Boicote do Linux em lojas portuguesas pode levar a queixa na Comissão Europeia

Hugo Séneca
18/04/2012 12:20
O Pinguim não entra nos supermercados e centros comerciais

A Associação de Empresas de Software Open Source Portuguesas (ESOP) está a ponderar apresentar uma queixa contra as cadeias de lojas de informática portuguesa por alegado boicote do Linux.

Inquirido pela Exame Informática, Gustavo Homem, diretor da ESOP, confirmou a possibilidade de apresentar o caso junto da Comissão Europeia. O responsável da ESOP lembra que, em 2009, a Autoridade da Concorrência (AdC) foi alertada para o facto de as maiores cadeias de retalho de produtos e equipamentos de informática portuguesas não terem computadores com sistemas operativos open source à venda. «Nada mudou desde essa data, pelo que estamos a ponderar expor o caso junto da Comissão Europeia», acrescenta Gustavo Homem.

Segundo a ESOP, as cinco maiores cadeias de retalho da área das tecnologias agregam mais de 65% das vendas de portáteis em Portugal - e em nenhuma delas há um computador com Linux à venda. Apesar do panorama descrito, Gustavo Homem lembra que a apresentação de uma eventual queixa numa das entidades reguladoras da Comissão Europeia não tem nenhuma marca por alvo e apenas tem por objetivo fazer com que «o mercado funcione».

Entre as marcas de informática portuguesas, há mais relatos que confirmam que os portáteis com Linux instalado não entram em todas as lojas: «As grandes cadeias de distribuição rejeitam computadores com Linux instalado», sublinha Rosário Belchior, diretora de marketing da Inforlândia.

A responsável da Inforlândia lembra que os portáteis com Linux tiveram bastante sucesso durante o e-escolas, mas confirma que, depois do fim deste programa de distribuição de computadores por alunos e professores, as vendas de portáteis com o sistema operativo do Pinguim ficou confinada às pequenas lojas de informática e às encomendas que algumas empresas vão fazendo.

Hoje, as máquinas com Linux não vão além de três a quatro por cento das vendas de portáteis da Inforlândia. «Há procura, mas continua a ser um nicho, que nem sempre corresponde às expectativas dos utilizadores mais leigos. No entanto, há muita gente que prefere os computadores com Linux porque consegue poupar 80 ou 100 euros ao enveredar por um sistema operativo grátis, em vez do Windows», descreve Rosário Belchior.

A responsável da Inforlândia admite ainda que parte dos consumidores mais leigos possa eventualmente proceder ao download de versões pirateadas do Windows depois de comprarem as máquinas com sistema operativo Linux instalado.

Apesar das características específicas do segmento open source, Rosário Belchior acredita que a venda de máquinas com sistemas operativos Linux possa aumentar, caso as portas das grandes cadeias de retalho se abram. «As cadeias de retalho argumentam que não querem que os custos com os serviços de pós-venda cresçam» acrescenta a responsável da Inforlândia, admitindo que os pedidos de assistência técnica e as reclamações possam aumentar «exponencialmente», caso haja um maior número de consumidores menos versados em informática a comprar computadores com Linux instalado.

Paulo Trezentos, líder da empresa que produz o sistema operativo Caixa Mágica, é outra das vozes que confirma o boicote do Linux nas grandes cadeias de informática e eletrónica que operam em Portugal: «Por mais de uma vez, os fabricantes portugueses nos disseram que não conseguem vender computadores com Linux nas grandes cadeias de distribuição. E por isso só nas lojas mais pequenas há máquinas à venda com o Caixa Mágica».

O alerta do boicote ao Linux nas maiores cadeias de retalho portuguesas surge no seguimento da publicação de dois estudos económicos que revelam que Portugal perde entre três milhões e cinco milhões de euros com a inexistência de portáteis à venda nas cinco maiores cadeias de lojas de informática. Gustavo Homem lembra que estes valores apenas têm em conta o impacto direto do software open source no PIB português. «Se somarmos o impacto indireto será possível chegar a números ainda maiores», lembra o diretor da ESOP.

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