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Carregamento na Mobi.e: ligaram o “complicómetro”

A forma de cálculo e a variabilidade dos preços não são boas notícias. A opinião de Sérgio Magno

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Depois de vários adiamentos, eis que já sabemos, pelo menos em parte, quando vai custar carregar veículos elétricos nos Postos de Carregamento Rápido (PCRs) da rede pública Mobi.e – os postos de carregamento ditos normais e semirrápidos vão continuar gratuitos até nova informação. Há boas e más notícias.

As boas, ou pelo menos razoavelmente boas, são os valores. Claro que para quem estava habituado a “zero”, qualquer aumento pode parecer muito. Mas, se formos realistas nos cálculos e considerando tudo o que está a montante, um valor algures entre os €3 e os €10 aos 100 km para um carro do segmento médio (cálculo feito através das tarifas dos operadores que já apresentaram valores) não é exagerado e mantém, regra geral, o custo energético dos veículos elétricos abaixo dos equivalentes a combustão interna (gasolina e gasóleo). Ainda a este respeito, é importante sublinhar que os PCRs são, à partida, para utilização esporádica e/ou em viagens mais longas porque a ideia basilar dos veículos elétricos é carregar durante a noite ou enquanto se trabalha. Até por razões de gestão das redes elétricas (os PCRs exigem potências muito elevadas). Seria bom que os carregamentos rápidos tivessem, como prometido em tempos pelo atual ministro do Ambiente, um preço mais baixo, de modo a diferenciar positivamente os elétricos dos veículos com motor térmico? Sim, seria, mas para isso teriam de existir alterações ao nível da regulamentação e taxas. Considerando a nossa realidade, os preços acabam por ser aceitáveis e até um pouco abaixo de algumas previsões.

As más notícias são a forma de cálculo e inacreditável variabilidade dos valores. Como noticiámos pormenorizadamente no site da Exame Informática, há sete parcelas a somar para se obter o valor final. Também não será por aqui que ficaríamos surpreendidos porque estamos todos habituados às taxas que surgem, por exemplo, nas faturas da energia ou do saneamento. Os preços da gasolina ou gasóleo publicados nas bombas também incluem uma série de taxas, mas sabemos facilmente quanto vamos pagar.

Portanto, apesar das parcelas envolvidas no cálculo, seria possível apresentar um valor total simples de perceber como é, aliás, hábito em outras redes de carregamento disponíveis pela Europa fora. Mas não. Além da expectável, mas exagerada, variedade dos preços de quem fornece a energia, denominado CEME (Comercializadores de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica), há que contar com o custo de operação nos postos (OPC – Operadores de Postos de Carregamento), que é muito variável. E é este valor que, por não estar à partida contratado (os utilizadores têm contrato com os CEME, não com os OPC), cria uma situação que até se pode considerada pouco transparente porque pode levar os utilizadores a consumirem um bem sem saberem, à partida, quanto vão pagar – imaginem a confusão que este sistema vai gerar nos turistas que nos visitam cada vez mais.

Fazendo um paralelismo com as bombas de combustível, é como se o condutor/utilizador estabelecesse um contrato com o fornecedor da gasolina, que determinava o preço ao litro (variável em função da hora e dia), mas depois tivesse que pagar um extra, também variável, de acordo com a bomba de combustível utilizada. Independentemente das justificações técnicas para este sistema de cálculo, o que os responsáveis da Mobi.e e operadores deviam perceber é que as pessoas não lidam bem com este tipo de complexidade. Nem é preciso ser especialista de marketing para conhecer a regra Keep It Simple, Stupid (KISS). Independentemente dos descontos, das tarifas variáveis, das taxas e dos contratos com os CEME, era importante ter valores de referência e menos variáveis publicados nos PCRs. Nem que fossem mais altos. Sem obrigatoriedade de cartões ou contratos. Seria, no mínimo, de esperar que o regulamento exigisse a apresentação do total a pagar no posto, um género de contador como estamos habituados a ver nas bombas de combustível.

Ou seja, manter-se-iam as vantagens do contrato com os CEME, mas dar-se-ia a oportunidade de pagar na hora a um valor evidente e facilmente comparável. A este respeito, é interessante verificar que a Mobi.e considera o sistema de cartões avançado, mas, por outro lado, não permite o pagamento local e direto com sistemas como o Multibanco. Mais grave, os responsáveis parecem não perceber que, deste modo, estão a dar armas a quem, por ignorância ou interesse, desdenha continuamente a mobilidade elétrica.