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Presidente dos Bombeiros: comunicações de emergência não estão a funcionar em Pedrógão Grande

Fernando Curto, dirigente da associação e do sindicato que representa os bombeiros, recorda que o SIRESP é fulcral para garantir o uso correto dos meios de resposta a uma catástrofe

O que mudava se o SIRESP estive a funcionar em Pedrógão Grande? «Mudava a localização e a mobilização das viaturas; e mudava por ventura a informação para que as pessoas progredissem em determinados caminhos em detrimento de outros», denuncia Fernando Curto, presidente da ANBP

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SIRESP. A sigla pouco dirá à maioria da população, mas para os bombeiros, forças de segurança e Autoridade de Proteção Civil é um nome que deveria significar muito – ou não fosse este o sistema que deveria atuar como o sistema nervoso em situações de emergência. Só que o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal continua sem funcionar quando é mais necessário, passados mais de 13 anos de uma implementação que se atrasou e superou os 485 milhões de euros. Nos incêndios que começaram a grassar na tarde de Sábado em Pedrógão Grande, o SIRESP voltou a confirmar a falta de fiabilidade, ficando inoperacional a partir do momento em que as chamas ganharam dimensão. A falta de comunicações não é inédita – e não é só em cenários de catástrofe que se faz sentir. Também em simulacros terão ficado patentes as limitações no que toca à falta de cobertura do SIRESP. Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais e vice-presidente do Sindicato Nacional de Bombeiros Profissionais, denuncia a lacuna que hoje bombeiros e polícias sentem no terreno para operarem de forma concertada face às ordens de um comando centralizado. Sem comunicações, a gestão de meios é difícil e até o encaminhamento das pessoas para estradas seguras fica em risco. «A melhoria destas comunicações é imprescindível: é a mesma coisa que ir para uma guerra e não levar armas ou balas», recorda.

Há ou não dificuldades de uso do SIRESP na região afetada pelos fogos de Pedrógão Grande?

A dificuldade tem sido identificada pelos operacionais e o próprio Secretário de Estado (da Administração Interna; Jorge Gomes) já identificou essa situação, essa deficiência. A rede de comunicações SIRESP liga não só bombeiros como todas as forças de segurança; para que todos possam falar em consonância com uma situação de catástrofe, como é o caso (dos fogos de Pedrógão Grande). Tem havido algumas dificuldades em comunicar. Essa dificuldade é maior quando efetivamente as ligações entre bombeiros e as forças de segurança não funcionam como se esperava que funcionassem. Os bombeiros estão a operar com as suas próprias redes e com os seus próprios repetidores de comunicações.

Portanto, estão a usar as redes de rádio que são anteriores à própria rede do SIRESP.

Exato. Essas redes são usadas em complemento ao SIRESP … ou o SIRESP é usado em complemento a essas redes. O SIRESP é uma rede que nunca funcionou bem. Quando esta rede é testada em situações de crise ou catástrofe, como é o caso, nota-se mais, porque há um vazio de comunicação, há um vazio de interligação entre as forças que se encontram no teatro de operações.

Os bombeiros e os GNR que estão no terreno não conseguem falar com os respetivos comandos?

Há uma dificuldade em contactar (com os comandos). Não sei se é por não haver repetidores ou se é por a zona ser acidentada, há locais onde efetivamente o SIRESP não tem funcionado. Infelizmente esta deficiência é muito antiga. E infelizmente não foi retificada noutras situações em que surgiram estes problemas.

O SIRESP foi criado para ser usado em situações de emergência, mas não funciona em situações de… emergência?

O sistema é de emergência, mas pressupõe-se que o SIRESP seja um meio de ajuda num teatro de operações com uma calamidade destas, que necessita de uma ligação muito maior entre forças de segurança e também bombeiros. Em Figueiró dos Vinhos e em Pedrógão Grande há uma dificuldade notória de comunicações, pelo facto de o SIRESP não funcionar como os bombeiros e as forças de segurança desejam. Não vale a pena escamotear, nem esconder porque é um facto.

Foram os operacionais no terreno que lhe relataram essas falhas?

É um dado que já foi identificado. De sábado até hoje não falei para nenhum órgão de comunicação social. Estive a fazer todo o trabalho de pesquisa. Esta é uma situação complicada, delicada. Tive reuniões com os meus colegas da direção, tive reuniões no domingo, tive reuniões hoje, falei com os secretariados regionais todos, falei com alguns comandantes, e falei com quem tinha de falar, no sentido de corrigir e alertar para situações, como temos feito nos anos anteriores. E essa questão do SIRESP foi identificada pelas operações no terreno (em Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos).

O que mudaria se o SIRESP estivesse a funcionar como deve ser?

Mudava tudo. Mudava a localização e a mobilização das viaturas; mudava por ventura a informação para que as pessoas progredissem em determinados caminhos em detrimento de outros. O SIRESP é também um meio de comunicação imprescindível que o comandante operacional tem no teatro de operações. É a partir dessa comunicação que são estabelecidas decisões e todas as medidas de segurança que é necessário estabelecer em cenários desta natureza. O SIRESP e as outras comunicações usadas pelos bombeiros são imprescindíveis porque vão determinar os meios, as decisões, as mudanças de estratégia. Tudo aquilo que determina o teatro de operações tem por base as comunicações, que podem ir através de SIRESP ou as comunicações próprias dos bombeiros.

As comunicações de rádio que os bombeiros usam em alternativa ao SIRESP são mais limitadas no alcance?

Não. O SIRESP tem mais que um tipo de utilizador. É para todas as forças operacionais… e cada uma dessas forças tem os seus repetidores. Como tal, o SIRESP é uma rede muito inovadora, que coloca todas as forças de segurança em contacto em simultâneo. O que permite dar uma ajuda muito grande a todas as forças, meios e comandantes que estão no terreno para, através das comunicações, poderem dar a sua informação e as suas decisões, no sentido de atuar.

Com os sistemas de rádio, cada força operacional tem os seus canais e tecnologias e nem sempre é possível comunicar com outras forças… é essa a diferença?

Essas redes próprias estão ligadas às centrais, aos CDOS e aos CNOS (Comandos Distritais de Operações de Socorro e Comandos Nacionais de Operações de Socorro). Mas além disso há o SIRESP, para todos os estarem no mesmo canal – os decisores da GNR, da Autoridade (de Proteção Civil) e quaisquer outros decisores de entidades que estejam envolvidas nos sinistros – e possam atuar todos em consonância com as decisões do posto de comando.

Portanto, conclui-se que faz falta um SIRESP a funcionar como deve ser nos locais afetados por estes incêndios?

Claro que faz falta. Esperava-se que o SIRESP, tendo uma nova orgânica de comunicação, resolvesse muitas dessas dificuldades. Felizmente, já não se vê tantos comandantes usarem os telemóveis para decidirem. É uma situação que não pode acontecer. Daí que as comunicações, quer sejam aquelas que são próprias dos bombeiros, quer sejam aquelas que são usadas nos âmbito do SIRESP e que também são dos bombeiros e das forças de segurança, permitam debelar algumas carências que existiam. Mas deixe-me dizer-lhe: esta lacuna das comunicações já vem de há anos. A melhoria destas comunicações é imprescindível: é a mesma coisa que ir para uma guerra e não levar armas ou balas. Se formos operar em áreas enormes de vários hectares, a localização dos vários meios tem de ser feita através de comunicações. Não há outra alternativa.

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