exameinformatica

Uma parceria EXPRESSO

Siga-nos nas redes

Perfil

Mercados

Indústria 4.0 em Portugal: vamos estar na crista da onda ou na cauda do pelotão?

A quarta revolução industrial está em curso e Portugal quer tirar o máximo proveito dela, mas estaremos preparados para isso? Entrevistámos António Mira, responsável pela área de Indústria da Siemens Portugal, uma empresa com pergaminhos no setor e que faz parte de um grupo de trabalho criado pelo Governo para fomentar a Indústria 4.0.

  • 333

Paulo Matos

PLANO FOCAL

A Indústria 4.0 ou quarta revolução industrial está em curso e quer fazer com que os meios de produção sejam mais rápidos, flexíveis e eficientes. Aproveitámos a nossa visita à Hannover Messe para entrevistar António Mira, responsável pela área de Indústria da Siemens Portugal, e quisemos saber, entre coisas, o que Portugal pode fazer para não ficar para trás neste irreversível processo de digitalização das fábricas. O resultado da conversa pode ser lido abaixo.

Exame Informática: De que forma é que Portugal se pode distinguir no âmbito da Indústria 4.0? Ou este é mais um daqueles segmentos onde andaremos sempre um passo atrás do que é feito noutros países?

António Mira: Acho que não. Do ponto de vista Siemens, queremos contribuir bastante para o desenvolvimento de Portugal. Estamos a colaborar com o Governo numa iniciativa de Indústria 4.0 exatamente para olharmos para as principais indústrias portuguesas e decidirmos em conjunto, com o nosso know-how tecnológico, como podemos ajudar estas empresas a caminharem para este conceito de digitalização ou Indústria 4.0. A digitalização é um processo importantíssimo, porque permite ter os dados todos rapidamente disponíveis para tomar decisões a qualquer momento. Queremos contribuir para aumentar a produtividade em Portugal e temos algumas indústrias que estão interessadas nestes conceitos, pelo que estamos nestes grupos de trabalho criados agora pelo Ministério da Economia e que permitem ver exatamente como as novas tecnologias podem modernizar estes setores de atividades. É necessário algum investimento, como é óbvio, mas há fundos disponíveis. A União Europeia divulgou o enquadramento dos próximos fundos que irão estar disponíveis e este é o nosso trabalho também: colaborar com as empresas no sentido de nos anteciparmos e rapidamente darmos este salto qualitativo. Sou daqueles que defende que sem uma indústria forte em Portugal teremos sempre problemas, porque atrás de uma indústria forte vem tudo o resto.

Esse grupo de trabalho já tem data prevista para a apresentação de propostas?

Os grupos foram criados recentemente (21 de Abril). Vamos fazer o primeiro ponto de situação daqui a dois meses para percebermos em que estado estamos e depois é um processo contínuo. Em paralelo, existem outras empresas de alguma dimensão, como, por exemplo, a Autoeuropa, que também já estão a trabalhar nestes conceitos. Vai ser um processo muito rápido.

Daí vão sair apenas recomendações? Nada com caráter vinculativo ao Governo?

O Governo pode ajudar naquilo que é a perspetiva estratégica do país, mas as empresas é que têm de tomar as decisões. O nosso papel é fundamentalmente ajudar o Governo a olhar para o futuro e a decidir que estratégias queremos para lá chegar. O nosso trabalho é essencialmente no campo, junto das empresas portuguesas, a dizer-lhes que queremos aumentar a produtividade. A Siemens tem hoje uma vantagem muito grande: é uma empresa de grande dimensão, que tem experiência em vários setores de atividade e segmentos de indústria e essa troca de know-how pode ser importante – tanto de país para país como de indústria para indústria – para ajudar a desenvolver a indústria nacional.

Há algum segmento da indústria portuguesa em que faça particular sentido aplicar os conceitos desta revolução?

A indústria automóvel será uma delas, não tenho dúvida alguma. A indústria têxtil e de calçado também serão uma parte importante. A indústria farmacêutica, química, papel, alimentação e bebidas igualmente e algumas até já começaram a trabalhar neste caminho. De uma maneira geral, os fabricantes de máquinas, como é óbvio. Temos também trabalhado com as nossas universidades para fomentar estas iniciativas. Outra parte importante é o cloud e temos competências nesta matéria em Portugal. Por exemplo, a Siemens inaugurou recentemente um centro de cibersegurança industrial em Portugal, que trabalha para clientes fora do país. O tratamento dos dados é fundamental para conseguirmos dar o máximo possível de informação aos nossos clientes, para que eles tomem as decisões certas.

Quais são as mais-valias que temos para conseguir atrair esse tipo de investimento em centros de suporte internacionais?

É todo um processo encadeado. Em Portugal seguimos a estratégia de convencer a Alemanha que Portugal tem competência na área das TI. Já as tínhamos (e temos) na área da Engenharia. A nossa maneira de estar foi criar competências em Portugal, convencer a sede que temos essas competências para fazer projetos de envergadura e, com isso, ir buscar mais e mais centros de competência. Somos hoje mundialmente reconhecidos como um país com muitos recursos na área das TI. A Siemens Portugal ganhou o centro de competências de TI para a Siemens que hoje já emprega 200 pessoas. Depois foi fácil. Estamos na Europa, temos pessoas com competências e que sabem fazer, o país tem tudo o que é bom e atrativo para as pessoas trabalharem. A vantagem é que há um bom clima, consegue trabalhar-se e ter tempo para fazer as coisas – isso é um critério importante e reconhecido pelas pessoas. De uma maneira geral, todos os custos em Portugal são mais baixos que na Europa – e não falo só de salários (não vou por aí), tudo o que envolve infraestruturas é muito mais económico –, pelo que hoje consegue ser-se muito mais produtivo, rápido e competitivo se tivermos muitos centros destes em Portugal que trabalham para a Siemens mundialmente. Hoje, a Siemens Portugal tem engenheiros a trabalhar no mundo inteiro.

  • 333