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Apple cede à pressão e retira HKmap.live da App Store chinesa

ANTHONY WALLACE

Já várias grandes empresas e instituições vacilaram em mostrar-se a favor dos manifestos pela democracia de Hong Kong. Esta é a situação polémica mais recente em que a marca da maçã está envolvida

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Francisco JM Garcia

A Apple anunciou já ter removido a HKmap.live da App Store chinesa após o choque de forças com o governo de Pequim. A app permitia que os manifestantes de Hong Kong conseguissem localizar todos os focos de ação policial ou manifestações na cidade em tempo real através dos seus telemóveis, o que levou o governo chinês a acusar a gigante tecnológica de estar a ser permissiva para com as manifestações ao permitir que esta fosse descarregada a partir da loja oficial. Neste momento os utilizadores ainda podem aceder a esta ferramenta na sua versão para web.

A política da Apple relativamente às manifestações pela democracia em Hong Kong tem tido algumas oscilações. Se por um lado, no início do mês a empresa tinha decidido que a HKmap.live ia ser removida da App Store, por outro, a marca permitiu que a aplicação fosse descarregada até aos desenvolvimentos mais recentes. Tendo reagido às acusações da imprensa chinesa, o acesso foi vedado e neste momento os utilizadores de iOS só podem aceder a esta ferramenta na sua versão para web.

No comunicado de imprensa sobre esta matéria a "marca da maçã" diz o seguinte: «criamos a App Store tendo em vista que fosse uma ferramenta segura e de confiança para descobrir apps. Descobrimos que a Hkmap.live tem sido usada para fins que põem em perigo as autoridades e os residentes de Hong Kong. Vários utilizadores preocupados entraram em contacto connosco e começamos a investigá-la. A aplicação revela a localização das intervenções policiais e verificamos junto da autoridade de cibersegurança de Hong Kong que esta tem sido usada contra a polícia (…) esta app viola o nosso guia de funcionamento e as leis locais e, assim, tivemos de removê-la da App Store.

Já a empresa responsável pela HKmap respondeu afirmando «nunca ter solicitado, promovido ou encorajado quaisquer atividades criminosas. A app agrega informação de utilizadores e de fontes públicas, por exemplo, notícias, Facebook e Telegram.»

De acordo com a publicação The Verge, além de a Apple não ter especificado quais as «leis locais» que foram violadas – o que pode tornar as ações da empresa de alguma forma pouco justificadas –, continuam disponíveis na App Store aplicações como a Waze, que permitem localizar onde se encontram a grande maioria das ações policiais na cidade.

Mas a marca da Cupertino não ficou por aqui. Segundo a The Verge, recentemente, a Apple removeu também da App Store chinesa a aplicação para smartphone da Quartz, após o governo chinês ter-se manifestado contra a cobertura que organização noticiosa tem feito dos protestos que têm decorrido na Ilha Formosa.

A Quartz afirma que as autoridades chinesas vedaram também por completo o acesso ao website da publicação no país inteiro e que a Apple contactou a publicação dizendo que a aplicação «continha conteúdos considerados ilegais na China».

Em declarações à The Verge, Zach Seward, que assumiu recentemente a posição de diretor-executivo da Quartz, contou que «detesta este tipo de censura na Internet por parte de governos», urgindo à utilização de sistemas de VPN para que os utilizadores possam aceder livremente a informação vinda de fora da China.

No que toca a situações polémicas a Apple não fica por aqui. Recorde-se que com o lançamento da versão 13.1.1. do iOS no final de setembro, a marca removeu a bandeira do Taiwan no teclado emoji dos utilizadores de iPhone nas regiões de Macau e Hong Kong. Ainda, impediu a divulgação de alguns artistas hongueconguenses na versão chinesa da Apple Music e removeu várias apps de VPN da App Store chinesa.

Indústria dos videojogos também no impasse

Recorde-se que a Blizzard, a empresa mais conhecida por títulos como Diablo, Hearthstone e World of Warcraft, também se envolveu numa polémica por ter expulsado um jogador profissional de Hearthstone apoiante das manifestações de Hong Kong.

O jogador que dá pelo alter ego de “Blitzchung” foi proibido de participar em torneios organizados pela Blizzard durante o período um ano, uma vez que a empresa alega que o jogador violou a secção do regulamento que proíbe os jogadores de fazer ou dizer alguma coisa que «ofenda uma parte ou grupo do público».

No vídeo original da competição podia-se ver “Blitzchung” a gritar pela libertação de Hong Kong em mandarim. De acordo com a tradução da Inven Global, o jogador disse as seguintes palavras enquanto elevava uma máscara de gás: «Libertem Hong Kong, a revolução da nossa era!».

Mais tarde o jogador veio justificar-se dizendo que o «apelo no stream foi apenas mais uma forma de participação nos protestos que quero que mereçam mais atenção» alegando saber o impacto que a sua ação teve. «Sei o que minha ação no stream significa. Poderá causar-me muitos apuros, mesmo na minha segurança na vida real. Mas julgo ser o meu dever dizer algo sobre o assunto», rematou.

As reações nas redes sociais multiplicaram-se e vários utilizadores da Reddit e da Twitter publicaram imagens de Mei, a personagem chinesa do shooter Overwatch da Blizzard, apoiando as manifestações e dando a cara pela causa. Em tom de provocação e crítica às grandes empresas foi publicado um vídeo (que pode ver abaixo) com imagens oficiais do jogo, editadas para parecer que Mei é a nova porta-voz da democracia em Hong Kong

Segundo a The Verge as reações confirmaram-se na realidade, uma vez que esta terça-feira vários empregados da empresa vieram para as portas da sede da produtora de videojogos, na Califórnia, para protestar contra a decisão de banir e proibir “Blitzchung” de competir em Hearthstone, a modalidade de ESports em que é profissional.

Ao contrário da Blizzard, a Epic Games, produtora do battle royale mais conhecido da atualidade, Fortnite, afirmou publicamente que não vai banir e/ou penalizar jogadores que abordem matérias políticas. No comunicado a empresa afirma que «apoia o direito de todos poderem expressar os seus direitos políticos e humanos. Não iríamos banir ou punir um jogador de Fortnite por abordar estes tópicos.»

Quando até a NBA vacila

Segundo a CBSSports, a situação aconteceu algumas semanas antes do arranque da temporada 2019-20 da liga de basquetebol norte-americana e envolveu o diretor-geral dos Houston Rockets, Daryl Morey.

De acordo com o canal desportivo, tudo começou quando o diretor da equipa fez uma publicação na sua página oficial de Twitter em que se mostrava a favor das manifestações de Hong Kong, dizendo: «Lutem pela liberdade. Apoiem Hong Kong».

Como era de esperar, a situação não foi bem recebida pelas autoridades chinesas, rapidamente envolveu mais partidos na situação (por exemplo: Adam Silver, o atual comissário da NBA) e as repercussões foram sentidas tanto a nível da equipa como na liga.

Por um lado, o consulado chinês em Houston fez um comunicado de imprensa no qual se mostrou «fortemente insatisfeito» com o tweet de Daryl Morey, pondo em causa as intenções da equipa. Por outro, vários grandes patrocinadores ameaçaram cortar relações com a equipa e com a liga, ficando em causa o apoio de marcas de equipamento desportivo, negócios com parceiros digitais, direitos de transmissão dos jogos na China, entre outras.

Dois dias depois da publicação ser feita, a liga lamentou a situação afirmando «ter um grande respeito pela história e cultura da China» e mais tarde Daryl Morey fez uma nova publicação pedindo desculpa em nome dos Houston Rockets, dizendo que estava «apenas a dar voz a um dos seus pensamentos» sobre os manifestos.

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