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A Bolsa não é só para unicórnios!

Richard Baker

«Um dos aspetos mais distintivos do financiamento no mercado de capitais é a liberdade que os investidores conferem à equipa de gestão. São investidores que não pretendem de modo algum interferir na gestão da empresa, mas antes confiam na equipa de gestão para prosseguir a sua visão e estratégia». A opinião de Filipa Franco, diretora de Admissão

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Filipa Franco

Filipa Franco

Diretora de Admissões em Bolsa da Euronext Portugal

Nos últimos anos, temos assistido ao surgimento de várias startups portuguesas que rapidamente se afirmaram como líderes mundiais nas suas áreas de atuação – Codacy, Farfetch, Feedzai, Outsystems, Unbabel. E outras são já apontadas como a próxima geração de startups nacionais a dar cartas no que diz respeito à sua capacidade de inovação.

Mas numa indústria em que a capacidade de inovar, e de inovar rapidamente, é decisiva para a afirmação das startups originando necessidades de capital recorrentes, em que momento podem e devem estas empresas e os seus empreendedores considerar uma entrada em bolsa? Numa fase inicial – em vez de optarem pelos tradicionais Venture Capital ou Private Equity – ou mais tarde, quando já alcançaram o estatuto de unicórnio – correndo no entanto o risco de os seus fundadores terem entretanto prescindido do controlo do negócio e da estratégia das empresas que criaram e talvez até da sua identidade, entretanto entregue aos investidores financeiros? Qual o caminho que estas empresas deverão prosseguir e como podem conciliar a angariação dos fundos necessários com a desejável preservação de controlo nos seus fundadores?

É certo que uma entrada em bolsa requer reunir uma série de requisitos, afinal os investidores de mercado são os mais exigentes e apenas as empresas mais bem preparadas poderão concluir com sucesso um uma admissão em Bolsa. Mas reuni-los pode estar ao alcance de mais empresas do que se julga.

Um dos aspetos mais distintivos do financiamento no mercado de capitais é a liberdade que os investidores conferem à equipa de gestão. São investidores que não pretendem de modo algum interferir na gestão da empresa, mas antes confiam na equipa de gestão para prosseguir a sua visão e estratégia, promovendo assim o crescimento da empresa e – em última análise – também a rentabilização do seu investimento. Optar por uma entrada em bolsa está por isso muitas vezes associada à confiança e ambição dos empreendedores.

Para atrair estes investidores é por isso essencial ganhar a sua confiança e isso requer apresentar uma equity story sólida e atrativa: demonstrar a vantagem competitiva em que assenta a diferenciação da empresa, a aceitação por parte do mercado (com uma carteira de clientes de reputação internacional ou de investidores-âncora), a oportunidade e capacidade de fazer crescer o negócio e apresentar uma equipa de gestão experiente que demonstre um sólido conhecimento do mercado e que seja suportada por um modelo de governance sólido.

Porque não vemos então mais empresas early-stage a entrar em bolsa? Por que razão os unicórnios têm de ir para a bolsa de Nova Iorque? Bem, na verdade, uma e outra ideia estão erradas.

Olhando apenas para a Euronext – a bolsa pan-Europeia líder no segmento de empresas tecnológicas com cerca de 480 empresas cotadas e 115 novas entradas desde 2015 – encontramos vários exemplos que demonstram (i) a capacidade de realizar transações entre €10M e €50M (e foram 25 empresas a fazê-lo desde 2017), mas também (ii) a possibilidade de realizar operações acima de €1bn e em menos de um ano triplicar o valor da empresa de €7bn para €20bn (foi o que fez a Adyen, a fintech holandesa, que detém uma posição de liderança mundial em sistemas de pagamentos).

E apesar de parecer algo bastante complexo, a verdade é que as empresas podem optar entre diferentes modalidades de admissão, colocação e mercados e assim encontrar o modelo que mais se adequa às suas necessidades, modelo de negócio, dimensão e ambição.

Podem por um lado optar entre uma admissão técnica (sem dispersão de capital), uma colocação particular (apenas dirigida a investidores institucionais de mercado), ou uma oferta pública (dirigida a investidores particulares); ou numa operação mista das últimas duas.

Podem também optar uma admissão no Euronext Access, o segmento de entrada no mercado de capitais, no Euronext Growth, o segmento desenhado para empresas de crescimento) ou no Euronext, o mercado regulamentado, onde estão cotadas as empresa com maior presença em bolsa e maior ambição – os três segmentos de mercado da Euronext, desenhados para assegurar o enquadramento adequado à dimensão e objetivos de cada empresa. E podem – e aliás devem – encarar a bolsa como uma oportunidade de desenvolvimento e assim ponderando uma entrada num dos mercados juniores, fazê-lo perspetivando a prazo transitar para o mercado regulamentado. Foi o que fez a Solutions 30, uma empresa francesa de telecomunicações que em 2005 concretizou a entrada em bolsa no Euronext Access com uma valorização de €4.5M e que hoje – enquanto líder Europeu no seu sector– está cotada no Euronext Growth com uma capitalização de €900M.

E existem ainda três outros benefícios de uma admissão à bolsa que não devem ser desvalorizados: (i) o reforço reputacional decorrente da capacidade de atrair o investimento de investidores que não têm um papel activo na gestão e que podendo desinvestir continuam a apostar nas empresas em que investem, com um impacto significativo no desenvolvimento do negócio (novos mercados, novas parcerias, novos clientes), (ii) a facilidade (em termos de prazo e de custo) de concretizar rondas adicionais de financiamento após a entrada em bolsa e (iii) a liquidez que concede aos seus acionistas para ajustarem as suas participações.

Claro que tudo isto requer esforço e investimento – em termos de comunicação com os investidores e que em certa medida é feita através da imprensa, de gestão da exposição mediática, da gestão de expectativas para com o mercado, do cumprimento de requisitos de legais e regulatórios. Mas esse é o preço da liberdade que o mercado oferece aos empreendedores que escolhem esta via de financiamento, crescimento e independência.

Nota: Desde 2003, a Bolsa de Valores Portuguesa faz parte do Grupo Euronext, líder enquanto Grupo pan-Europeu de Bolsas. A Euronext tem, atualmente, uma presença local em 6 países (Amesterdão, Bruxelas, Dublin, Lisboa, Oslo e Paris), partilhando uma única plataforma de negociação acedida por investidores de todo o mundo, facilitando o acesso às empresas a uma comunidade de investidores internacional, especializada e com capacidade financeira para apoiar as suas estratégias de financiamento e crescimento.

Consciente dos desafios que se colocam às empresas tecnológicas a Euronext tem vindo a desenvolver um conjunto de iniciativas especificamente dirigidas a empresas de base tecnológica, onde se destaca o TechShare (AQUI)– o programa pre-IPO de motivação, educação e capacitação especificamente desenhado e dirigido a empresas tecnológicas. Desde o lançamento do programa o TechShare conta com 280 alumni (25 portugueses), a que se juntaram este ano mais 130 participantes (onde se incluem 7 empresas Portuguesas).

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