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A empresa dos táxis voadores autónomos quer mudar a mobilidade urbana, mas sabe que nunca dará lucro

Alexander Zosel, cofundador da Volocopter

José Caria

Alexander Zosel, cofundador da Volocopter, revela em entrevista uma panóplia de detalhes da empresa que está a desenvolver os táxis voadores autónomos, como, por exemplo, os desafios tecnológicos inerentes a esta inovação, as parcerias com Intel, Daimler e Airbus, e as transformações que ocorrerão nos próximos anos no setor da mobilidade

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Paulo Matos

Paulo Matos

Jornalista

Se ainda não sabe o que é um Volocopter, prepare-se para ser surpreendido: é um drone (um quadcóptero capaz de descolar e aterrar na vertical, para sermos mais precisos) autónomo e elétrico que funciona como táxi, já que é capaz de transportar duas pessoas em simultâneo. A ideia pode parecer excêntrica, mas é na realidade uma forma que está a ser levada muito a sério de contornar os problemas da mobilidade urbana. No Dubai já houve demonstrações com sucesso e Alexander Zosel, cofundador da Volocopter, revelou no Web Summit que daqui a 3 a 5 anos haverá veículos destes a cruzar os céus das megacidades.

Exame Informática: Como é que surgiu a ideia de criar um drone autónomo que funcionasse como táxi e de que forma foi criada a empresa?

Alexander Zosel: Tudo começou em 2010 quando o Stephan Wolf, que é outro dos cofundadores da empresa, me ligou com uma ideia sobre voar, porque tinha visto no mercado da eletrónica um brinquedo, um quadcóptero, que comprou para o filho. Começámos a falar sobre a engenharia de escalar este princípio para uma aeronave. Esse foi o início, construir um modelo.

Referiu que começaram em 2010. Como foi evoluindo a empresa e como está agora?

Nos primeiros três anos tínhamos equipas muito pequenas e uma rede forte de parceiros, aquilo a que chamamos de “campeões escondidos”, que são empresas que produzem alguma da melhor tecnologia do mundo e que não são muito reconhecidos por serem muito especializados. Nós estamos numa zona relativamente pequena na Alemanha; por exemplo, uma reputada empresa líder de mercado que faz joysticks para controlar veículos (como gruas e comboios, por exemplo) achou o nosso projeto interessante e, estando muito perto de nós, disseram que nos forneceriam gratuitamente. Além disso, também temos parceiros técnicos como a Airbus. Na fase inicial também recebemos fundos governamentais e fizemos uma campanha de crowdfunding que, nos primeiros três dias, angariou 1,2 milhões de euros.

O que recebiam em troca as pessoas que contribuíam para esse crowdfunding?

Era uma espécie de crédito, que lhes permitia receberem uma taxa de juro. Essa foi a primeira forma que tivemos de angariar fundos, depois também aceitámos a entrada de dinheiro de privados na empresa e houve igualmente dinheiro investido pelas próprias pessoas da companhia.

Quais foram os principais desafios tecnológicos com que se depararam e com que se deparam atualmente?

Somos mais uma empresa de software do que de hardware. No fundo, somos um supercomputador voador, mas também trabalhamos na questão das baterias, motores e controladores, por exemplo. No início, o desafio era conseguir levantar o peso de duas pessoas, pelo que nos concentrámos no desenvolvimento dos motores elétricos, por exemplo. Agora é mais sobre voo autónomo e todo um ecossistema complexo. No início, estávamos a tentar colocar no ar uma aeronave capaz de levar duas pessoas.

Já pensaram mudar o foco do transporte de pessoas para o transporte de cargas?

Desde os primeiros dias que sabíamos que temos um dispositivo voador, pelo que se é capaz de transportar duas pessoas de 80 quilos então também é capaz de transportar cargas com esse peso. Somos capazes de transportar quase 200 quilos, pelo que não será problema aplicar esta técnica para transportar cargas. Estamos abertos desde o primeiro dia a construir com esse propósito, mas vemos que o mercado de táxis voadores para o transporte de humanos será muito, muito grande no futuro. Não sabemos em que altura, mas, se vier a ser necessário, construiremos outra empresa para as cargas, embora não esteja planeado. Será fácil, porque temos uma máquina certificada para transportar humanos, pelo que adaptar para um drone de cargas capaz de transportar 200 quilos não deverá ser complicado, apesar de ainda não haver regulamentação sobre o assunto. Tivemos de trabalhar arduamente para conseguir a regulamentação para pessoas, mas temos um standard de segurança que deverá ser rapidamente replicado para cargas.

Sente que a segurança pode vir a ser um entrave para uma adesão massiva por parte das pessoas numa fase inicial?

Não imagina o número de pessoas que nos contactam a dizer que querem experimentar já! Nem querem esperar… Não é um fator. Por exemplo, a Airbus fez um estudo mundial sobre voos e táxis voadores e a maioria dos inquiridos prefere táxis voadores autónomos a semi-autónomos com um piloto. Além disso, o semi-autónomo requer toda uma regulamentação diferente. Perde-se tempo e o produto final não é mais seguro. Do ponto de vista de conceito, é muito seguro sem piloto. Em termos de mobilidade no chão, há carros semi-autónomos e vai haver autónomos. Mas, para mim, esse não é o objetivo da empresa, acredito que será mais rápido e seguro começar com completamente autónomo. Mas, como aceitámos regulamentações pré-existentes, construímos uma aeronave pilotável para podermos ser certificados e fazer testes iniciais. Neste momento vemos um grande movimento por parte das autoridades mundiais na direção dos autónomos.

Como vê o futuro financeiro da empresa? Quando se prevê que dê lucro?

Nunca dará lucro… Neste momento, temos uma estratégia de crescimento agressivo, em que queremos ser muito rápidos e ter muitas pessoas, porque este é um mercado muito, muito grande e queremos ser um player mundial. Queremos criar uma empresa muito grande e trabalhamos arduamente naquilo que será um mercado enorme no futuro. Até porque todo o dinheiro que ganhamos é reinvestido na companhia: em aumentar as equipas, no desenvolvimento do produto, etc. – esse é o nosso foco agora, não é fazer dinheiro. E os nossos investidores sabem-no, todos eles têm bolsos largos e estão nisto a longo prazo.

Um desses investidores é a Daimler. Qual a importância de ter um investidor desse calibre?

Temos investidores financeiros e investidores estratégicos. Um desses investidores estratégicos é a Intel e outro é a Daimler. Enquanto startup, retiramos vantagens desses dois investidores. A Intel é norte-americana e um grande player, a Daimler é alemã e igualmente grande, pelo que nos podem colocar mais facilmente nos Estados Unidos, por exemplo. A Intel é a nossa parceira para as áreas de sensores e autónomos. Como eles têm vindo a fazer muitas aquisições e desenvolvem muito, também conseguimos ter acesso rápido a novas tecnologias e a escala para produzir em maiores quantidades. Mais do que investimentos, são parcerias.

O vosso site diz que o preço de um Volocopter é “sob consulta”…

Não é fácil, porque produzimos um táxi voador autónomo e divulgar um preço agora seria estar a atribuir um valor a um protótipo. Não sabemos quanto será daqui a cinco anos, porque a tecnologia ainda não é final e ainda há a questão da produção em escala – é por isso que não faz sentido atribuir um preço agora. Podemos dizer que o preço do Volocopter será comparável a um helicóptero para duas pessoas como o R22, sem ter em conta a produção em escala.

E acha que será um meio de transporte elitista, no sentido em que apenas as pessoas com mais dinheiro o poderão usar? Ou será acessível a todos?

Não será apenas para pessoas com muito dinheiro, será um serviço para todos. Se tiver tempo, pode escolher um serviço que demore mais e seja mais barato – tempo é dinheiro, essa é a premissa. É um pouco como o Uber Black e nem é o caso de que viremos a ser cinco vezes mais caros que o Uber Black, seremos um pouco menos do dobro. É um sistema de transporte para toda a gente. Além disso, acreditamos que haverá muita partilha, já que as gerações mais novas não têm grande interesse em ter um carro. E na questão do preço também é preciso ter em conta o custo das infraestruturas, porque estamos a pagar indiretamente o custo de construção e manutenção de estradas e pontes, por exemplo, ou até portagens – tudo somado é extremamente dispendioso. Com um táxi voador, o custo da infraestrutura é muito reduzido, pelo que até acaba por sair mais barato para o utilizador.

Fizeram uma demonstração recentemente no Dubai. É essa uma área geográfica chave para vocês ou têm outras?

São as megacidades em todo mundo, porque são onde o Volocopter se ajusta na perfeição. O Dubai tem calor extremo e areia e conseguimos ajustar a nossa aeronave para funcionar de forma autónoma lá. Não fomos lá receber dinheiro para fazer a demonstração sem eles se preocuparem com a segurança; fizemos muitos testes e tivemos de passar por muita burocracia com as autoridades locais – não foi uma situação em que não tivéssemos riscos pela frente, nem foi um showcase, foi mais um passo no caminho para mostrar como será possível viajar em segurança.

Já foram abordados por governos para implementar esta solução de mobilidade em países europeus?

Não, é mais uma questão do poder local das próprias cidades do que o poder central dos governos. Com cidades sim, já tivemos algumas conversas – não só na Europa, mas um pouco por todo o mundo.

Numa das conferências do Web Summit em que participou referiu que dentro de 3 a 5 anos haverão Volocopters nos céus a funcionar. Acredita que será numa única localidade ou já como uma espécie serviço global?

Julgo que dentro de 3 a 5 anos estaremos em uma localidade ou talvez em mais algumas localidades. Pode ser, por exemplo, com um único trajeto e 10 aeronaves, mas estará disponível como um serviço para clientes pagantes e não como uma demonstração. Será um produto certificado.

Parece que vivemos numa época revolucionária no que diz respeito aos meios de transporte com o aparecimento de empresas como Tesla, Uber ou Hyperloop, por exemplo. Como alguém que é um participante ativo nesta transformação, como vê o futuro do setor dos transportes?

Acho que as mudanças afetam a mobilidade na sua globalidade e que a experiência de utilização também se altera. Acho que as pessoas vão mais às cidades para trabalhar e só vivem lá porque é onde trabalham – além do aspeto cultural claro –, pelo que as novas tecnologias possibilitam que se viva a 100 quilómetros da cidade numa boa casa e se tenha um fácil acesso à cidade. Penso também que as grandes aeronaves que existem hoje serão diferentes daqui a 20 anos e isso está relacionado com os aviões elétricos, os propulsores e as vantagens em relação às turbinas – tudo irá mudar nos próximos 20 a 50 anos e isso inclui os voos de longo curso. É algo enorme e novo. Se passarmos para o chão, também irá mudar muito: haverão muitos carros autónomos ou outra coisa a ser ‘disparada’ por um carril específico… Acho que com a mobilidade elétrica consegue-se maior eficácia e um sistema mais otimizado. Por exemplo, em La Paz há diferenças de altitude muito acentuadas, pelo que recorrem a teleféricos, já que os carros consumiriam imensa energia. Portanto, há uma mistura de coisas novas a caminho e o Volocopter é a solução perfeita para distâncias curtas em espaço aberto. Somos muito estáveis a deslocar e a aterrar, mesmo com alguma turbulência. E, em algumas áreas urbanas, já nem é possível construir mais estradas, tem mesmo de se ir para os céus. É por isso que as megacidades serão os primeiros casos de sucesso comercial em que estamos a trabalhar.