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Os lesados da Google

«O Pixel, o smartphone que esta semana entrou na quarta geração, é provavelmente o gadget mais beneficiado de sempre em termos mediáticos: é vendido em pouquíssimos mercados e tem uma cobertura digna de um iPhone que vende em mais de 120 países logo na semana de lançamento», recorda Rui da Rocha Ferreira

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Google lança [introduzir gadget aqui], mas não vai estar disponível em Portugal». Há anos que vejo esta fórmula de título ser usada nos meios da especialidade e, cada vez mais, nos generalistas. Porquê? A resposta é simples: porque uma grande parte dos produtos de hardware que a gigante norte-americana anuncia, incluindo os gadgets de proa, simplesmente teimam em não chegar ao mercado português. Visitar a loja online da Google em Portugal é o equivalente a entrar num espaço em liquidação, vazio e sem graça: só estão disponíveis o periférico para televisores Chromecast (nem sequer é a versão Ultra, com suporte para 4K) e o sistema de rede wireless Google Wi-Fi. Basta ir à loja logo ao “lado”, a espanhola, e temos uma lista de produtos muito mais consistente: smartphone Pixel 4, coluna inteligente Nest Mini, ecrã inteligente Nest Hub, a coluna de som Google Home e até o muito antecipado serviço de streaming de videojogos Google Stadia. Se são lançados e distribuídos em Espanha, seria assim tão difícil alargar a distribuição aqui para o nosso lado, mesmo que fosse com a ajuda de um grande retalhista?
A questão que consumidores, jornalistas e bloguers têm feito ao longo dos anos é «porquê?». Sinto-me confortável para escrever este artigo, pois tive a oportunidade de fazer esta pergunta, olhos nos olhos, ao líder europeu da Google, há menos de um ano. «Adoraria que vendêssemos tudo o que fazemos em todos os países e obviamente que Portugal seria uma prioridade. (...) Mas não conseguimos passar de não fazer qualquer produto a vender centenas de milhões da noite para o dia. Infelizmente demora tempo. É bom que [os produtos] sejam populares e quero trazê-los para cá [Portugal] o mais rápido possível, mas demora tempo a aumentar a produção», disse Matt Brittin, patrão europeu da Google, em resposta.
A verdade é que não convenceu. Bem sei, de outras situações com outras grandes empresas, que muitas vezes a decisão não passa pela gestão local, mas sim pelo plano mestre que é desenhado lá longe nos EUA, onde um mercado de dez milhões de consumidores não deve ser visto como prioritário. Mas quando vemos a Apple a ser a terceira marca que mais smartphones vende em Portugal, a Microsoft a trazer para o mercado os seus computadores de cinco mil euros e a Samsung a disponibilizar os televisores 8K logo numa primeira leva, torna-se mais difícil perceber este “silêncio” da Google.
Esta é a minha opinião: o problema não está em Portugal, na dimensão do mercado ou na falta de pujança financeira que é uma realidade para milhões de portugueses, está na estratégia que a Google tem para o hardware. Por muito loucos, inovadores e tentadores que sejam os gadgets da empresa, simplesmente não vemos um esforço sério da Google para ser um “grande” no hardware: falta alcance, distribuição e vendas. O Pixel, o smartphone que esta semana entrou na quarta geração, é provavelmente o gadget mais beneficiado de sempre em termos mediáticos: é vendido em pouquíssimos mercados e tem uma cobertura digna de um iPhone que vende em mais de 120 países logo na semana de lançamento. Em 2018, estima-se que tenham sido vendidos 4,7 milhões de smartphones Pixel – iPhone foram mais de 205 milhões. O Pixel 4 até pode vir a ser considerado como o melhor smartphone da atualidade, mas se não chega às mãos das pessoas e faz a diferença no dia-a-dia delas, então parte do excelente trabalho, reconheço, que os engenheiros da Google fazem não está a ser totalmente aproveitado.
Ainda há esperança que a situação mude com o Pixel 4 – uma das novas tecnologias do equipamento foi dada como certificada em Portugal –, mas mesmo que esse lançamento venha a acontecer, a verdade é que não apaga os anos de “esquecimento” da Google relativamente ao nosso cantinho à beira mar plantado. Mais: tal como a Exame Informática avançou em primeira mão, o assistente digital da Google já fala português de Portugal, o que significa que um lançamento em escala está para breve e isso vai “obrigar” a marca a trazer para o mercado, pelo menos, os equipamento que foram criados em torno do Google Assistant. Até fica um conselho de negócio: despachem-se, pois a Alexa já fala brasileiro e a Amazon é muito agressiva quando quer entrar num mercado novo.
Queria deixar também aqui uma ideia bem clara: todo este queixume é relativo à parte de hardware da Google. Do lado dos serviços digitais, é inquestionável o papel e a influência que a Google tem nos consumidores e empresas em Portugal. Basta recordar que a tecnológica tem um impacto de 2,5 mil milhões de euros na economia portuguesa, o que é equivalente à criação de 70 mil postos de trabalho. Mais: a Google tem investido forte em Portugal e só empregos diretos já são mais de 1300. O que acaba por tornar a situação dos gadgets mais sentimental: sabemos que a Google tem Portugal em boa conta, portanto vender uns Pixelbook ou os Pixel Buds por cá seria apenas ouro sobre azul.
Enquanto tal não acontece, fica um sabor amargo na boca. Vou ficar aborrecido quando os espanhóis começarem a testar o Google Stadia e eu não. Sim, posso usar métodos “alternativos” para fazê-lo, mas não quero o Stadia só para mim, quero-o para todos os portugueses.
Acredito que existem por aí muitos conterrâneos que lá no fundo se sentem quase como parte de um grupo espiritual ao estilo “lesados da Google”, simplesmente porque gostavam que em Portugal as pessoas não ficassem privadas daqueles que são alguns dos melhores gadgets da atualidade.

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