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Bankers killed the MB Way star

A decisão dos bancos passarem a cobrar pela utilização do MB Way em análise. A opinião de Hugo Séneca

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Depois do BPI, o Millennium BCP. E depois do BCP, que banco se segue no anúncio de cobrar 1,2 euros (acrescidos de imposto de selo) pelas transferências bancárias efetuadas com o MB Way?

Ou muito me engano ou o mercado ainda é uma sucessão de cópias e contracópias e já não deverá demorar a responder à questão com mais um banco… a anunciar que vai cobrar 1,2 euros pelas transferências efetuadas no MB Way. Só porque sim; só porque se um consumidor está disposto a pagar no BPI, por que é que não há de pagar também no BCP… ou em qualquer outro banco concorrente?

Repito: ou muito me engano, ou também vai acontecer a todos os outros bancos – e sim, até na Caixa Geral de Depósitos, que é do Estado e já mereceu planos de recapitalização pagos pelos contribuintes portugueses, é bem provável que isso venha a acontecer – mesmo que signifique desperdiçar um trunfo comercial para desviar clientes da concorrência que fazem a questão de usar a app MB Way.

Claro que estas palavras mais não são que um pressentimento daqueles que costuma dar aos gatos já que tiveram o azar de tomar banho… Se bem que admita que o exemplo do gato escaldado até possa não ser o mais feliz: tendo em conta o número de intervenções estatais registadas nos últimos anos (tradução de «intervenção estatal»: o Estado paga o que falta na tesouraria e que os gestores dos bancos gastaram ou perderam), sou levado a crer que alguns bancos e banqueiros têm mais vidas que aquelas que costumam ser atribuídas aos felinos.

A esta hora é bem possível que um daqueles senhores que costumam aparecer na TV a falar sobre os malefícios da concorrência do Estado, mas que curiosamente emudecem sempre que recebem recapitalizações, injeções e até condecorações esteja a preparar-se para me tratar pelo petit-nom de ladrão de bancos ou que até me pinte de uma cor política que não é a minha, mas confesso que, apesar do mau feitio, já não dou resposta a toda parvoíce que vou ouvindo. Pelo que a minha curiosidade incide mais no seguinte: como é que os bancos, especialmente os que foram intervencionados, vão explicar aos clientes-contribuintes que agora vão passar a pagar 1,2 euros sempre que querem mandar 10 euros para os filhos pelo MB Way?

Ou muito me engano – e quero acreditar que os meus enganos estão em consonância com a média da humanidade – mas desta vez, os bancos não estão dispostos a repetir o deslumbramento dos anos 1980. Hoje, nenhum dos bancos tradicionais se pode dar ao luxo de não integrar a SIBS, ou de não ter uma relação de proximidade com a denominada Sociedade Interbancários de Serviços, SA, porque isso, eventualmente, poderia dificultar o acesso a um dos principais pilares da banca nacional: o Multibanco.

Sem Multibanco, não há banco que resista em Portugal – a menos que seja um daqueles bancos especializados em fundos e bolsa ou então tenha uma forte presença na Internet, devidamente artilhada com ferramentas e funcionalidades expeditas. Ora, o MB Way mais não é que a possibilidade de levar para a Internet tudo aquilo que o Multibanco só permite nas Caixas ATM. Com duas vantagens, face a qualquer concorrente que entre no mercado: tem quase todos os serviços que os portugueses se habituaram a ter nas caixas de Multibanco; e tem uma imagem de segurança e conveniência que muitos gigantes internacionais dos pagamentos eletrónicos possivelmente nunca terão.

É verdade que já há bancos que cobram pelas transferências de dinheiro efetuadas nas caixas de Multibanco, mas esse custo não impediu a SIBS de lucrar mais de nove milhões de euros em 2017 – mesmo sem decidir o que é cobrado por cada banco nas ditas transferências. Por outro lado, tendo em conta que as mesmas comunicações que são usadas para processar levantamentos de dinheiro ou pagamentos de serviço a privados ou ao Estado são gratuitas (devido a um decreto-lei, porque se dependesse dos bancos já se pagava, não haja quaisquer dúvidas) e, mesmo assim, nunca puseram em risco os lucros da SIBS, apesar dos custos inerentes ao parque de caixas Multibanco disperso pelo país, tenho de perguntar: como é que o BPI e o BCP chegaram à “módica” quantia de 1,2 euros por transferência no MB Way?

Tenho de fazer mais uma confissão: mais que curiosidade, a questão instiga-me receio. Se o BPI e o BCP acham razoável cobrar uma taxa de 1,2 euros (acrescidos de imposto de selo, importa não esquecer) por cada transferência no MB Way que corre sobre a Internet, então passo a temer que a Altice, a Nos, a Vodafone ou até a Nowo, que lidam com tráfegos de dados bastante mais elevados, que vão muito para lá da típica notificação «desconta 20 euros na conta x do banco y e depois credita 20 euros na conta z do banco w», adotem o mesmo modelo de tarifário. Dito por outras palavras e sem ironia: não acredito que os preços propostos por BPI e BCP tenham uma relação direta com os custos do serviço prestado através do MB Way. Recorro a uma terceira frase para que não restem mesmo dúvidas sobre aquilo de que estou a falar: ou o BPI e o BCP querem fazer dinheiro à custa de um serviço que já superou 1,25 milhões de utilizadores e é, sem margem para dúvidas, a única iniciativa feliz e com benefícios reais para a sociedade portuguesa que a banca produziu nos últimos 10 anos, ou então o cerco está a ser montado, para esvaziar parte ou a totalidade do MB Way.

O facto de ser 1,2 euros e não 0,12 cêntimos ou 1,2 cêntimos já dá que pensar, mas o que é mais curioso é que a decisão de cobrar pelas transferências no MB Way surge numa altura em que uma marca como a Revolut, que permite transferências de dinheiro eletrónico sem custos, começa a entrar no mercado. E depois destas, muitas outras virão. Se o Casablanca fosse rodado nos dias de hoje, seria motivo para dizer que «we will always have Visa». Ou Mastercard. Ou até Apple Pay ou Google Pay. Ou qualquer banco estrangeiro que, com os novos regulamentos europeus, pode operar em Portugal, por via eletrónica, tendo um único escritório que tanto pode estar na Lituânia como em Malta.

O MB Way permite que todos os clientes dos bancos nacionais evoluam para uma nova geração do dinheiro eletrónico – a geração da desmaterialização em mobilidade. A simples possibilidade de rachar a conta de restaurante entre amigos através de uma app é todo um hino de conveniência – mas até poderá ser a coisa mais simples em toda a nova gama de ferramentas, serviços ou produtos que haverão de surgir. Em resumo: as funcionalidades do MB Way seguem as melhores práticas já apontadas por vários estudos internacionais sobre o futuro do dinheiro eletrónico e podem funcionar como um salto qualitativo para a economia nacional. Cobrar uma taxa de 1,2 euros por transferência é matar esse potencial de inovação no MB Way para o dar de bandeja a quem o souber explorar – que provavelmente será um gigante desses que por aí andam, ou até uma startup financiada por outros tubarões que também por aí andam.

Não consigo perceber o racional – mas como se trata da banca, já sei que, no final, serei eu, entre muitos contribuintes, a pagar. No fundo, começo a admitir que estou sempre enganado, mas não sei, e que quem realmente tem razão é Marc Bayle de Jessé, diretor-geral de pagamentos e infraestruturas de mercados do Banco Central Europeu, que há quase um ano, veio a Portugal apontar o dedo em público à SIBS, por ter criado o MB Way, que é um sucesso e foi escolhido pelos portugueses (imagino que fazendo uso da liberdade que lhes é concedida num país democrático e de economia livre), como uma solução que depende dos cartões bancários, que se destina apenas ao mercado nacional – e não é uma «solução pan-europeia» (só faltou Jessé dizer: «como a Visa ou a Mastercard ou o Deutsche Bank, ou o Santander ou qualquer outro gigante bancário internacional que pertence ao restrito clube dos potentados tecnológicos e financeiros com capacidade de criar logo no arranque uma solução pan-europeia»).

Também nunca percebi por que é que a padaria aqui do bairro, a startup que está a dar os primeiros passos no UPTEC ou no Taguspark, ou até a malograda Dona Branca, a banqueira do povo que também não dependia de qualquer cartão bancário, nunca se abalançaram a lançar logo nos primeiros dias de negócio uma cadeia de franchising capaz de ligar as estradas de Lisboa a Riga, mas infelizmente ninguém dos gabinetes da Comissão Europeia se dignou a explicar-me por que é que o futuro da banca tem de ser restringido ao uso de tecnologias e standards predeterminados que facilitam a vida aos grandes gigantes que já dominam o mercado. Em contrapartida, não falta que me queira cobrar 1,2 euros por cada transferência no MB Way.

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