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Tesla volta a “esticar-se”

A Tesla anunciou que todos os novos carros da marca vão incluir hardware que vai permitir condução totalmente autónoma. Mas este é um anúncio sério ou uma manobra de marketing para investidores?

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É mais um momento de Elon Musk que está a dar que falar. A Tesla passou a equipar todos os carros que produz com tecnologia que, segundo a marca, vai permitir automatizar por completo a condução. Não estamos a falar de modos de assistência, como o Autopilot da mesma marca, que permitem, em determinadas condições, substituir o condutor. Elon Musk prometeu a condução totalmente autónoma, capaz de levar o carro de um lugar de estacionamento a outro ponto qualquer. E há até um vídeo impressionante a demonstrar isso mesmo.

Que não haja dúvidas. A Tesla é uma das marcas automóveis tecnologicamente mais evoluídas. É provável mesmo que seja a marca automóvel mais bem preparada para a nova geração de carros elétricos, autónomos e conectados. Mas é também uma marca que precisa de convencer constantemente o mercado e, não menos importante, os investidores que está, de facto, na “crista da onda”. Apesar de ter anunciado recentemente lucros operacionais, a Tesla precisa de muito investimento para continuar ativa. É ainda uma empresa que, no global gasta mais dinheiro do que aquele que gera. Elon Musk tem habilmente recorrido ao carisma que conquistou para fazer marketing sem ter de investir um cêntimo em publicidade e continuar a atrair os milhões de dólares de que precisa.

Já antes defendi que o sistema de apoio à condução da Tesla não devia ter sido chamado Autopilot porque não o é na realidade e até pode, literalmente, conduzir a acidentes devido a falsas expetativas sobre as reais capacidades do sistema. As autoridades alemãs parecem estar de acordo com esta ideia já que anunciaram que a Tesla não deve usar o termo Autopilot para designar um sistema que, na realidade, é de apoio à condução. Agora há mais uma promessa exagerada.

E é sob este ponto de vista que devemos analisar o anúncio do carro autónomo. Basta ler os comentários às notícias sobre este anúncio e o que se tem escrito nos fóruns para perceber que muitos futuros clientes Tesla estão convencidos que vão comprar um carro autónomo. Mas será mesmo assim? Provavelmente, não. Há até um risco de a tecnologia agora apresentada ser insuficiente para cumprir com a futura legislação que irá regular a condução autónoma. Ou que a regulamentação demore anos a ser desenvolvida e aprovada. Mais anos que aqueles que os Tesla agora adquiridos vão durar. É que, por mais brilhante que seja Elon Musk, ninguém ainda sabe muito bem como as autoridades vão decidir sobre este tema. Há muitas incógnitas. Há muitos testes que têm de ser feitos. Aliás, outras marcas estão num estágio similar de desenvolvimento da condução autónoma. Umas semanas antes, a Volvo tinha anunciado o início de um projeto piloto em que famílias vão usar carros da marca para testar a condução autónoma. Curiosamente, tanto a Volvo como a Tesla utilizam o mesmo hardware, que é produzido pela Nvidia. Sim, neste campo a Tesla por enquanto não fez muito mais que comprar tecnologia e colocá-la nos carros. Hardware que qualquer marca pode comprar.

Acredito que a indústria automóvel está em vias de passar por uma das maiores transformações da história e que a Tesla poderá ser a marca que vai liderar esta revolução. Os carros vão ser cada vez mais conectados, “mais” elétricos e vão acabar por assumir a condução. Mas até por razões de valorização a longo prazo da marca, era importante que a Tesla assumisse uma posição mais realista e não prometesse o que não sabe se consegue cumprir. Esta atitude pode sair muito cara à marca quando deixar de vender carros para fãs e começar a vender carros para o grande mercado, para utilizadores que não estão tão dispostos a perdoar os exageros de Musk. Mas, por outro lado, Elon Musk gosta sempre de apontar para o impossível. E não é assim que se cria a verdadeira inovação?

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