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«Steve Bannon quis criar a sua própria NSA»

Christopher Wylie entrevistado no palco principal da Web Summit por Krishnan Guru Murty, do Channel 4

Diana Tinoco

«O Facebook tem o poder de clonar toda uma sociedade», mas o Facebook nada quis fazer quando recebeu as primeiras denúncias do escândalo Cambridge Analytica e da moniotorização de dezenas de milhões de perfis da maior das redes sociais com propósitos comerciais. Hoje, foi dia de whistleblower na Web Summit

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Cristopher Wylie já sabia que não havia tempo para ser simpático. E é provável que na Altice Arena, que estava repleto, ninguém esperasse por palavras doces. As expectativas não foram defraudadas: a cada minuto de conversa sucediam-se uma, duas, três ou quatro farpas. «O movimento alt-right (a direita alternativa, que também é encarada como extrema-direita) é apenas insurreição»; «desde o início, que o Facebook foi informado do uso dos perfis das pessoas»; «há pessoas a morrer devido à má informação (que circula nas redes sociais)»; «os nossos governos não estão a saber lidar com isto»; «Steve Bannon quis criar a sua própria NSA». Quem é Cristopher Wylie? É um ex-funcionário da polémica e extinta empresa Cambridge Analytica, que denunciou às autoridades o uso de perfis de dezenas de milhões de utilizadores do Facebook para uso de campanhas políticas. É a este whistleblower que se deve a maior enchente da Altice Arena desta terça-feira, segundo dia da Web Summit.

A história do Facebook é conhecida. Mas não como a maioria das pessoas a conhece. Wylie remete para uma comparação com o início das relações entre povos ocidentais e indígenas. «Vamos deixar estas empresas colonizarem as nossas sociedades?». Os olhos arregalam-se na plateia, e Wylie fala, notoriamente, com o coração ao pé da boca.

Não faltam palavras feias começadas por F sempre que tem de apontar uma nódoa a uma personalidade conhecida, quando denuncia o «fracasso institucional» ou quando lembra que a Facebook tentou processar quem deu a conhecer o escândalo do Cambridge Analytica. O que já não deveria ser propriamente uma novidade para quem, como Cristopher Wylie, foi processado por Steve Bannon, o mentor do movimento alt-right e, durante os primeiros tempos de Casa Branca, o farol político do Donald Trump, quando o atual presidente dos EUA parecia ser um filho pródigo de uma ideologia que é acusada de xenófoba e bélica.

O que é que isto tem a ver com colonialismo? Wylie responde com a pressão que empresas como o Facebook fazem para entrar nos diferentes mercados. «O Facebook tem o poder de clonar toda uma sociedade», começa por atirar o denunciante do escândalo Cambridge Analytica, para depois lembrar que as consequências da torrente de informação são depois depositadas na população: «Há pessoas a morrer devido à má informação (que circula nas redes sociais)».

Segundo Wylie, nenhum dos danos causados pelas redes sociais impediu Steve Bannon de alimentar a esperança de um dia poder levar para o Pentágono a tecnologia que permitiu traçar perfis de mais de dezenas de milhões de pessoas e que muitos alegam que contribuiu para a proliferação de fake news e para a eleição Trump. «Steve Bannon quis criar a sua própria NSA (a Agência Nacional de Segurança dos EUA, envolvida em vários casos de ciberespionagem)», acusou perante uma plateia que oscilava entre o silêncio quase total e as palmas esporádicas.

Por duas vezes, Wylie tentou sair do cerco que lhe montaram na Cambridge Analytica – e para isso recorreu ao Facebook. As duas tentativas de queixa não surtiram efeito. Com as autoridades, as reações não foram muito melhores: «Reuni-me com políticos no Congresso (a instituição que reúne senadores e representantes nos EUA) que me perguntavam onde é que é armazenada a Internet dos EUA». Para qualquer pessoa que conheça minimamente a Internet, a frase só poderia suscitar o riso que geralmente se dedica às coisas demasiado tristes. Mas o whistleblower de serviço não se conforma com a existência políticos que dizem que já são demasiado velhos para se preocuparem com as novas tendências, mas depois se esquecem que, hoje, «sem Internet já ninguém trabalha»; ou que «num dia uma pessoa pode olhar mais de 150 vezes para o telemóvel». A polícia, «aquela que gosta mesmo de investigar crimes tecnológicos», não o deixou mais descansado: «durante os primeiros dois dias (de inquérito) estive a explicar aos polícias como é funcionava a tecnologia».

A lição tirada das últimas presidenciais norte-americanas, com convocatórias para cafés diminutos que ficavam à cunha e depois abriam caminho a fotografias usadas em fake news que supostamente mostravam um movimento que a CNN e outros canais de TV convencionais não mostravam, ainda está bem fresca na memória. E tudo leva a crer que Wylie não vai deixar cair o ativismo tão depressa. «Por que é não podemos regular a porcaria dos códigos?», questiona, como quem quer dar uma opinião.

«Um médico, um advogado ou um professor têm de respeitar uma conduta, mas um data scientist (um cientista que trabalha com dados) tem de lidar com todas estas coisas e não tem de seguir uma conduta», defende Wylie, para depois aprofundar o detalhe: «um data scientist consegue tocar intimamente na vida das pessoas».

Tão depressa Wylie não esquece a Cambridge Analytica, disso não restam dúvidas. Mas é esta lição que pretende que outros não esqueçam nos tempos mais próximos. Especialmente, no momento em que a Inteligência Artificial chegar à maturidade. «O conceito de ser humano torna-se questionável quando temos um sistema que olha e pensa por nós» diz em jeito de assustadora premonição: «E quando o mundo for dominado por Inteligência Artificial?». A classe política pode não ser um modelo de literacia digital, mas Wylie já não tem dúvidas: chegou a hora de os legisladores entrarem em ação.

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