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No Bangladesh, há famílias que compram e vendem energia. No futuro será assim em todo o mundo

Fotos cedida pela EDP (PAULO ALEXANDRE COELHO)

Solbox é uma pequena caixa que mede energia que entra e sai de uma casa, e converte o superavit em dinheiro que pode ser aplicado em qualquer tipo de bens. Com o dispositivo, a Solshare conquistou as primeiras centenas de clientes em zonas remotas do Bangladesh, garantiu o investimento da EDP e deu o mote para um modelo que possivelmente acabará por conquistar o mundo

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Lembra-se das redes de partilha de ficheiros (P2P) que permitiam que milhões de pessoas descarregassem músicas e vídeos na Internet? Pois bem, Sebastian Groh repete por mais de uma vez o termo P2P – mas sempre aplicado à área da energia. O jovem alemão radicado no Bangladesh lidera hoje uma das empresas mais promissoras da atualidade com uma solução que combina painéis fotovoltaicos, blockchain, preços que equilibram a procura e a oferta e carteiras virtuais com dinheiro móvel. Tudo isto numa Solbox – uma caixa que já começou a ser instalada em centenas de lares situados em ilhas ou locais mais inacessíveis do Bangladesh que não constam nos roteiros de investimento das redes elétricas nacionais, e que por isso estariam condenadas a viver às escuras ou a pagar aos vizinhos que têm geradores para carregar um simples telemóvel a preços correspondentes a nove euros por kilowatt hora. «Uma loucura», no entender de Sebastian Groh.

Depois de ter confirmado a viabilidade de um modelo que faz de cada lar um potencial vendedor de energia (desde que disponha de um meio de produção), a Solshare já começou a trabalhar em testes fora do Bangladesh. A Índia, com um total de 300 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade, afigura-se simultaneamente como um grande desafio e um chorudo prémio, mas não esgota os planos da jovem companhia que já garantiu 500 mil euros de financiamento da EDP. A Solshare também já lançou os primeiros ensaios na Áustria. Apesar de o denominado mundo desenvolvido não ser prioritário, Sebastian Groh, um alemão orgulhoso da sua empresa bengali, não tem dúvidas de que o modelo P2P vai acabar por se impor também nos mercados onde as redes nacionais já estão consolidadas. Mas admite que pode levar tempo.

Há quanto tempo está no Bangladesh?

Fui para o Bangladesh em janeiro de 2014, quando ainda era um aluno de doutoramento, que estava a estudar o papel das tecnologias e da inovação relacionados com a energia, em especial o programa de energia solar do Bangladesh, que funciona como uma referência da atualidade… que abrange cinco milhões de casas, o que significa um total de 25 milhões de pessoas, se fizermos contas a cinco pessoas por lar. Há cerca de 160 milhões de habitantes no Bangladesh, mas conseguir chegar a 25 milhões de pessoas nas zonas rurais tendo o sol como fonte de energia principal é um valor substancial! É mesmo único no mundo!

Pelas suas descrições públicas, diria que o Bangladesh reúne todas as características necessárias para lançar uma rede de partilha de energia como a Solshare…!

É o país com a maior densidade populacional, se excetuarmos as cidades-estados. Além disso há muitos sistemas fotovoltaicos dispersos, é o local mais indicado para ter lucro com uma rede de partilha e venda de energia.

Não houve nenhum tipo de resistência ou obstáculos?

Exigiu algum tempo… há muitos consultores que costumam ir para o Bangladesh dizer-lhes o que devem fazer…

As zonas rurais não devem ser propriamente as mais fáceis de trabalhar.

Estamos a fazer negócio no segmento empresarial. O que significa que fomos instalando os primeiros sistemas de forma realista, com os pés no chão, só para ver como é que as pessoas reagem. Agora, há cinco milhões de sistemas (fotovoltaicos) no Bangladesh… eles não apareceram do nada! Há empresas muito boas que já fazem esse trabalho. Trabalhamos com essas empresas. Quando uma dessas empresas instala um sistema fotovoltaico também pode instalar o upgrade, que corresponde ao modelo proposto pela Solshare, que permite fazer a interligação (com os restantes pontos da rede).

E essa interligação compensa?

As pessoas passam a poder vender energia e a fazer dinheiro. A maioria das casas estão equipadas com baterias domésticas para armazenar a energia captada pelos painéis fotovoltaicos.

Nenhuma empresa do setor vos encarou como inimigos a abater?

Estamos a operar em áreas onde as distribuidoras de eletricidade não vão. Por isso ficámos fora do alcance delas… somos como um submarino; essas empresas não nos veem, até ao dia em que emergimos! Começámos com 400 a 500 casas ligadas… já definimos para o próximo ano mais de 3000 casas, e temos uma parceria estratégica com uma empresa que já instalou mais de dois milhões de sistemas fotovoltaicos, e que continua a instalar painéis. Só precisamos de fazer o nosso trabalho de casa (para fazer o mercado crescer).

Como é que vocês controlam compras, vendas e faturação dos diferentes lares?

No que toca ao hardware, temos um medidor que estima a eletricidade que entra e sai de uma casa. Este medidor mostra os preços e não os kwh (kilowatt hora), porque as pessoas nem sequer sabem o que isso é. Uma pessoa pode começar o dia com 100 dacas (a moeda bengali) e terminar esse dia com 80, se teve comprar energia, ou 120 se conseguiu vender a energia a outras pessoas. O que é um incentivo para comprar eletrodomésticos mais eficientes, e poupar energia, porque se consegue ver o impacto no medidor. Mas isto é apenas no hardware. No software, temos a plataforma totalmente integrada com um sistema de “dinheiro móvel”. Tudo o que é mostrado no medidor produz efeito na carteira de “dinheiro móvel”. Se o meu painel fotovoltaico vende energia, eu posso usar esse dinheiro para, quase em tempo real, comprar qualquer coisa no mercado. É muito intuitivo: o painel produz energia, tenho um telemóvel, logo posso ir comprar arroz.

Quem define os preços da eletricidade?

Até agora temos um modelo similar ao da Uber que começou a operar sem preços fixos, mas apresentava um valor considerado equilibrado tendo em conta as tendências da oferta e da procura. Nós não vendemos a eletricidade; quem vende são os membros das redes. Nós apenas ficamos com uma percentagem de comissão. Definimos um preço de uma forma a manter a venda como aliciante, mas sem pôr em causa o acesso, especialmente, das pessoas que têm pouco dinheiro para pagar a eletricidade que compram. Estamos a trabalhar em preços dinâmicos em parceria com várias multinacionais. Atualmente, temos os mesmos preços durante o dia e durante a noite. Não faz sentido. Durante o dia, a eletricidade deveria ser bem mais barata, porque há muito mais sol do que durante a noite. As nossas caixas têm a capacidade para aprender com as múltiplas variáveis que vão medindo, e por isso sabem quando é que as pessoas precisam de usar quatro eletrodomésticos… ou quando precisam de menos ou de mais energia. Quando estas variáveis são metidas numa equação, passamos a ter um modelo de preços bastante mais inteligente, que tem em conta os recursos energéticos existentes no local, e permite tornar a rede muito mais eficiente.

Apesar dessa intenção em evoluir para um modelo dinâmico, os preços continuam bastante mais acessíveis que aqueles que as pessoas cobram a quem não tem eletricidade e pede para usar uma tomada!

Imagine que tem um telemóvel dos mais básicos… mas não tem acesso à eletricidade. Como é que podemos cobrar por essa eletricidade. As pessoas têm várias ideias, para poderem carregar os telemóveis… ou então pedem ao vizinho que tem uma ligação à rede elétrica. E esse vizinho pode cobrar cinco dacas, o que corresponde a cinco cêntimos. Mas a energia consumida por um telemóvel totalmente carregado é mínima. Se fizer as contas, vai ver que dá para oito ou nove euros por kilowatt hora. É uma loucura. Para nós, é fácil superar esse preço… até mesmo apresentar um preço 10 vezes mais barato é fácil.

E esses preços atrativos vão manter-se com o modelo dinâmico?

Sem nenhuma dúvida.

Será que um sistema similar ao da Solshare pode ser viável noutros países como Portugal?

Acreditamos que as redes de partilha que instalámos no Bangladesh serão o futuro em qualquer lugar

… desde que haja sol!

… sim…

E também pode funcionar com o vento?

De onde vem a energia não importa muito – desde que a fonte seja descentralizada e haja uma certa densidade (populacional),

E essas redes de partilha podem funcionar sem integração com as redes nacionais convencionais?

Esse é um grande desafio que temos pela frente na Áustria, onde já temos alguns protótipos a funcionar. Basicamente, sempre que há uma rede nacional, pode ser feita mudança automática entre as redes nacionais e as pequenas redes que nós ajudámos a criar. Mas é algo que está a ser desenvolvido agora. Para já, as nossas redes estão, na larga maioria, sem acessos às redes nacionais. Estamos a falar de pequenas ilhas que podem estar no meio de grandes rios – o Bangladesh é um país com muitos rios – e as redes nacionais não têm interesse em chegar a esses locais.

A vertente técnica pode ser complexa, mas será que os reguladores dos vários países vão deixar que empresas como a Solshare comecem a operar?

Nós temos uma vantagem: neste momento, já estamos a trabalhar com modelos de partilha no Bangladesh, a resolver problemas reais. Não estamos preocupados a desenvolver testes de regulação isolados, que nos vão custar muito dinheiro e tempo, para experimentar este modelo com muito poucas pessoas na Europa. Estamos a resolver um problema grave num país em vias de desenvolvimento… Assim que a regulação se torne mais favorável, com todo o conhecimento e experiência que temos, poderemos então avançar para um modelo global mais complexo.

Qualquer pessoa dirá que a vossa maior vantagem é o preço baixo da energia…!

Acreditamos que, no futuro, o preço da energia vai aproximar-se do zero… vai tornar-se quase como uma mercadoria. Pelo que tudo se vai decidir na lógica de quem faz mover os eletrões e de como é que esses eletrões se deslocam…

Quais os vossos planos para fora do Bangladesh?

Este mês devemos instalar as primeiras redes na Índia, onde há 300 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade. O sul do continente asiático já é suficiente para nós.

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