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Por dentro do Football Manager: as revelações do responsável pela prospeção em Portugal

Carlos Bessa, em conjunto com Bruno Gens Luís, é Chief Scout da Sports Interactive para o Football Manager, o mais famoso jogo em que se pode encarnar o papel de um treinador de futebol, para o território nacional. Nesta entrevista ele explica, por exemplo, como surgiu a oportunidade de trabalhar nesta área e de que forma é feita a classificação dos atributos, além de revelar que não é remunerado nesta função

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Paulo Matos

Paulo Matos

Jornalista

Apesar de ainda ter apenas 26 anos, Carlos Bessa já é responsável pela prospeção da Sports Interactive para o célebre Football Manager (FM) para Portugal desde 2015, cargo que partilha com Bruno Gens Luís. Nesta entrevista, o jovem de Valongo fala do seu percurso como olheiro para o jogo – cuja nova versão chega ao mercado a 19 de novembro – e revela detalhes sobre o hobby que não lhe traz remuneração.

Costumava jogar FM quando era mais novo?

Desde miúdo que sempre fui um tremendo fã de futebol! Lembro-me de passar sábados inteiros a ver jogos da Premier League e finalizá-los a ver um ou dois jogos da nossa Liga. Todo este prazer aliado ao “poder” que tínhamos em conseguir “comandar” quem víamos na TV no Football Manager (Championship Manager até 2004), e também encontrar novos craques como os que víamos na TV, fez com que este “bichinho” se desenvolvesse cada vez mais até ao ponto de na escola o assunto de conversa normal com os amigos ser: discussões sobre as táticas que usávamos; os feitos que conseguíamos; os novos craques que encontrávamos numa equipa da 2ª divisão do Brasil!

Que equipas ou jogadores recorda com mais carinho?

As recordações mais vincadas que guardo na minha memória nos primórdios enquanto jogador do CM (agora FM) era a equipa do PSV que eu tanto gostava de vestir a pele de treinador e o jogador que mais me marcou… Álvaro Recoba!

Como surgiu a oportunidade de começar a trabalhar na prospeção do Football Manager?

Como um apaixonado que era (e sou!) pelo Football Manager, consoante os vários “saves” que fazia com equipas diferentes, encontrava erros e atributos que não achava de todo adequados aos respetivos jogadores. Como gostava de jogar sempre da forma mais realista possível, consoante os erros que encontrava, criava a minha própria base de dados (BD) com as correções que achava por bem fazer; até que, em 2010, procurei entrar em contacto com o responsável da BD de Portugal naquela altura, o José Chieira, por forma a poder ajudar de forma mais ativa a BD e, assim, conseguir colocá-la mais realista para todos os jogadores que, tal como eu, usufruíam do FM por muitas e longas horas. E assim foi, após conseguir contactá-lo, passei a colaborar com ele, enviando documentos que fazia com as correções que julgava que deveriam ser feitas. Uma vez que sentia que nem todas as alterações eram transferidas para a BD, pedi para, em 2012, integrar diretamente a equipa, passando a fazer as alterações diretamente nas equipas que ele me delegou e assim garantir que o máximo de informações eram inseridas. E assim foi até 2015! Uma vez que o José Chieira era scout profissional do F.C. Porto (está atualmente no Sporting C.P) e o tempo dele estava a ser cada vez mais escasso, convidou-me para eu e o Bruno Gens Luís passarmos a liderar a equipa de Researching do Football Manager em Portugal. A nossa tarefa consiste em coordenar toda uma equipa de assistentes/scouts que vamos angariando, além de garantir que todas as equipas jogáveis estejam o mais completas possíveis a todos os níveis.

Atualmente, é um emprego full time ou concilia com outras atividades?

Toda a equipa colabora de forma voluntária, tendo como “recompensa” a nova edição de cada ano de forma gratuita. No entanto, todos nós estamos a fazê-lo por uma destas razões (e outros até mesmo pelas duas): pelo prazer de executar prospeção e pela paixão que nutrimos pelo Football Manager, um jogo intemporal para qualquer fã de futebol.

Não lhe faz confusão que os scouts não sejam remunerados quando dão uma contribuição fulcral para um jogo que gera tantos milhões?

Fazemos muito pelo prazer que retiramos disto, é uma forma de potenciar o trabalho de scout que, infelizmente, não é algo que consigamos fazer facilmente para clubes, porque são círculos bastante fechados e complicados de entrar. Portanto, não temos grande forma de potenciarmos a paixão que temos, tanto eu como o Bruno e os nossos assistentes. Não o interpretamos como um trabalho e sim como um hobby, porque não trabalhamos nisto 8 horas por dia – vamos trabalhando ao longo da semana, duas a três horas por dia… Além disso, acabamos por arranjar outras formas de conseguir potenciar um bocadinho o facto de estarmos como head scouts do Football Manager: temos o nosso website e acabamos por juntar a vertente de jogo com o facto de sermos os responsáveis pela pesquisa e por uma equipa a operar em Portugal. A SI Games também dá prioridade para colaborar com eles nos escritórios quando há vagas, embora seja mais para programadores e perfis informáticos. Por outro lado, ainda acreditamos que todo este trabalho irá valer a pena, isto é, que vamos acabar por ter a oportunidade de enveredar para uma carreira de scouting e potenciar tudo isto num clube.

Quantos jogos, em média, vê numa semana?

Ao vivo, costumo ver entre um a três jogos por fim-de-semana. Já através de vídeo, por ser a forma mais fácil para visualização de jogadores), já perdi a conta à quantidade de jogos que vi! (risos)

Quais são os critérios que segue na avaliação e atribuição das notas?

Uma vez que estamos a analisar o jogador para o Football Manager e não para um equipa que tem a sua própria dinâmica e que está inserida num respetivo contexto competitivo, não nos podemos deixar influenciar pelo coletivo ou pela dinâmica em que a equipa do jogador a avaliar está a atuar naquele exato momento para lhe traçar a avaliação. Procuramos sempre olhar para o jogador como singular, tendo sempre em consciência aquando do relatório/preenchimento do perfil o contexto competitivo em que ele está a competir naquele exato momento. Um exemplo: um ponta-de-lança que chegue a Portugal vindo de uma 1ª liga de Singapura em que tenha marcado 20 golos, não faz qualquer sentido colocá-lo como um portento de talento e um finalizador nato quando era algo expectável dadas as frágeis defesas e qualidade existente a que está exposto naquele contexto.

E como é que fazem o scouting e a atribuição das notas para as equipas técnicas, uma vez que não podem recorrer ao vídeo como nos jogadores?

Isso é o mais complicado e acaba por ser ainda mais subjetivo. Conseguimos observar a forma como um treinador se impõe num jogo, isto é, fazemos atributos do treinador e isso é mais fácil de ver: é consoante o estilo de jogo que emprega em cada equipa. Relativamente ao resto da equipa técnica (preparadores físicos, staff médico e tudo mais), é muito mais subjetivo. Mediante aquilo que vamos sabendo através da imprensa, colegas e informadores, vamos tentando traçar os atributos deles. O número de atributos deles também é muito menor do que os dos jogadores. Por vezes, temos um fisioterapeuta ou recuperador físico que sabemos que é bastante bom, mas que está numa equipa de 2ª Liga ou do Campeonato de Portugal e somos um pouco forçados a colocá-los à medida da equipa onde estão a competir porque não temos como comprovar o quão bom eles são. Na 1ª Liga é muito mais fácil.

Quantos elementos tem a atual estrutura da equipa portuguesa de prospeção?

Atualmente, temos cerca de 40 assistentes de pesquisa espalhados por todo o território nacional, muito deles fazendo já “parte da mobília” por estarem connosco desde o nosso início como Chief Scouts do FM em Portugal. Entre entradas e saídas, já trabalhámos com mais de 100 pessoas diferentes!

Pegando no exemplo do Recoba que referiu anteriormente, não acha que há alguns jogadores com notas muito boas mas que depois não conseguem singrar na realidade?

Isso são os ditos flops… (risos) Nós enquanto scouting não conseguimos controlar uma série de circunstâncias que acontecem fora do que observamos em jogo: estabilidade famíliar e estabilidade emocional, por exemplo. Falando em futuros craques, são jogadores que já estão a ganhar grandes quantias em tenras idades e, mesmo na gestão de carreira, há jogadores que se perdem – há muitos casos desses conhecidos. Esse tipo de circunstâncias são coisas que nós, enquanto scouts, não conseguimos controlar. Mesmo quando observamos um wonderkid, ou seja, um jogador que antevemos que tem um grande futuro, corremos esse risco, porque vamos colocar um grande potencial nele e corremos o risco de ele, na realidade, ir para uma equipa em que, infelizmente, a aposta não foi a que devia ter sido. Estes jogadores vão com um rótulo tão grande de craques que depois acabam por não conseguir destacar-se ou crescer de forma sustentada. Encaro isso com naturalidade, porque é a exigência do mercado atual em que se pagam milhões para um objetivo quase imediato e muitas vezes não se dá tempo ao “menino” para se conseguir destacar e tornar-se um “homem”.

Sei que também já vos aconteceu o oposto, ou seja, reconhecer mais cedo um potencial que depois se veio a comprovar. Com o João Félix, por exemplo, que vocês já destacavam antes de ser sequer chamado à equipa sénior…

Exatamente. Esse é um dos casos em que o observámos em tenra idade e gostámos bastante daquilo que vimos. Achámos que ele tinha muita capacidade e um perfil muito acima da média e previmos isso no Football Manager. Era “conhecido” já entre os fãs e quando começou a destacar-se na realidade nós já sabíamos que ia acontecer… (risos) Mas, como é lógico, há muitos outros casos em que isso não acontece. Temos o exemplo do Zé Gomes, do Benfica, que antevimos que tinha muito potencial e, infelizmente, circunstâncias à volta fizeram com que não tivesse o mesmo destaque que o João Félix teve quando recebeu a oportunidade. Houve alguma coisa que falhou, mas isso são aspetos que nós, enquanto scouts, não conseguimos controlar, porque o potencial ele tem.

Como reagem quando sabem que há clubes a usar profissionalmente a base de dados de um jogo que vocês ajudam a construir?

É uma sensação de satisfação total, pois é a validação do trabalho que todos nós – scouts do FM – fazemos, cada um no seu país. Não tenho quaisquer dúvidas que existirão outros casos semelhantes ao do Roberto Firmino [nota: Lutz Pfannenstie, olheiro do Hoffenheim, reconheceu em 2016 que descobriu o jogador no Figueirense, da 2ª divisão brasileira, através do jogo], mas que simplesmente não foram tão divulgados quanto este. A mediatização destes casos de sucesso só faz credibilizar ainda mais a BD que é tão afincadamente construída pelos scouts de FM de todo mundo. E a realidade é que o Football Manager pode efetivamente ser usado também como uma ferramenta de apoio ao scouting, uma vez que as observações que são feitas em prol da BD são feitas olhando de forma singular para o jogador e respetivo contexto competitivo, pelo que, se o mesmo tiver determinadas características, que o hipotético clube procura, ou potencial de futuro, as mesmas serão transferidas para a BD do jogo.

Já foram contactados por clubes e agentes nacionais ou internacionais para fazerem trabalho de scouting?

Falando especificamente dos clubes de maior expressão em Portugal, ainda não nos surgiu uma abordagem direta tendo em vista uma colaboração com um determinado clube profissional, o que encaramos de forma natural, uma vez que, além de serem departamentos de observação organizados e estruturados, são também círculos bastante fechados e ainda complicados de entrar. O que é mais recorrente de acontecer são abordagens por parte de clubes semiprofissionais e receber mensagens por partes de outros scouts (que colaboram com clubes profissionais) e também agentes/agências ou clubes de divisões inferiores à procura de informações/jogadores.

O que é que acontece nesses casos de contactos de equipas ou agentes de divisões inferiores que estão à procura de informações?

Infelizmente, isso é um caso regular. Principalmente, agentes à procura de determinado tipo de jogadores e com determinados perfis ou determinadas posições porque querem colocar em algum clube. Muitas das vezes ajudamos, mas também se torna repetitivo, é um bocado desagradável estarmos permanentemente a fornecer informações só porque sim… Varia muito da relação que mantemos com a pessoa. Se for alguém que já interpretamos como um “colega”, vamos falando e entreajudando. Mas, em muitas outras circunstâncias, acaba por cair em saco roto, porque são pessoas que só se querem aproveitar das informações e nada mais. Como isso aconteceu no passado, agora somos muito mais cuidadosos. Ajudamos pontualmente. Eram muitos pedidos, de forma regular, em que não ganhávamos nada de nada, nem sequer currículo – a única pessoa que ganha é a do outro lado.

Que tipo de tecnologias e equipamentos utilizam para a execução do vosso trabalho?

Tanto nos jogos ao vivo como nos em vídeo/gravados não é necessário muito material: saber um pouco mais sobre ambas as equipas antes do jogo, um smartphone ou até um bloco de notas para fazer anotações e, por fim, concentração máxima durante o jogo. Se todos nós tivermos tudo isto, o resultado só poderá ser positivo.

Haverá possibilidade de surgir um novo Tó Madeira [nota: um avançado falso criado no Championship Manager de 2001/02 que jogava nas divisões inferiores e tinha notas exageradamente elevadas] ou no contexto atual do FM isso não voltará a ser possível?

De facto, Tó Madeira é e será sempre encarado como uma figura vintage da era Championship Manager! No entanto, lamento desiludir os verdadeiros fãs deste matador intemporal, mas mais nenhum caso idêntico poderá acontecer. Ao longo dos anos, a Sports Interactive foi desenvolvendo ferramentas na própria BD que nos permite encontrar com uma certa facilidade jogadores com capacidades “adulteradas” que possam ter sido criados pelos nossos assistentes, como foi o caso dele.

Atualmente ainda joga FM ou vê-o mais como o fruto de um trabalho?

Já lá vão os tempos em que estava noites inteiras a jogar Football Manager! Saudades desse tempo. (risos) Atualmente, o tempo a editar a base de dados é superior ao de jogar, pelo que opto por investir parte do tempo de jogo a verificar possíveis falhas ou pontos a corrigir.

Quais as funcionalidades mais recentes do FM que lhe chamou a atenção nos últimos anos?

Ao nível do dinamismo e motor de jogo, existiu uma diversidade de novas opções que fizeram (e fazem!) aproximar cada vez mais o videojogo da realidade. Todos os anos, a Sports Interactive esforça-se por adicionar novas funcionalidades e este ano não foi exceção com algumas das já divulgadas e que mais despertam curiosidade: Aconselhamento Individual (para cada posição) e o Departamento de Desenvolvimento Individual. Já ao nível da base de dados, além do constante aumento de jogadores com os perfis devidamente trabalhados e traçados (daí o scouting que todos nós fazemos em prol do FM), temos também todos os anos incrementado de forma transversal o número de jogadores e staff técnico existente no jogo: desde a primeira liga até à regional, sendo que o foco são as competições jogáveis: 1ª, 2ª e CP.

E, atualmente ou num passado recente, tem algum outro tipo de jogo preferido?

Já não consigo ter paciência para jogar agora… (risos) Já passou um bocadinho essa fase e não há nada neste momento que me cative. Acho que é um tempo mal aproveitado, gosto mais de estar a trabalhar. Isso é uma das coisas que me dá mais prazer no Football Manager: conseguir trabalhar nisto, o jogo ser lançado para o mercado, haver boas críticas, as pessoas ficarem contentes com a evolução tremenda da base de dados nos últimos quatro anos... É isso que me cativa, ver que aquilo onde gastei tempo está a valer a pena e as pessoas estão a gostar. Claro que não descuro uns jogos de futebol com os amigos, mas, em termos de gaming, jogar um FIFA, um PES, um Call of Duty, isso já me passou... No passado sim e era um viciado em Call of Duty… A única coisa pela qual continuo apaixonado é futebol, que é algo que nunca ninguém me pode tirar – em todos os aspetos, tanto no de potenciar o scouting no FM como também em ver jogos, que é o que gosto de ver. Sou um consumidor de futebol e é uma paixão que não se larga.

Como vê o futuro profissional? Ainda a trabalhar para o FM ou noutra área?

A colaboração com o FM já “faz parte da mobília”. (risos) Não escondemos que é um grande objetivo nosso conseguir ter a oportunidade de colaborar num departamento de scouting de uma equipa profissional (à imagem do que José Chieira faz pelo Sporting C.P), pelo que só nos resta continuar a trabalhar da forma afincada como até agora para que a oportunidade surja.

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