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Confissões de um papa-hackathons

Pedro Queirós não foi sempre um papa-hackathons. Só quando chegou aos EUA, o tempo livre puxou pelo bichinho das maratonas de programação que se estendem pela noite fora, mas que no caso do especialista da Outsystems não chegam a tirar uma hora de sono

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Numa competição de escalada, ganha quem chega mais acima. Nas hackathons, quem resiste às diretas de programação. Pedro Queirós sabe o que é ganhar os dois géneros de competição. Na escalada, habituou-se a superar pegas e suportes cada vez mais distantes e pequenos para chegar ao topo. Nas hackathons, o sacrifício nem sempre é tão severo. E por mais de uma vez as equipas lideradas por Pedro Queirós já ganharam, sem perderem um único minuto de uma boa noite de sono: «Coisas que demoram 20 horas a fazer exigem apenas uma fração do tempo connosco», refere o programador que tem vindo a cultivar a alcunha de papa-hackathons durante os últimos dois anos.

Mesmo nas tecnologias não há milagres. E até na Google a máxima deve ser conhecida. Pedro Queirós pôde constatá-lo pessoalmente, quando um membro destacado da gigante tecnológica, que fazia parte de um júri, lhe deu os parabéns por, aparentemente, ter conseguido concluir a direta com o projeto que haveria de ganhar Fintech Party, que juntou programadores em Atlanta, nos EUA, e Londres, Inglaterra. «Respondemos que tínhamos dormido. E que a ferramenta tinha sido desenhada durante a manhã», recorda Pedro Queirós. Com essa participação, os geeks liderados por Queirós criaram um sistema que permitia desbloquear etiquetas antirroubo e proceder automaticamente aos pagamentos de peças de roupa através de apps de telemóvel que executam transações por NFC. «E era uma solução patenteável!», acrescenta Pedro Queirós.

Metro Atlanta Rapid Transit Authority, Goodie Hack, Finapps Party Atlanta, ou a GlobalHack – em todas estas hackathons Pedro Queirós conseguiu um prémio pela qualidade do projeto ou uma distinção pela participação. Sem milagres e sem diretas, afinal, qual o segredo deste sucesso? A resposta pressupõe um pequeno “rewind”: Pedro Queirós foi viver para Atlanta em 2014, para trabalhar na delegação local da empresa Outsystems. Não muito depois de conhecer os cantos à casa, deparou-se com o tempo livre que é típico dos recém-chegados ao estrangeiro. E a participação em hackathons tornou-se natural. Até porque poderia ser usada para fazer a divulgação de uma ferramenta que permite fazer a diferença: a plataforma de modelação de código da Outsystems.

Foi esta mesma plataforma que tornou o empreendedor Paulo Rosado conhecido na década passada, depois de uma conversa com um jornalista da Forbes. Na altura, a Outsystems foi perfilada como um dos negócios tecnológicos mais promissores das décadas seguintes. Hoje, não é preciso uma análise aprofundada para descobrir que a previsão pecou por excesso de otimismo no que torna à faturação – o que não impediu a Outsystems de consolidar uma posição no mercado do denominado “low code”, com uma ferramenta que permite criar funcionalidades e aplicações sem “bater” muito código no teclado. Pedro Queirós recorda que nalgumas hackathons os blocos de códigos produzidos por humanos, por vezes, não superavam as cinco linhas. Tudo o resto é definido numa lógica visual, em que a ferramenta compila os códigos necessários para que cada funcionalidade ou fluxo de informação tenham lugar. «Como gastamos menos tempos a programar, passamos a ter mais tempo disponível para pensar no design ou nas ideias propriamente ditas», refere o profissional da Outsystems

Como seria de esperar a um profissional da Outsystems, Queirós não poupa nos elogios à plataforma que acelera a programação – e que tem permitido ganhar competições de programação umas atrás das outras. A própria Outsystems tem apostado na divulgação das hackathons ganhas pelas equipa de especialistas que tem a trabalhar nos EUA como forma de reforçar a imagem de marca junto da comunidade de programadores internacional. Nas hackathons, não é permitido o uso de linhas de código previamente criadas – exceto se forem bibliotecas que já contêm parcelas ou linhas de código que estão acessíveis a todos os concorrentes. A plataforma da Outsystems, estando disponível gratuitamente (com alguns limites no que toca ao número de utilizadores), também pode ser usada por qualquer concorrente de hackathon – e na empresa portuguesa essa hipótese seria, do ponto de vista comercial, sempre bem-vinda.

Pedro Queirós nutre sentimentos ambivalentes quanto ao uso da plataforma da Outsystems. Por um lado admite que «adorava que proibissem o uso da plataforma Outsystems em hackathons pois faria imensa divulgação e seria positivo para o marketing haver alguém de fora dizer que a ferramenta é tão boa que se torna injusto alguém a usar». Por outro lado, logo admite que seria interessante haver mais pessoas a usar a plataforma: «porque nesse caso seria possível fazer um duelo do tipo Messi-Ronaldo».

O líder da Equipa de Especialistas da Outsystems nos EUA já ganhou algumas hackathons sozinho contra equipas de vários programadores, mas não abdica de participar com outros colegas da empresa portuguesa que também estão colocados em Atlanta: Joel Alexandre, Ruben Gonçalves, Rui Barbosa, Bruno Martinho, e Corey Landers figuram entre os nomes mais assíduos das diferentes maratonas de programação. «O Joel e o Bruno vieram para Atlanta sem família e por isso têm mais facilidade em encontrar tempo livre para participar nas hackathons», acrescenta.

Por pressuporem noitadas, as hackathons costumam ser organizadas ao fim-de-semana. Tendo em conta os efeitos que as deslocações e as horas de trabalho inerentes a cada participação, Pedro Queirós tem vindo a tornar-se mais seletivo: de ora em diante vai passar a privilegiar as hacktathons de 24 horas, em detrimento das de 48 horas que acabam por ocupar todo um fim-de-semana. «Ao fim de dois ou três fins-de-semana seguidos já se começa a notar o efeito no corpo», lembra.

Pedro Queirós também pretende limitar a participação anual em duas ou três hackathons onde há prémios maiores e competição cerrada, para passar a privilegiar a participação em hakacthons de cariz social: «São mais descontraídas; têm música e oferecem comida. Numa hackathon com prémios de 20 mil euros, a concorrência é muito séria».

A quem quer experimentar as hackathons, deixa uma sugestão: «Uma ideia com grande nível de execução pode não ter grande sucesso, mas uma ideia espetacular com uma execução que até pode nem ser a melhor pode ter sucesso. Ninguém espera uma coisa perfeita numa hackathon».

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