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Pokémon Go: a Realidade Aumentada estava a precisar disto

A Realidade Aumentada está nas mãos de milhões de utilizadores. Um empurrão precioso vindo de uma fonte improvável: um jogo com mais de 20 anos.

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Os mais entusiastas desta “coisa da Tecnologia” (onde orgulhosamente me incluo) passaram a última semana a espalhar aos ventos a boa nova. Finalmente há uma utilização para a Realidade Aumentada que vai agradar ao consumidor final. Chama-se Pokémon Go e deu à Nintendo, a empresa japonesa que há duas décadas capitaliza o jogo e todas as suas declinações, razões para voltar a sorrir depois de um período mais complicado onde as vendas de consolas baixaram consideravelmente.

O meu colega Lourenço Medeiros explicou no Expresso Diário a semana passada o que é este jogo e as suas consequências imediatas.

E confirmei, este fim de semana, que o fenómeno Pokémon Go se mantém firme e com momentos caricatos, como a loucura coletiva em Nova Iorque para apanhar um Pokémon “raro”.

São boas notícias (por estranho que possa parecer) para uma tecnologia que já se mostrou várias vezes em apps para smartphone, mas que continua longe de atingir o seu verdadeiro potencial.

Para perceber. A Realidade Aumentada (RA) é o nome que se dá à tecnologia que sobrepõe informação contextual sobre imagem real. Para visualizar rapidamente um exemplo. Coloca-se uns óculos e, nas lentes, aparecem elementos que ajudam a interagir com o que se está a ver. É assim que alguém sem formação técnica vai conseguir consertar uma máquina sabendo, exatamente, onde tem de mexer e o que fazer. Num hospital, esta tecnologia permite ao cirurgião ver uma animação de qual a área de um órgão que deve ser intervencionado. Ou, entre centenas de outros exemplos, é assim que a app Rewind Cities permite apontar o telefone para o Terreiro do Paço e ver como era esta imponente praça em 1880 por altura das comemorações do III centenário da morte de Camões.

A RA tem um potencial incrível e já é utilizada em ambiente profissional. Fábricas, laboratórios, hospitais, gabinetes de arquitetura… são cenários, entre outros, onde se ganha tempo e dinheiro com a utilização desta tecnologia.

A Google tentou e falhou

A Google começou a olhar para esta tecnologia em 2006 e foi desenvolvendo o ecossistema até arriscar, em 2013, o lançamento dos Glass – os óculos de RA que, naquele ano, estavam disponíveis apenas a programadores. No ano seguinte, alguns norte-americanos deram 1500 dólares (cerca de 1300 euros) para ter o privilégio de serem os primeiros a ter uns óculos destes que, entre outras coisas, gravavam, para o telefone vídeos feitos pela pequena câmara incorporada no dispositivo.

Estes geeks perceberam rapidamente que, mais uma vez, era cedo demais para usar uma tecnologia embrionária. As aplicações para os Glass eram escassas, mas o pior nem foi ter percebido que o investimento tinha sido exagerado. O pior foram das queixas de invasão de privacidade que acabaram, até, em cenas de pugilato em bares.

A Microsoft aprendeu com este exemplo e quando mostrou os seus Hololens destinou-os, até ver, à comunidade profissional. Esta é a tecnologia de Realidade Aumentada mais avançada do mercado – pelo menos daquelas que são conhecidas publicamente. Experimentei-a o ano passado e é impressionante. A qualidade dos hologramas é assustadora e as formas de interação também. Acredito, piamente, que o futuro da interação com o mundo que nos rodeia (e com os que nos rodeiam) passa por aqui.

Fazer uma chamada em vídeo onde a outra pessoa é um holograma; interagir com um assistente digital que só existe quando visto sobre as lentes dos óculos; entrar num edifício em obras e conseguir ver por baixo do cimento das paredes as canalizações; desenhar um carro e vê-lo em cima da secretária em todos os ângulos; poder jogar vendo os elementos do jogo a materializarem-se na nossa sala de estar; enfim, os exemplos são infindáveis. No entanto, apesar de encher páginas de comentários nas redes sociais, a tecnologia da Microsoft está ainda muito direcionada para o segmento profissional.

Faltava à RA o passaporte para o grande público. Para o utilizador final.

A democratização da RA

Pokémon Go tem o condão de colocar muitas pessoas a mexer. Literalmente. É preciso ir à procura dos bichinhos. Mas faz mais. Coloca a Realidade Aumentada nas mãos de milhares de pessoas. Pequenos e graúdos percebem, finalmente, que a câmara que está no telefone serve para muito mais que tirar selfies.

Está aberta uma porta para futuras aplicações que queiram explorar o potencial da Realidade Aumentada. O mês passado estive em São Francisco a ver o primeiro telefone a chegar ao mercado com suporte para a tecnologia Tango, da Google. Com a câmara do Phab 2 Pro, da Lenovo, é possível tirar as medidas a um objeto ou, entre inúmeros exemplos, ver aparecer dinossáurios em cima da mesa de estudo. Funcionalidades que poderiam parecer estranhas a muitos vão ser, agora, muito mais fáceis de perceber por aqueles que tenham andado à procura de Pokémons com o telefone.

Há, assim, para a Realidade Aumentada, um momento antes e um momento depois do Pokémon Go. A Nintendo, provavelmente sem o saber, acaba de dar o maior empurrão à massificação desta tecnologia.

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