Ou será que faz? Tudo depende de quem responde à pergunta. «O Tugaflix.com não é um negócio... Não temos publicidade no site, não sei se no futuro será igual, mas por agora e até ao fim do ano, acreditamos ser capazes de nos manter assim... Devido ao elevado número de visitas é necessário recorrer a um servidor dedicado, mas é algo que vamos conseguindo pagar», garante o e-mail do gestor do site pirata.

Os representantes da indústria de cinema e TV garantem que a imagem de pirata que tira a Hollywood para dar a todos os portugueses peca por exagerada. Alguns cliques bastam para confirmar que o acesso aos filmes distribuídos pelo Tugaflix poderá ativar páginas publicitárias ou encaminhar os internautas para outros endereços. Quem recebe os proventos desta publicidade? – eis uma questão que fica por responder.

Nascido a 15 de julho

Criado em julho de 2015, o Tugaflix tem vindo a tirar partido da dispersão de “subscritores” provocada pelo fim do Wareztuga. Hoje, conta com mais de 3200 links que dão acesso a filmes e séries piratas. A equipa que gere o site diz que as visitas aumentam «a cada dia que passa», e que é ao domingo que «há um maior pico de visitas», mas é omissa quanto ao total de utilizadores. À falta de um número, mais não resta que recorrer a fontes alternativas que ilustram a popularidade do site: no Facebook, o Tugaflix já conta com mais de 4500 likes. Quantos destes utilizadores acedem realmente aos filmes piratas? E quantos usam e não fazem like? São questões difíceis de responder. Até porque o Tugaflix não exige registo para dar acesso aos conteúdos.

Com o memorando assinado no verão, tudo poderá mudar: segundo os gestores do endereço, o Tugaflix já foi notificado pelo Movimento Cívico Antipirataria na Internet (MAPINET) para parar com a distribuição de filmes e séries piratas, sob pena de poder vir a ser bloqueado em Portugal (o Mapinet não confirma a notificação, nem a inclusão do Tugaflix na lista de sites que poderão vir a ser bloqueados por ordem da Inspeção Geral de Atividades Culturais).

A acreditar nos responsáveis do site, nem o memorando vai conseguir parar o Tugaflix: «O novo memorando é a prova de que o dinheiro "fala" sempre mais alto, basta ver quem está por detrás da entidade que vai denunciar os sites. Depois temos o Governo de outro lado, que com esta medida falhada pensa que vai conseguir mais uns milhões com as vendas de bilhetes de cinema, ou o aluguer de vídeos no vídeo clube da esquina. Mas no meio disto tudo, há um grande ataque há liberdade de expressão, pois esta entidade vai poder decidir que sites vão ser bloqueados, passando por cima de uma investigação, um juiz e um tribunal. Este memorando pode ser o ínicio de algo muito grande e muito mau para os cidadãos...»

DNS mutante

Os responsáveis do Tugaflix negam estar a cometer qualquer ilegalidade quando disponibilizam links que direcionam os internautas para conteúdos que se encontram em sites ou bases de dados externas.

Como seria de esperar, a indústria tem uma opinião diferente sobre o bloqueio de sites: «Não é por um site conseguir ter links para conteúdos piratas que fica autorizado pelos detentores dos direitos de autor a publicar esses links na Internet», defende Carlos Eugénio, secretário-geral do MAPINET, reforçando a a sua posição com uma decisão passada do Tribunal de Justiça Europeu que considerou ilegal a publicação e alojamento de links que encaminham para conteúdos piratas.

Será que a lei consegue superar a tecnologia? Quem gere o Tugaflix faz a seguinte análise aos dois lados da barricada: «há que realçar que este memorando acaba por ser uma anedota e em nada vai afetar o funcionamento dos sites. Um utilizador com pouca experiência consegue alterar em 10 minutos o DNS, ou fazer download de extensões para o navegador web e voltar a ter acesso aos sites bloqueados».

Apesar de funcionar como um «hobby» de uma «equipa que está a crescer e à qual qualquer pessoa se pode juntar», o Tugaflix está disposto a manter o clima de boicote às autoridades: «em breve, vamos alertar os utilizadores para começarem a alterar os DNS ou instalar extensões no navegador. Depois da entrada em vigor do memorando vamos continuar a operar normalmente».

Com o cerco à pirataria a apertar-se, afinal, o que fazem os gestores de sites como o Tugaflix para garantir que o acervo de conteúdos continua a crescer? A avaliar pelas respostas enviadas por e-mail, o Tugaflix é apenas o último elo de uma cadeia que opera na Internet, com o propósito de captar audiências e, eventualmente, fazer negócio: «Não "arranjamos" filmes e séries, não vamos alugar o filme X ali ao videoclube do lado e depois fazemos uma cópia, nem estamos a gravar a novela do horário nobre para depois a colocarmos na net... Há imensos grupos de pessoas por todo mundo que dedicam tempo a disponibilizar filme e séries na Internet, depois desse conteúdo passar por "trackers privados", "trackers públicos" e por fim chegar a sites que partilham links. É ai que nós começamos a pesquisar e a organizar esses mesmos links para depois apresentar ao utilizador no tugaflix.com».

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