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Web Summit: os novos compositores não têm ouvidos. Só algoritmos

Bach e Beethoven não sabem, mas já são usados em plataformas de inteligência artificial para compor música pop. Taryn Southern conta como entrou no mundo da pop com alguns cliques e a ajuda do reconhecimento de padrões

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Músicos desinspirados uni-vos! Ou pelo menos tentem encontrar um lugar na assistência do palco dedicado à música na Web Summit e tentem perceber o que Taryn Southern tem para contar. Começa com uma assunção: «eu cresci a ouvir as músicas no top 40 da pop». E prossegue com uma constatação: «a música pop tem fórmulas». E por fim a dedução: se o autor ouve pop, e a música pop tem fórmulas, então é legítimo que se use inteligência artificial (IA) para criar música.

Taryn Southern sabe do que fala. E tem já trabalho para mostrar. A entrada em palco é precedida por um videoclip com música e imagens produzidos por inteligência artificial. Antes disso, houve um momento iniciático. E é aí que a cantora retoma o fio à meada. Nas colunas do palco irrompe uma sonoridade que um agente de inteligência artificial produziu seguindo indicações de produzir «pop cinemática».

Southern compara o som a qualquer coisa como a banda sonora de Senhores dos Anéis. A boa vontade da plateia leva a crer que, sim, poderíamos imaginar hobbits a fugir das trevas com aquele ritmo retumbante. Mas depois, qual patinho feio convertido num cisne pop, eis que Taryn Southern adiciona a voz à trilha sonora. E a comparação mais adequada talvez passe a ser: o que aconteceria a Britney Speers se fosse convidada para escrever a banda sonora de uma série de TV que parodia a saga dos senhores dos anéis e em que todas pessoas andam de perucas e ceroulas baratas?

O gosto não é tudo. O processo como se forma o gosto… se não é tudo, pelo menos, vale dinheiro e tops. E por isso, Taryn Southern, uma adepta confessa da composição artificial, não descura a importância do processo – que logo garante ser 90% não criativo e apenas 10% criativo.

Quem acredita que a música é a mais recôndita e mágica forma de comunicar com os deuses ainda não saiu do século 20 e não sabe. E também não sabe como dar o salto para o século 17 ou para o século 18. Taryn Southern sabe: «A IA oferece a verdadeira colaboração. Com estas ferramentas posso colaborar com o Beethoven e o Bach. Num dos meus álbuns cheguei a usar 1600 temas de piano barrocas».

Não há muito por onde inventar: há exceções, mas, regra geral, uma escala é feita de sete notas escolhidas de um total de 12 possíveis. É este o campo de trabalho de qualquer compositor de carne e osso – e a inteligência artificial não tem como lhe escapar. A própria Taryn Southern recorda os grandes compositores de música pop que conhecem as fórmulas mais usuais. E assim fica aberto o caminho para a IA na composição. Mas em vez fórmulas, usa-se o termo de «reconhecimento de padrões». Amper ou Watson, da IBM, são as tecnologias que Southern demonstra em palco como equivalente de compositores – que chegam a assumir 100% da criatividade.

Southern não poupa nos elogios à capacidade da IA para quebrar barreiras. «Não tenho de passar três horas parada no trânsito para ir gravar em Los Angeles», atira, para depois apontar mais virtudes à inteligência artificial: «Posso fazer música no meu quarto, mesmo sem um único conhecimento de música. Dantes tinha de ficar dependente do produtor e dos intérpretes para fazer música que queria – mas por vezes essa colaboração corre bem e noutras corre muito mal».

Com as plataformas de inteligência artificial, a cantora pode estar no quarto e apenas tem de dar indicações sobre o estilo, a duração, o tempo ou ritmo usados. No limite pode levar a plataforma a mimetizar qualquer tema ou corrente musical. Alguns cliques – e a plataforma faz o resto.

É inegável: potencialmente, qualquer pessoa pode aspirar a compositor desde que tenha um computador para correr a plataforma certa – e essa é uma virtude muito enaltecida por Southern. Mas fica sempre a questão: o compositor é quem deu as indicações ou a plataforma que seguiu as indicações?

Taryn Southern não chegou a perder muito tempo com a questão, mas não deixou de aproveitar o tempo disponível para dar a conhecer um tema de homenagem à Inteligência Artificial com título de “AI”. A banda sonora estava gravada; a voz foi cantada no próprio momento. Toda a composição e vídeos resultaram de inteligência artificial, exceto a letra. «Há mais do que aquilo que somos e há mais do que aquilo que podemos ser», avisou o refrão na hora de acabar a palestra. Britney Spears que se prepare.

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