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Associação de professores acusa Governo de favorecer privados no ensino da programação

Representantes dos professores de informática lembram que o Governo recusou avançar com o ensino da programação em todas as escolas. «Os professores de informática já estão nas escolas; não precisavam de entidades externas a fazer este trabalho», denuncia a presidente da ANPRI.

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O Ministério da Educação anunciou ontem o programa Gen10s para o ensino dos rudimentos da programação junto de cinco mil crianças do 5º e 6º anos de escolaridade. Hoje, a Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI) tomou uma posição crítica sobre a iniciativa Gen10s: «Todas as parcerias são bem-vindas, mas são os professores de Informática, que hoje estão nas escolas públicas, quem tem a formação adequada e a função legalmente atribuída para lecionar programação nas escolas», denuncia Fernanda Ledesma, dirigente da ANPRI, quando questionada pela Exame Informática.

Entre novembro de 2016 e março de 2017, a ANPRI e o Ministério da Educação trabalharam numa proposta de definição de uma disciplina Tecnologias da Informação e Comunicação para o 5º e 6º anos. A nova disciplina vai ser lecionada nas mais de 140 escolas que foram abrangidas pela denominada flexibilização curricular, que dá às escolas a possibilidade de definirem 25% do currículo escolar e já contempla a inclusão de uma nova disciplina tecnológica no currículo do ensino básico. Fernanda Ledesma recorda que, durante este processo, foi proposta ao Ministério da Educação a expansão desta disciplina para todas as escolas do País (e não apenas pelas que são abrangidas pela flexibilização curricular).

O Governo não enveredou pela inclusão da disciplina de TIC e o ensino dos rudimentos da programação para todas as escolas, mas anunciou o programa Gen10s para a formação de 5000 crianças e 500 professores, com vista ao ensino do Scratch. O projeto foi desenhado pela Alphabet (o grupo que detém a Google), a associação Ayuda en Acción e a SIC Esperança (do Grupo Impresa, que detém a Exame Informática, Expresso, SIC, entre outros meios de comunicação).

«A proposta que trabalhámos com o Ministério da Educação já continha estes conteúdos (que vão ser lecionados no âmbito do iniciativa Gen10s)», frisa Fernanda Ledesma, lembrando outro dado: hoje, há alunos do 7º e 8º anos de escolaridade que já fazem trabalhos com Scratch, no âmbito dos 90 minutos semestrais que estão obrigados a frequentar para aprender os rudimentos das tecnologias. «Os professores de informática já estão nas escolas; não precisavam de entidades externas a fazer este trabalho», reitera a dirigente da ANPRI.

O Gen10s não tem escala para chegar a todas as escolas, e a dirigente da ANPRI também questiona o projeto face à universalidade que deve caracterizar o ensino público. Fernanda Ledesma considera que, em vez de fomentar a igualdade de oportunidades, o Gen10s «vai acentuar a desigualdade entre alunos» que são ou não abrangidos pelo ensino dos rudimentos de programação.

Também a escolha da linguagem de programação Scratch merece reparos. «Os professores de informática querem ensinar programação e pensamento computacional e não apenas Scratch. Até porque há mais linguagens, além do Scratch», acrescenta Fernanda Ledesma, numa alusão a linguagens como Tynker, Blockly ou Kodu.

Em comunicado enviado esta manhã para as redações, a ANPRI lembra ainda que a linguagem Scratch é um recurso didático grátis para escolas e crianças de todo o mundo: «Não entendemos como a tutela aceita uma situação, vinda entidades privadas a receitar o Scratch que, por acaso, até é um recurso gratuito do MIT, pode ser usado por qualquer pessoa, sem ter de pedir autorização a estas entidades. Mas a gravidade está no facto de se estar a “impingir” uma linguagem. Esta escolha sempre foi da responsabilidade do professor, tanto em contexto formal, como informal, sempre foi uma opção do professor conforme o cenário de aprendizagem, as condições da sala de aula e o projeto a desenvolver».

Fernanda Ledesma reitera não estar contra o projeto Gen10s; apenas critica «a forma como foi feito». «Agora, vamos aguardar por futuras reuniões com o Ministério da Educação (abordar este assunto). O que queremos é que todos os alunos possam ter esta formação», conclui.

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