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Apple: plantar hoje para colher amanhã

«Tim Cook sabe bem que não é boa política ter tanta dependência de um produto e sabe que dificilmente o mercado dos smartphones voltará ao crescimento rápido de há anos». A opinião de Sérgio Magno, diretor da Exame Informática

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A apresentação da Apple teve como cabeça de cartaz o novo iPhone. Nem poderia ser de outro modo considerando que este aparelho continua a ser a “mina de ouro” da empresa. Basta observarmos os resultados financeiros do segundo trimestre deste ano, os mais recentes que se conhecem: dos 58 mil milhões de dólares de faturação, mais de 31 mil milhões foram gerados pelo iPhone. Por comparação, o iPad e o Mac valeram, respetivamente, cerca de 4,9 e 5,5 mil milhões de dólares. Sim, a segunda maior empresa do mundo em valor de mercado – neste momento a Microsoft está em primeiro lugar – tem mais de 50% dos resultados dependentes de um único produto. Ainda por cima um produto cujas vendas deixaram de crescer.
Tim Cook sabe bem que não é boa política ter tanta dependência de um produto e sabe que dificilmente o mercado dos smartphones voltará ao crescimento rápido de há anos. E Cook também sabe que a política de compensar a estagnação das vendas com o aumento do preço médio tem limites, que, porventura, já foram atingidos. Ainda mais quando se tem notado, de forma evidente, que a concorrência vinda da Coreia do Sul e, sobretudo, da China está muito agressiva, conseguindo não só competir em preço como em inovação. A este respeito, e como se antecipava, o iPhone 11 não trouxe nada que deixasse os utilizadores particularmente impressionados. Tendências como ecrãs dobráveis, 5G ou integração do sensor de impressões digitas no ecrã passaram ao lado. Por mais bloqueios que Trump imponha, a inovação nos smartphones e redes mudou-se para o oriente.
E, por tudo isto, o líder da Apple tem chamado a atenção para o bom desempenho da empresa nos serviços, como o Apple Music e o iCloud, que já são a segunda maior fonte de receita da empresa (cerca de 11 mil milhões no segundo trimestre de 2019). Ainda assim pouco para compensar a previsível queda do iPhone. A solução previsível foi entrar em novos mercados de serviços, com destaque paro o Apple Arcade (jogos) e Apple TV+ (streaming de conteúdos televisivos). Apostas fortes em conteúdos exclusivos, o que permite à Apple não ter problemas com direitos e avançar rapidamente para uma grande cobertura geográfica. Por exemplo, Portugal será um dos muitos países onde estes dois serviços vão estar disponíveis desde o lançamento (Arcade a 19 de setembro e TV+ em 1 de novembro). Veja-se, por comparação, quanto tempo o Netflix ou a HBO demoraram a chegar ao nosso país e como estavam inicialmente limitados no que a conteúdos diz respeito.
A força da aposta é ainda visível nos preços anunciados: €4,99/mês para ambos os serviços (preços para Portugal). Ainda mais porque se trata de uma assinatura “familiar”, com acesso até cinco utilizadores. Claro que real valor da proposta vai depender da qualidade dos conteúdos disponíveis, já que, considerando que se trata da Apple, a qualidade da experiência de utilização deverá ser garantida. Mas mesmo que os conteúdos sejam algo limitados inicialmente, é fácil concluir-se que o preço é muito apelativo. Por €4,99 nem se consegue ir uma vez ao cinema nem comprar um bom jogo. Depois, a “cereja em cima do bolo”: a Apple TV+ é gratuita durante um ano para quem comprar um novo iPhone, iPad, iPod Touch (sim, ainda existem), Mac ou Apple TV. Gratuita! Obviamente que esta arma não está disponível para Netflix ou HBO. A Apple vai, claramente, subsidiar os serviços para crescer rapidamente em utilizadores. Tim Cook quer anunciar tão rapidamente quando possível a liderança nestes segmentos. A verdade “nua e crua” é que nenhuma outra companhia tem a capacidade financeira e o ecossistema que permita este tipo de oferta. Veremos se a Apple não acabará por cair em processos antimonopolistas, mas que tem “tudo para dar certo”, tem.
Em suma: o grande lançamento da Apple foi o iPhone 11? Não. Foi o Apple Arcade e, sobretudo, o Apple TV+.

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