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Consideramos realmente todas as implicações de partilhar dados em serviços online? A dicotomia comodidade versus segurança no mundo digital em análise. A opinião de Sérgio Magno

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A detenção de Assange em Londres traz novamente para a ordem do dia todas as questões relacionadas com a privacidade dos dados levantadas pelo o fundador da WikiLeaks. Apesar de tudo o que aconteceu desde as primeiras revelações de Julian Assange há mais de dez anos, incluindo o escândalo do Facebook, o que realmente mudou? Não apenas no que concerne às grandes empresas de tecnologia, mas também no que diz respeito às nossas atitudes enquanto utilizadores de serviços digitais? Estamos, realmente, mais cuidadosos? Seguimos as melhores práticas no que concerne à segurança? Consideramos realmente todas as implicações de partilhar dados em serviços online? Não me parece.

Um exemplo: o que diria se, durante as compras num supermercado, um funcionário lhe pedisse para usar um colar para registar todos os seus movimentos e transmitir essa informação para os gestores do supermercado? Certamente não acederia ao pedido. Mas todos os dias aceitamos que sites e serviços online, com destaque para as redes sociais, nos mantenham “debaixo de olho”. Obviamente que há aspetos positivos nesta partilha de informação, a começar pela personalização dos serviços – manter o carrinho de compras entre sessões numa loja online, por exemplo. Mas o problema é que, muito devido a este comodismo, acabamos por aceitar no mundo virtual o que dificilmente aceitaríamos num mundo real.

Outro exemplo: certamente que não deixaria numa loja física o seu cartão de crédito só porque isso facilitaria outras compras se lá voltasse. Mas é provável que use o browser para memorizar o seu nome de utilizador e palavra-passe de serviços a que acede com regularidade. Mais, continuamos, despreocupadamente, a usar uma série de serviços gratuitos sem pensarmos muito nas razões que permitem que plataformas que custam milhares de milhões possam ser utilizadas sem custos para os utilizadores.

“Se não pagamos por um produto é porque somos o produto”, uma frase muito conhecida dos profissionais do marketing, nunca foi tão verdade. Há uma ligação difícil de quebrar entre os interesses dos gigantes da Internet, como a Google e o Facebook, e o valor dos nossos dados para as empresas que anunciam nestas plataformas. O que significa que, por mais boas intenções que sejam declaradas, a verdade é que Google e Facebook, entre outros, têm muito a ganhar se conseguirem recolher o máximo de dados sobre nós, os utilizadores, para que possam processá-los de modo a trazer mais-valias para os anunciantes. É óbvio que, por exemplo, uma empresa que vende produtos anticalvice vai querer chegar a utilizadores das redes sociais que têm queda de cabelo. E todos nós já passamos pela experiência de ver anúncios sobre produtos relacionados com pesquisas que tínhamos feito anteriormente.

Não há como negar: o grátis tem um preço e pode ser bem caro. Até podemos, por uma outra razão, aceitarmos este preço, mas quando abrimos a porta, deixamos de controlar o que vai entrar. A concentração de quantidades esmagadores de informação sobre tanta gente não é, de todo, um aspeto positivo da era digital. A tendência para se concentrar informação que estava dispersa numa única base de dados é um convite à catástrofe. Como ficou demonstrado por Assange, por melhor que seja a tecnologia de segurança, os dados podem sempre cair nas mãos erradas.

Não há, de facto, segurança total. Nada nos garante que, como aconteceu com o Hotmail, tudo o que a Google ou o Facebook sabem por nós acabe por ir parar às mãos erradas. Nada! Pelo contrário, à medida que se aumentam as funcionalidades, se recolhe mais informação, se abrem mais canais de comunicação entre serviços, mais provável é que exista uma brecha. Não foi à toa que na última apresentação da Apple as palavras mais usadas foram privacidade e segurança. Nenhum dos serviços apresentados assenta na recolha de informação dos utilizadores para passar a terceiros. Isto porque, naturalmente, tratam-se de serviços pagos.

Mais cedo ou mais tarde, este modelo de negócio vai ter de mudar. Só resta saber se vamos sofrer muito ou pouco até percebermos, de verdade, “que não há almoços grátis”.

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