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A ilha dos drones está pronta para a descolagem

O aeroporto da Ilha de Santa Maria vai albergar o primeiro espaço de testes com drones civis do País. O projeto aponta para altos voos, mas mantém os olhos focados no mar

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No aeroporto da Ilha de Santa Maria deverão aterrar um, dois aviões por dia. «Nalguns dias, talvez aterrem três», acrescenta o Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia Fausto Brito e Abreu. Se depender do protocolo que juntou na terça-feira as assinaturas do governo regional dos Açores, a ANA, a NAV e ainda as empresas Tekever e Omnidea, o aeroporto da ilha mais a Sul do arquipélago vai ficar bem mais concorrido: o primeiro espaço de testes com drones civis de média e grande dimensão acaba de ser criado em Portugal. «Se quiserem, as empresas que assinaram o protocolo podem usar já hoje o espaço, desde que solicitem as devidas autorizações às entidades que gerem o aeroporto e fazem o controlo do espaço aéreo», acrescenta Brito e Abreu.

Até à assinatura do protocolo, apenas a base aérea da Ota, gerida pela Força Aérea, tinha características comparáveis para testes com drones em solo nacional. Um fabricante de drones “não-militar” que pretenda fazer testes poderá solicitar o uso da base – mas depara-se com alguns limites, como por exemplo o limite máximo de 600 metros de altitude, para evitar conflitos com o espaço aéreo usado pelos aviões comerciais. Pedro Sinogas, líder da Tekever, destaca mais uma vantagem do aeroporto de Santa Maria face ao que existia: «Antes, se quiséssemos fazer testes com drones sobre o mar tínhamos de pedir autorização à Marinha para usar as áreas onde fazem treinos de tiro».

AR5, o drone de longo alcance da Tekever

AR5, o drone de longo alcance da Tekever

O líder da fabricante de drones portuguesa recorda que, em alternativa aos às áreas de treino de tiro da Marinha, também é possível recorrer a um espaço de testes que existe na zona oeste de Gales, Reino Unido, que pode gozar da proximidade de uma das sucursais da Tekever, mas implica um esforço maior em termos de transporte de equipamentos, pessoas, e autorizações relacionadas com equipamentos (alguns dos componentes dos drones estão classificados como militares e exigem autorizações específicas).

Para a Tekever, o novo espaço de testes pode ser especialmente importante para testar várias configurações de radares, câmaras e sensores num drone que dá pelo nome de AR5. Com 12 horas de autonomia e mais de 50 quilos de peso, o AR5 adapta-se na perfeição às missões de patrulhamento de áreas ou busca e salvamento de longo alcance. «Até ao final do ano contamos iniciar os testes com os vários sensores no AR5», prevê Pedro Sinogas.

Na Omnidea, também há a expectativa de que o protocolo possa revelar-se um momento de viragem. Além de futuros testes com lançadores de pequenos satélites, a startup portuguesa pretende usar o aeroporto da Ilha de Santa Maria para testes com aeronaves híbridas ancoradas ao chão, que mais parecem zepelins – mas têm como propósito a produção de energia. «Em Santa Maria, conseguimos ter mais 1500 quilómetros de mar e sem espaços habitados», recorda Tiago Pardal, líder da Omnidea, numa alusão ao facto de a indústria aeroespacial exigir pelo menos 400 quilómetros de espaço não habitado para testar lançamentos para o Espaço.

«Além disso, a ilha de Santa Maria permite ter 70% do desempenho alcançado num lançamento efetuado no Equador. O que significa que podemos aproveitar 70% da velocidade da rotação terra para um lançamento», acrescenta o responsável da Omnidea.

A Omnidea pretende produzir energia a partir do céu

A Omnidea pretende produzir energia a partir do céu

Um espaço variável

O protocolo define a possibilidade de uso da pista e da denominada placa (onde os aviões estacionam ou se deslocam depois de aterrar) do aeroporto da Ilha de Santa Maria, mas não define limites precisos: «É um espaço de geometria variável», explica Brito e Abreu, aludindo ao facto de a área usada poder variar consoante os requisitos e objetivos dos diferentes testes.

O protocolo não prevê qualquer taxa ou contrapartida financeira, admite o secretário regional. Fausto Brito e Abreu recorda que é necessário criar incentivos para fomentar o desenvolvimento de um cluster que pode potenciar o número de visitantes e até a fixação de laboratórios ou infraestruturas de manutenção de empresas no arquipélago: «Neste momento, há espaço e tempo suficientes para que não se tenha de aplicar taxas», acrescenta o governante regional, admitindo que, nos tempos mais próximos, as contrapartidas pelo uso do aeroporto possam advir da adaptação de testes às missões de monitorização ambiental de reservas marinhas, combate às descargas de poluentes ou pesca ilegal.

Vista do mar, na Ilha de Santa Maria

Vista do mar, na Ilha de Santa Maria

No governo regional há a expectativa de usar drones como uma ferramenta de intervenção rápida que complementa os dados recolhidos pelas câmaras de Alta Definição que vão ser instaladas em Santa Maria, Ilhéus das Formigas e Fajã de Santo Cristo, na Ilha de São Jorge, e também os alertas que possam vir a resultar do uso do sistema Monicap, que permite localizar embarcações com mais de 12 metros e que, em breve, deverá ser aplicado em embarcações menores, para tornar mais eficaz o combate à pesca ilegal.

O espaço de testes pode dar um empurrão para que as fabricantes nacionais conheçam de perto as necessidades do governo regional no que toca à racionalização de recursos usados na monitorização do espaço marinho, mas Brito e Abreu está apostado em expandir a marca “testado no Atlântico Norte, Açores” para o mercado internacional: «Os fabricantes de drones estrangeiros também serão bem-vindos».

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