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O cyberbullying existe, mas «ninguém reconhece que faz cyberbullying»

Tito de Morais, um dos três autores do livro "Cyberbullying – Um guia para pais e educadores", recorda que, muitas vezes, as vítimas encaram o cyberbullying como mais agressivo que a agressão física do bullying tradicional

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Hugo Séneca

Tito de Morais, o mentor do projeto MiudosSegurosna.Net

Tito de Morais, o mentor do projeto MiudosSegurosna.Net

Tito de Morais começou a alertar os mais novos para os perigos da Internet quando ainda não se falava de cyberbullying e as redes sociais eram incipientes. Hoje, o assédio moral é uma realidade que pode afetar crianças e adolescentes que usam telemóveis e computadores e passam os dias inteiros a conectado. E por isso não terá sido propriamente difícil ao fundador do MiudosSegurosNa.Net participar na redação do livro “Cyberbullying – Um guia para pais e educadores” juntamente com Sónia Seixas, formada em antropologia e psicologia, e Luís Fernades, psicólogo que tem vindo a coordenar vários projetos de prevenção do bullying e violência nas escolas.

Sem desprezar a vertente científica, os três autores deste Guia tentam ilustrar causas e consequências do cyberbullying, tentando fornecer pistas que podem ajudar os pais a perceberem se os filhos são vítimas ou agressores de cyberbullying. Num pequeno vislumbre sobre o livro acabado de editar, o especialista em segurança online para crianças recorda que todos os internautas podem ter um papel a desempenhar no cyberbullying: «Os estudos demonstram que aqueles que são vítimas de bullying e cyberbullying vão tornar-se depois agressores. Há aqui um ciclo de agressão, a que é importante pôr termo».

O ciberbullying não é um reflexo do fosso digital entre pais com mais de 35 anos que podem não ter grandes conhecimentos de tecnologias, e filhos com menos de 20 anos que acham que podem fazer o que querem com as tecnologias?

Não diria que o Ciberbullying resulte desse “gap” geracional. Diria que resulta mais de ter havido uma mudança ao nível da comunicação na transição entre essas duas gerações. Um exemplo: na minha geração, entregava-se um rolo de 24 ou 36 fotos numa loja, aquilo ia para Lisboa e eu recebia os negativos 15 dias depois. Este processo mudou com a fotografia digital. Dantes, um rolo de fotografias poderia dar-me para meses; hoje, um jovem faz esses números de fotografias num dia, numa manhã ou ainda menos. E não só faz essas fotografias, como as replica nas redes sociais, onde as pessoas as podem ver e replicar também. Os conteúdos tornam-se digitais e facilmente replicáveis e pesquisáveis. Estas são as características que num dos capítulos do livro descrevemos como comunicação mediada pelos ecrãs. É a forma como usamos estas tecnologias que pode potenciar o ciberbullying, e não tanto o fosso geracional.

Mas os pais também poderão não estar preparados para ajudar os filhos que são vítimas de cyberbullying…

Sem dúvida. É uma realidade que passa muito ao lado dos pais, mas que é muito presenciada pelos filhos. O Daniel Sampaio, que escreve o prefácio do livro, conta o que aconteceu quando levou este livro, quando ainda estava na fase de provas, para uma formação na Madeira. E é curioso: a geração dos pais estava preocupada com o bullying, enquanto a geração dos filhos mostra-se preocupada com o cyberbullying. O que demonstra que há um fosso geracional na forma como se encaram as ameaças.

Não serão as audiências o principal motor do ciberbullying? Os internautas que se limitam a observar não serão também culpados pelo fenómeno?

Praticamente todos os dias vemos nas redes sociais a serem insultadas – em especial as mais populares estão mais expostas a esse tipo de situação. Mas basta ir ler um qualquer jornal online para ver como, por qualquer coisa sem importância, salta a tampa às pessoas, que perdem o respeito pelas pessoas que estão do lado de lá… essa é também uma das características que colocamos no livro e que tem a ver com a desinibição que, por vezes, os ecrãs criam nos utilizadores. Nós não vemos, de forma imediata, o efeito daquilo que fazemos e dizemos às pessoas. Quando estamos em presença podemos ter sentimentos de empatia, mas como não vemos (os resultados das ofensas ou do assédio) na comunicação mediada pelos ecrãs, a possibilidade de haver empatia é menor…

Também há um lado voyeurista…

É como nas estradas: quando há um acidente toda a gente para para ver, e geram-se engarrafamentos, ao mesmo tempo que há uma ou outra pessoa que intervém para socorrer. No cyberbullying, acontece um pouco a mesma coisa. Muitas vezes, as pessoas são testemunhas silenciosas de algo em que podiam socorrer. Muitas vezes as pessoas não se querem envolver.

A lei e as regras de funcionamento dos diferentes portais criaram os mecanismos necessários para eliminar os conteúdos usados para o ciberbullying?

Em termos gerais, estas situações estão previstas. Eventualmente, no assédio persistente na Internet pode haver algumas lacunas, como houve até recentemente com o stalking que era feito pela Internet e que inicialmente também não configurava crime – e agora já configura como crime. Os comportamentos do ciberbullying estão previstos no código penal e no código civil. Não me parece que seja necessário fazer o que fazem alguns países com a criação de legislação específica. Muitas vezes, quando isso acontece, acaba por ter abordagens tão restritivas que acabam por ter um resultado oposto. O que me parece que seria interessante é levar as escolas a trabalhar este tema. Alguns países já tornaram obrigatória a abordagem deste tema (nas escolas). O que é que as plataformas tecnológicas andam a fazer?: A minha perceção é que há um sentimento crescente de tentar controlar este tipo de comportamentos. As principais plataformas têm secções dedicadas a essa problemática, com possibilidade de denúncia e a explicar como é que as pessoas podem agir, quando são vítimas de cyberbullying. O problema é que há muitas situações que, apesar de poderem ter um impacto emocional e mental negativo nas vítimas, são difíceis de enquadrar no cyberbullying. Um exemplo: recebemos um pedido de ajuda através da página do Facebook que criámos para o livro. Um jovem foi fotografado embriagado. Sendo que ele tinha perdido o acesso à página um ano antes… e as imagens deste rapaz começam a aparecer numa página de sátira. O miúdo começa a ser gozado com vários comentários… e tem conhecimento da situação através de amigos e diz que já não quer ir à escola nos dias seguintes. O Facebook, para este género de situações, não tem uma opção para situações em que a pessoa é gozada. Tem para situações relacionadas com discriminação sexual ou discriminação racial, o que não configura a outra situação anterior (do rapaz fotografado embriagado). Há situações como estas, que estão na fronteira do gozo e do humor que, por vezes, têm impacto nas vítimas. É muito difícil para uma rede social com muitos milhões de utilizadores prever todas as situações que podem afetar as pessoas.

Há ou não perfil típico da vítima?

Não há um perfil típico – todos nós podemos ser vítimas de cyberbullying… pelo simples facto de sermos diferentes. As pessoas podem ser vítimas por serem obesas, por usarem óculos, por inveja, são inúmeras razões. Há a questão dos memes, que podem ser virais… há pessoas que reagem bem, e outras que não. O exemplo que damos é o de uma mãe que tem um filho com uma doença que cria deformações físicas… e cuja imagem foi usada num meme. Qualquer pessoa pode ser vítima de uma situação dessas.

E o agressor tem ou não um perfil típico?

É verdade. Em inquéritos anónimos há sempre muito mais vítimas que agressores. O que é natural, porque um agressor pode fazer cyberbullying a mais do que uma pessoa… Como disse, ninguém tem orgulho em reconhecer que faz cyberbullying. Não é possível traçar um padrão; mas há algumas características: há pessoas que foram vítimas de bullying e que podem tornar-se agressores de cyberbullying; pessoas que têm falta de ligação emocional a outras, falta de empatia ou falta de tolerância são outras das características. É mais fácil conseguir fazer um perfil do agressor, ou pelo menos, das razões que podem levar alguém a ser agressor, do que definir um perfil de uma vítima. Os estudos demonstram que aqueles que são vítimas de bullying e cyberbullying vão tornar-se depois agressores. Há aqui um ciclo de agressão, a que é importante pôr termo. Há um papel extremamente importante das pessoas que presenciam, porque se permanecerem em silêncio a agressão vai continuar e se intervierem podem pôr termo a essa agressão.

O cyberbullying produz efeito para lá do ecrã, na vida real?

Tem definitivamente consequências. Voltando ao exemplo que dei há pouco: o miúdo que foi alvo do cyberbullying estava a ponderar não ir à escola. Também há impacto ao nível da autoestima, da saúde e do bem estar; o cyberbullying é mais mental e emocional porque não tem a agressão física que há no bullying, mas os estudos indicam que as agressões do cyberbullying têm tendência a serem entendidas e sentidas de uma forma pior que a agressão verbal e física presencial. Não são só uma ou duas situações; são situações em que há esta ambivalência de situações bullying que passam para o espaço virtual e também o inverso, que sai da Internet para a escola…

Esse circuito entre escola e Internet produz efeitos em termos de hierarquia?

Na minha perspetiva, não é tão real no cyberbullying, como no bullying, que é presencial e pode gerar grupos, que têm líderes e seguidores. Muitas vezes o cyberbullying acontece de forma anónima e até uma forma de os agressores se protegerem. Se existem grupos de com hierarquias e lideranças… Não é tão linear como no bullying. Até porque aqueles que são fisicamente vulneráveis por não terem muita força, podem ser agressores na Internet por eventualmente terem mais conhecimento das tecnologias que os colegas

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