exameinformatica

Uma parceria EXPRESSO

Siga-nos nas redes

Perfil

Mercados

Pagamentos eletrónicos: como converter 50 milissegundos em 16 milhões de euros

Nuno Sebastião explica como uma empresa de Coimbra bateu o recorde dos investimentos captados por startups sedeadas em Portugal. Se não houvesse fraudes nos pagamentos eletrónicos, a vida da Feedzai seria sem dúvida diferente.

  • 333

Hugo Séneca

Não dura mais de seis ou sete segundos de espera: o consumidor passa o cartão no terminal de pagamento e aguarda pela autorização do banco para prosseguir com a transação. Nessa curta espera, há 50 a 200 milissegundos que pertencem ao sistema de deteção de fraudes da Feedzai. Em menos de um piscar de olhos, a plataforma desenvolvida em Coimbra confere quem compra e quem vende, a hora e o valor da transação, o produto comprado, o local em que foi comprado - e se todos esses dados fazem sentido e estão de acordo com o padrão de uma transação legal. Caso detete um desvio ao padrão, a plataforma portuguesa «estima a probabilidade de fraude, de acordo com vários níveis que vão do bloqueio da transação, aos alertas enviados para um analista do banco», explica Nuno Sebastião, diretor executivo da Feedzai.

Para o comum dos mortais, 200 milissegundos pouco ou nada valem nada – para a Feedzai já valeram 17,5 milhões de dólares (cerca de 16 milhões de euros) de investidores de capital de risco.

Nuno Sebastião trabalha a partir do Silicon Valley. Foi lá que a Feedzai se muniu das ferramentas necessárias para abrir portas do mercado internacional, mas sem perder o rasto às origens. «Esta é uma empresa portuguesa. O investimento que recebemos agora é canalizado para a sede em Portugal e só depois é que é redistribuído para as várias áreas em que queremos apostar», explica Nuno Sebastião.

A empresa portuguesa precisou apenas de 2,5 anos para bater o recorde dos investimentos captados por startups sedeadas em Portugal. (A Farfetch anunciou em março a captação de um investimento de 176 milhões de euros – mas é uma empresa portuguesa sedeada no Reino Unido). 

O portfolio da empresa explica, por si só, o motivo de tamanho investimento: hoje, a startup de Coimbra tem como clientes os dois maiores processadores de pagamentos eletrónicos e alguns dos maiores bancos dos EUA. Na Índia, apesar de não ter uma delegação local, as vendas não param de somar zeros à direita. Desde que começou a operar no desenvolvimento de sistemas antifraude nos pagamentos eletrónicos até dezembro de 2014, a plataforma já somou encomendas de mais de 30 milhões de dólares.  

«É muito fácil demonstrar o valor desta tecnologia», sublinha Nuno Sebastião.

No dia mais “proveitoso” de sempre, a plataforma da Feedzai conseguiu detetar fraudes avaliadas em mais de seis milhões de dólares. Este recorde interno confirma que a Feedzai tinha razão ao abandonar o posicionamento inicial nas plataformas que analisam a evolução de estados clínicos de doentes internados em hospitais para passar a dedicar-se ao combate à fraude nos pagamentos eletrónicos. 

Os valores gerados pelos diferentes tipos de burla também terão sido determinantes: no ano passado, mais de 14 mil milhões de dólares foram desviados por burlões dos vários continentes, recorda Nuno Sebastião.

«Tivemos um caso em que conseguimos fazer um mapa geográfico de fraudes relacionadas com cupões de oferta e vouchers. Reparámos que os burlões começavam a trabalhar às 9h00 da manhã e iam comprando os vouchers ao longo do dia. Sem dúvida que se trata de crime organizado. Há muitos ataques a comerciantes on-line que depois dão origem à compra e revenda de vouchers com cartões de crédito que foram desviados. Nestes casos, o importante é descobrir qual o ponto comum das transações», descreve Nuno Sebastião.  

Hoje, a Feedzai estará posicionada «no quarto ou quinto lugar» do mercado dos EUA – atrás de gigantes como a IBM e a SAS, que têm soluções mais generalistas, mas dispõem de um grau de especialização menor.

Nuno Sebastião refere que o investimento agora angariado será aplicado na abertura de uma delegação em Nova Iorque, no reforço da presença no mercado internacional e na contratação de pessoas: «Andamos desesperados à procura de pessoas que tenham o perfil certo para trabalhar na nossa empresa». Hoje, o braço tecnológico da Feedzai é suportado por 42 profissionais que trabalham na sede de Coimbra (a empresa emprega 55 pessoas no total). 

Com a entrada de investimento, aumentam as expectativas e as exigências que a Feedzai terá de superar. O que não impede Nuno Sebastião de perspetivar o futuro: «Ainda não estamos na fase de pensar na bolsa, mas se continuarem a crescer como têm vindo a crescer, então é algo em que teremos de pensar». Em 2014, os negócios da Feedzai registaram um crescimento de 300%. 

  • 333