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Já falta pouco para a sociedade sem dinheiro

«Como será uma sociedade sem dinheiro? Será construído em torno de um sistema bancário eletrónico e tecnologicamente móvel ou mesmo wearable? Ou será sem intermediários bancários, sem processadores e também sem dinheiro, como preveem os elementos da comunidade blockchain?» – a opinião de Jorge Baião, administrador da CA Serviços do Grupo Crédito Agrícola

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Jorge Baião

Jorge Baião

Administrador da CA Serviços do Grupo Crédito Agrícola

O mundo tem vindo a abraçar a revolução digital nos serviços financeiros, principalmente através de aplicações no telefone móvel ou no smartwatch, habilitadas para pagamentos, e que, passo a passo, vão apresentado condições para uma utilização cada vez menor de notas e moedas.

Tradicionalmente, muitos de nós carregamos trocos para pagar transações pequenas como, por exemplo, estacionar, comprar um chocolate ou um café, com o inconveniente de acumular trocos para estas transações e, na ausência destes, usar uma nota que vai gerar mais trocos que, grande parte das vezes, esquecemos numa pequena bolsa no carro ou em casa.

Esta pequena inconveniência leva-nos ao exemplo mais óbvio de como a tecnologia facilita a vida. É apenas uma questão de tempo antes que o uso de um sistema de pagamentos sem dinheiro físico acabe por completo com esta situação. Hoje em dia, o estacionamento é um bom exemplo. Além de ser possível pagar pelo estacionamento online em função do tempo necessário, podemos efetuar o carregamento remotamente.

A (r)evolução deste novo paradigma tem vindo a ser protagonizado, em grande parte, pelas fintechs, neo-banks e bancos mais avançados tecnologicamente, impulsionados pelos smartphones e pelos wearables. Todos sabemos como os telefones inteligentes se tornaram omnipresentes. Às vezes, parece que tirar o smartphone do bolso se tornou tão automático quanto respirar.

Estas novas tecnologias oferecem muitas outras vantagens, em especial no contexto económico e social, propiciando uma redução de custos na gestão do papel-moeda, cujo custo de circulação é caro e onde são necessários recursos consideráveis para administrar. Todos os anos são gastos elevados recursos financeiros para garantir a circulação de dinheiro – na criação e distribuição do dinheiro físico, ATMs, transporte de valores, entre outras despesas. De acordo com alguns estudos, um cêntimo custa um cêntimo e meio para fabricar. As novas tecnologias também criam condições para uma melhor gestão da receita fiscal, pois a utilização de sistemas de pagamento eletrónico potencia maior rastreabilidade das transações financeiras. Em alguns países europeus, estima-se que mais de 10% da economia não é tributada.

Outro aspeto que estas tecnologias alavancam prende-se com o fator de inclusão social no sistema financeiro. É muito mais fácil não ter de carregar muito dinheiro. Isso é particularmente relevante nas regiões rurais ou menos desenvolvidas, onde o acesso aos dispensadores eletrónicos é limitado. Num país africano, o crescimento dos sistemas de pagamento móvel significou que a parcela de pessoas com acesso a serviços bancários no país aumentou de 42%, em 2011, para 80% nos últimos anos.

Talvez haja benefícios em manter o papel-moeda que não tem nada a ver com economia ou política social, nada a ver com racionalidade e tudo a ver com psicologia. O dinheiro continuará a ser importante porque os consumidores realmente valorizam-no. O papel-moeda oferece anonimato, é útil no orçamento, é amplamente aceite e fornece finalização dos pagamentos fácil e gratuita, sem necessidade de tecnologia. Há também outros obstáculos humanos. Por exemplo, vários estudos descobriram que o cérebro humano considera e valoriza o papel-moeda de maneira diferente do dinheiro eletrónico. Temos um apego emocional mensurável às nossas moedas e notas de papel.

No entanto, as novas tecnologias caminham a largos passos na direção de colmatar estes efeitos. Vejamos, como exemplo, algumas das soluções que as fintechs e bancos têm vindo a disponibilizar, inclusive em Portugal. Em primeiro lugar, diferentemente de quando usamos um cartão de crédito ou de débito, transações efetuadas pelas novas apps financeiras envolvem a geração de um identificador único. Como cada transação possui um número único, a ameaça de fraude tende a diminuir significativamente. Não é necessário manter em segredo o número do seu PIN ou o código de segurança do seu cartão de débito. Com estas novas soluções, o número é sempre diferente. Em segundo lugar, estas apps oferecem um nível adicional de segurança, pois cada transação deve ser confirmada com o reconhecimento das impressões digitais. Em terceiro lugar, oferecem ao consumidor um grau de anonimato. As lojas e o comércio de retalho não necessitam de saber o nome ou endereço, apenas o número exclusivo que é gerado a cada vez e que é transmitido do comprador para o comerciante, sem problemas. Em quarto lugar, e mais óbvio, a facilidade de uso e conveniência.

No entanto, este novo paradigma apresenta desafios importantes associados à definição e consolidação de padrões internacionais e às questões de segurança, gestão de proteção de dados e prevenção de crimes cibernéticos.

Os diversos atores neste ramo de atuação estão a desenvolver camadas de proteção em constante evolução, como chips nos cartões de crédito, criptografia, tokens e biometria, numa batalha constante contra fraudes e invasão de informações de contas pessoais. Por exemplo, a tokenização é uma tecnologia que protege detalhes bancários em apps de pagamento móvel, mascarando informações pessoais e valiosas.

Diferentes abordagens regulatórias nacionais para proteção de dados e tecnologia de contabilidade distribuída (como o blockchain) podem fragmentar os mercados e atrasar a adoção das tecnologias subjacentes aos pagamentos móveis. A indústria reclama que os padrões internacionais devem ser modernizados para refletir estas inovações tecnológicas, mas também harmonizados para evitar o desenvolvimento de diferentes sistemas de pagamentos para diferentes mercados.

Enquanto não evoluem estas transformações estruturais, nos dias de hoje este estágio de natureza exclusivamente tecnológica, passa inevitavelmente pelos atuais e principais processadores mundiais e europeus de pagamentos. Os sistemas MasterCard, Visa e Europay (EMV ou mesmo “Chip & PIN”) são padrão na Europa, permitindo o pagamento rápido e fácil de bens e serviços com cartão de débito ou crédito. Os pagamentos com cartão contactless são cada vez mais populares e com um crescimento de utilização acima dos dois dígitos, constantes e desde 2016.

Utilizando todas estas alavancas, alguns países estão a efetuar progressos particularmente importantes. Na Suécia, existem cerca de 1.600 agências bancárias espalhadas pelo país, mas apenas 700 delas ainda recebem cheques ou disponibilizam dinheiro. De acordo com um estudo do Banco Central da Suécia, as transações em dinheiro representaram quase 2% do valor de todos os pagamentos domésticos nos últimos anos e a previsão é de reduzir mais 0,5% em 2020.

Outras das soluções mais inovadoras estão a ser formadas nas economias em desenvolvimento. Em África, onde a infraestrutura física dos bancos é muitas vezes inadequada para as necessidades das populações rurais, o banco móvel é a regra. Uma plataforma de mobile banking lançada em 2007, agora é usada por dois terços da população adulta do Quénia (17 milhões de pessoas) e espalha-se rapidamente por toda a região. O sistema já facilitou mais de seis bilhões de transações em 2017.

Como será uma sociedade sem dinheiro? Será construído em torno de um sistema bancário eletrónico e tecnologicamente móvel ou mesmo wearable? Ou será sem intermediários bancários, sem processadores e também sem dinheiro, como preveem os elementos da comunidade blockchain?

À medida que a tecnologia digital se espalha por todo o sistema financeiro, o papel moeda continuará a enfrentar uma concorrência crescente quando se trata de como as pessoas escolhem fazer uma transação. Com o aumento de soluções de pagamento digitais, que cada vez mais mimetizam o uso social do papel-moeda (pedido e envio de dinheiro, pagamentos, divisão da conta, reforço, levantamento, gestão da poupança e de objetivos de compra), a tendência para uma sociedade sem dinheiro provavelmente continuará. À medida que as pessoas possuem mais opções de como pagar, é possível que elas, como sociedade, decidam se o futuro pode ser sem dinheiro, com 0% de chatices ou se preferem guardá-lo no bolso de trás.

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