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Mytaxi: da expansão para o Porto à guerra entre taxistas e Uber

António Cantalapiedra, diretor geral da mytaxi para Portugal e Espanha

Jos\303\251 Diogo Lucena

Em entrevista à Exame Informática, António Cantalapiedra, diretor geral da mytaxi para Portugal e Espanha, fala do impacto da fusão com a Hailo e de como os serviços de táxis são essenciais para o turismo. Além disso, aborda a guerra entre taxistas e Uber, os planos de expansão para o Porto e o impacto de tecnologias como veículos elétricos e carros autónomos.

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Paulo Matos

Paulo Matos

Jornalista

A operar há seis meses em Portugal, a app mytaxi já alargou o serviço de Lisboa para a Linha de Cascais e pretende expandir-se para o Porto no próximo ano. Numa altura em que a companhia anunciou a fusão com a Hailo, com o objetivo de ser «a maior empresa de serviços de táxis da Europa», quisemos saber como está a correr a experiência da mytaxi em Portugal, como vê a disputa entre taxistas e Uber e de que forma pensa vir a adotar tecnologias como veículos elétricos e carros autónomos. António Cantalapiedra, diretor geral da mytaxi para Portugal e Espanha, respondeu, por email, às nossas questões.

Exame Informática: Como é que a mytaxi recruta motoristas e quais os requisitos legais que condutores e viaturas têm de cumprir em Portugal?

António Cantalapiedra: A mytaxi pretende prestar um serviço premium a todos os passageiros de táxi, reformulando a experiência de utilização deste transporte. Nesse sentido, um motorista para ingressar na mytaxi tem de realizar uma entrevista pessoal de seleção e uma sessão de formação inicial na mytaxi Academy, centrada sobretudo no uso da aplicação e nas normas de conduta para melhorar a experiência do utilizador. Além disso, os veículos têm de apresentar excelentes condições em termos de comodidade e limpeza, bem como passar nas revisões periódicas para comprovar o bom estado do veículo. A mytaxi cumpre, em todos os países onde opera, a legislação e a respetiva convenção de táxi que gere os serviços públicos de transporte ligeiro de passageiros, operando apenas com motoristas de táxi devidamente credenciados. Os motoristas que adiram ao serviço frequentam periodicamente ações de formação que, a exemplo do que fazemos noutros mercados, poderão vir a incluir formações básicas em idiomas estrangeiros e em protocolo de contacto com turistas. Além disso, as avaliações dos clientes permitem-nos analisar permanentemente a qualidade do serviço prestado por cada motorista.

Quantos táxis prontos a funcionar com mytaxi existem atualmente em Portugal?

Em seis meses de atividade, a mytaxi registou uma adesão de cerca de 20% dos táxis de Lisboa (cidade). Começámos agora a operar também na Linha [de Cascais], em resposta a inúmeros pedidos dos nossos passageiros e motoristas, pelo que aproveito para convidar motoristas do eixo Oeiras-Cascais a juntarem-se à mytaxi.

Como é feita a distribuição de receitas: o motorista paga à mytaxi uma percentagem do valor da viagem, é um valor fixo por cada viagem ou um valor fixo mensal?

Antes de mais, deixe-me explicar que os taxistas têm a vantagem de não existir qualquer tipo de vínculo obrigatório com a mytaxi e de não terem que pagar quotas fixas para trabalhar com a aplicação. Como estamos em fase de lançamento também não cobramos comissão aos motoristas que estão connosco. Queremos que experimentem eles mesmos a qualidade da nossa app e sobretudo que se sintam confortáveis e satisfeitos com os serviços que obtêm nos dias de trabalho. Ao contrário de outras ofertas no mercado, estamos empenhados em contribuir positivamente para a renovação no setor do táxi. Queremos ganhar a sua confiança e mostrar que estamos presentes para ajudar. E, em linha do que fazemos em outros países, no futuro, apenas serão cobradas comissões por serviços realizados com sucesso. Em Espanha cobramos, por exemplo, €0,99 por serviço, em Portugal estamos a estudar outros modelos de negócio, em linha com o mercado.

Que balanço faz dos primeiros meses de atividade da mytaxi em Portugal? Há uma maior ou menor apetência dos portugueses por este tipo de serviços em relação a outros europeus?

Este foi o lançamento de maior sucesso na mytaxi em termos de taxas de crescimento de adesão dos motoristas e de utilizadores registados. A nossa entrada permitiu dar resposta a uma necessidade dos utilizadores que ansiavam pela modernização do serviço de táxis, não só em termos de digitalização do serviço, mas também de qualidade do serviço prestado - que se reflete na média de avaliações obtida pelos nossos motoristas, que se cifra em 4.8 (de um máximo de 5 pontos). Este resultado reflete claramente a disponibilidade e o empenho dos nossos motoristas nos serviços prestados aos passageiros.

E qual tem sido a reação de serviços concorrentes como os táxis tradicionais e a Uber?

Empresas inovadoras e tecnologicamente avançadas como a Uber e a mytaxi trazem inovação, melhorias e redefinem as soluções de mobilidade em todas as cidades que estão presentes - consideramos estas iniciativas como um desenvolvimento positivo. Não obstante, é fundamental agir de acordo com as legislações e regulamentações, como sempre fizemos nas cidades onde operamos e agora em Lisboa.

A mytaxi é da opinião que o setor do táxi deve inovar e procurar cada vez mais formas de satisfazer a procura dos seus serviços, oferecendo serviços de grande qualidade e comodidade. Acreditamos que os modelos atuais de regulamentação necessitam de uma mudança e de uma maior flexibilidade. Para nós é claro que o transporte ligeiro de passageiros deve garantir os padrões de segurança e de qualidade e ir de encontro aos regulamentos locais e nunca os contornar. Reiteramos o nosso apoio e suporte à chamada “economia colaborativa”, mas sempre, e reforçamos, sempre à luz das leis nacionais.

Enquanto player na área de serviços de táxis, como vê a disputa entre taxistas e Uber?

Na mytaxi consideramos a entrada de empresas inovadoras no mercado como uma lufada de ar fresco. A concorrência é sempre importante em qualquer setor, permite uma maior escolha ao consumidor final e ajuda a melhorar e a procurar uma contínua evolução do produto – no final, quem ganha é o país.

A indústria de táxi é um setor altamente regulamentado e com inúmeras normas para cumprir onde as taxas de licenciamento e de impostos periódicos são extremamente elevadas. É lógico e compreensível a reação do setor do táxi a este novo concorrente. As vantagens de trabalhar como motorista da Uber são benéficas em comparação com as obrigações que os taxistas são obrigados a cumprir.

Defendemos que todos os players têm de se unir e debater os problemas e a legislação deste setor juntamente com os poderes decisórios, para encontrar as melhores soluções para o setor de táxi. Defendemos sim, medidas iguais para todos e uma regulamentação mais simples.

Para que cidades pensam vir a expandir-se a seguir?

Neste momento apenas operamos em Lisboa e na Linha [de Cascais], mas vamos continuar a apostar em Portugal. Já temos traçado o plano de investimento 2017 e pretendemos expandir para novas cidades, como o Porto, mas primeiro queremos continuar a consolidar o negócio na região de Lisboa. Em Portugal o turismo é muito importante, pelo que não há melhor cartão-de-visita para um turista do que existirem táxis com um serviço de qualidade superior e um veículo em condições. E a verdade é que temos um número muito substancial de utilizadores estrangeiros, que conhecem a mytaxi dos seus mercados e que usam a aplicação quando visitam Portugal.

Que inovações estão planeadas para a app nos próximos tempos?

A mytaxi é uma app que está em constante desenvolvimento tecnológico, procurando satisfazer as necessidades de motoristas e passageiros e ouvindo as suas sugestões diariamente. Procuramos sempre otimizar a aplicação de forma a ser uma ferramenta de ajuda para os motoristas, por exemplo, mostrar os sítios com menos carros e mais movimentos a determinadas horas, ou conforme o número de pedidos, estudamos padrões de tráfego automóvel para encontrar as melhores soluções tecnológicas para gerir frotas e rentabilizá-las. Por outro lado, vamos também procurar localizar a nossa funcionalidade para pessoas com deficiência visual, que já está disponível, por exemplo, em Espanha.

De que forma se vai repercutir no mercado português a fusão da mytaxi com a Hailo, uma vez que esta não se encontra disponível em território nacional?

Permite-nos reforçar a empresa como líder no setor e nº 1 da Europa. A fusão vai permitir à mytaxi entrar no mercado do Reino Unido e Irlanda, que são dos principais emissores de turistas para Portugal. Deste modo, cremos que, quando um viajante desses países chegar a Portugal, vai procurar usar os serviços da mytaxi, com todas as vantagens inerentes para os táxis da nossa frota. Os milhares de turistas ingleses e irlandeses, muito adeptos deste tipo de serviço, vão usar nas suas férias em Portugal, como se estivessem a usar em Londres ou Dublin. Nenhuma app local pode ser tão atrativa como a mytaxi para estes turistas. Em sentido inverso, também os muitos trabalhadores portugueses em Londres e na Irlanda vão poder usar a app em todos estes mercados.

Quais as principais mais-valias inerentes ao facto da mytaxi pertencer ao universo do fabricante Daimler AG?

A Daimler foi a construtora pioneira na aposta em serviços de mobilidade e digitalização da indústria de serviços de táxi. Permite-nos uma maior almofada financeira e pertencer a um grupo que tem uma visão de mobilidade tecnológica. Estamos inseridos na Moovel, entidade que procura soluções de mobilidade all-in-one para qualquer pessoa se deslocar de um ponto A para o ponto B apenas com uma app que lhe permita ver horários e pagar os transportes através da app, por exemplo. A visão do nosso acionista passa pelo desenvolvimento de uma meta-plataforma, apoiada em inteligência artificial e em 'big-data' onde a mytaxi terá um papel muito importante. A fusão com a Hailo para nos convertermos na primeira aplicação de táxis da Europa, permite alavancar ainda mais esse projeto.

Pensamos que a evolução mais óbvia virá de projetos como o que está ser desenvolvido pela Daimler, para oferecer aos clientes soluções de mobilidade inovadoras a partir de uma única plataforma. Basicamente, com a plataforma um utilizador pode comparar os vários parâmetros das diferentes opções de mobilidade (táxi, estacionamento, carsharing) e encontrar a solução ótima para si, para efetuar uma viagem do ponto A ao B.

Há estudos (Nações Unidas por exemplo) que apontam que até 2025 mais de 70% da população mundial estará concentrada em megacentros urbanos, sem interesse em investir em automóvel próprio, pelas crescentes dificuldades criadas pelo trânsito, o combate à poluição, a falta de estacionamento, etc. Nesse caso, a sustentabilidade das grandes cidades deverá passar pela mobilidade verde. A mytaxi estará, certamente, na linha da frente para ser uma das alternativas para essa mobilidade sustentável.

A mytaxi prevê fazer algum tipo de investimento específico em carros elétricos?

Fazendo parte de um grupo como a Daimler (Mercedes) estaremos sempre preparados para apoiar os motoristas de táxi que integram a nossa frota a modernizarem os seus carros. Por outro lado, a app já tem disponível em Portugal uma opção que permite ao utilizador escolher um carro elétrico, caso assim o deseje.

No futuro, vê os carros autónomos como uma potencial transformação sem retorno para os serviços de táxis?

Creio existir uma enorme desinformação acerca desse tema, a tecnologia de carros sem condutores já é aplicada atualmente, por exemplo no sistema de estacionamento automático. Acreditamos que pode ser usada para melhorar o trabalho dos motoristas, por exemplo, com os alertas para o cansaço durante a viagem. Mas queremos deixar claro que os motoristas são o nosso maior ativo e que a sociedade deve pensar muito bem o momento em que uma máquina tomará o lugar do ser humano. A mobilidade é algo muito sério e o transporte de seres humanos é algo muito sério para deixar nas mãos de uma máquina. Se algum dia chegar esse momento, terão de existir transformações profundas no urbanismo das cidades e seguradoras dispostas a cobrir este novo sistema de transporte.