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Paige VanZant: «Faço mais dinheiro com as redes sociais do que a lutar [no UFC]»

Marcos Borga

Nesta entrevista exclusiva, a lutadora, que ganhou apelo mainstream nos Estados Unidos devido às boas participações televisivas em programas como Chopped e Dança com as Estrelas, fala sobre a tecnologia nos treinos, as redes sociais como fonte de rendimento e o combate pela igualdade de salários entre homens e mulheres no MMA

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Paulo Matos

Paulo Matos

Jornalista

Paige VanZant, lutadora de MMA (Mixed Martial Arts) que tem contrato com o UFC (a maior organização mundial deste tipo de combates), esteve no Web Summit e deu uma entrevista à Exame Informática onde fala, entre outras coisas, de como a tecnologia a ajuda na sua preparação, a importância das redes sociais e do futuro profissional.

Que tipo de tecnologia usa nos seus treinos e de que forma é que ela a ajudou a tornar-se uma lutadora melhor?

Utilizo bastante tecnologia tanto na minha carreira fora do mundo das lutas como a nível atlético e de nutrição. Por exemplo, as redes sociais são uma plataforma enorme e muito importante para construir uma marca enquanto atleta. Também é importante a nível de medicina e prognósticos – uso um sistema para monitorizar o ritmo cardíaco e saber quanto é que a pulsação pode baixar, já que na luta temos assaltos de cinco minutos com um intervalo de um minuto e treinamos para que o ritmo cardíaco desça o máximo possível nesse período de tempo. Saber essa informação é muito importante porque dá a própria consciência ao lutador que o coração vai abrandar nesse minuto, o que permitirá uma melhor recuperação para o round seguinte. Utilizamos igualmente muito equipamento médico, como monitores de sono para saber o quão recuperados estamos para a próxima sessão de treinos.

E a nível de nutrição?

A nutrição é extremamente importante. Fazemos várias análises sanguíneas para ter acesso a diferentes testes e controlar todos os aspetos da nutrição, saber quanto peso se está a perder e que nutrientes se estão a colocar no corpo.

Esse é um procedimento regular ou apenas nos campos de treino para lutas?

Regular, ser lutador profissional não dá grande margem de manobra e precisamos de saber a composição corporal constantemente para nos prepararmos melhor para as lutas.

Recorre a algum tipo de tecnologia para pesquisar as adversárias?

Sim. Na maioria das vezes, vídeos, mas as redes sociais também estão nas mãos de todos pelo que podemos procurar qualquer pessoa do mundo com a ponta dos dedos e ver como as adversárias estão a treinar ou o que estão a fazer. Além disso, também utilizamos diferentes apps e o UFC tem o Fight Pass [plataforma de streaming para desportos de combate que segue os mesmo princípios do Netflix] que nos permite ver o trabalho anterior das oponentes.

Referiu anteriormente a importância das redes sociais para construir uma marca. Quão fundamentais são para promover uma lutadora e contribuir para que possa receber um salário melhor?

Falo muito em construir a nossa marca e isso passa por ser mais reconhecível, porque torna-nos mais apetecíveis para outras empresas. Agora as analíticas do Instagram, Facebook e todas as outras redes sociais permitem que eu saiba exatamente, quando faço um anúncio pago, quantas pessoas compraram o produto, quantos cliques teve, de onde vieram, onde as pessoas vivem, todos os aspetos demográficos, se são homens ou mulheres… É muito importante saber quem nos está a ver e os dados financeiros provenientes daí são aspetos que podemos levar para a mesa de negociações e mostrar às empresas que lhes podemos aportar valor para podermos sermos compensados por isso.

E como lida com o lado negativo das redes sociais? Sejam comentários negativos por parte de trolls ou provocações de potenciais adversárias.

Dizem que toda a publicidade é boa publicidade… Tenho alguma atenção em torno do meu nome na divisão onde estou e sou a luta que todas querem porque haveriam muitas pessoas a ver, já que tenho o apelo mainstream porque consegui ter boas participações no Dança com as Estrelas [ficou em segundo lugar numa edição dos Estados Unidos] e no Chopped [venceu a edição de vedetas em que participou] e em mais algumas coisas televisivas que fiz, entrei na Sports Illustrated – tudo isso fez-me mais reconhecível perante o público em geral. Claro que as redes sociais também têm os seus desafios a nível de feedback negativo: por cada 100 comentários positivos deverei ter uns 10 maus, mas é saber que ainda há fãs e que se está a ganhar atenção e notoriedade.

Marcos Borga

Nesta fase da sua carreira, tem uma conta de Instagram com 2,3 milhões de seguidores, uma de Facebook com 717 mil seguidores e um canal de YouTube com 20 mil subscritores. Faz mais dinheiro com as redes sociais ou como lutadora?

Nesta altura, e tenho vindo a público falar sobre isto, faço mais dinheiro com as redes sociais do que a lutar. Isso é algo que quero levar para as próximas negociações de contrato. E, de forma geral, tento falar pelas mulheres, porque as mulheres atletas recebem muito menos, a diferença salarial em relação a homens é imensa. Faço mais dinheiro a tirar fotografias de mim mesma do que na minha carreira que envolve tanto sacrifício quando entro na jaula e dou/levo socos na cara, parti o braço três vezes… Devemos ser compensadas de forma igual aos homens.

Pode explicar como é que funciona o sistema de eventos pay-per-view no que diz respeito ao pagamento dos salários dos lutadores? Todos os lutadores de card principal têm direito a uma percentagem ou apenas o main event? E mudou alguma coisa com a aposta do UFC no Fight Pass e na nova parceria televisiva da promoção com a ESPN?

Infelizmente, não há nenhum sindicato de lutadores no UFC. Isso quer dizer que não há uma redistribuição justa e que podem pagar “debaixo da mesa” ou sem que ninguém saiba, pelo que nem se sabe ao certo quanto é que cada um ganha, já que nem tudo é público. Portanto, é muito difícil saber quanto é que as pessoas ganham, mas, no geral, como funciona é: cada um tem o seu contrato individual que prevê dinheiro por luta e dinheiro por vitória, independentemente da posição que é atribuída no card; no pay-per-view apenas o main event recebe uma percentagem e, mesmo aí, nem são todos os lutadores – tem tudo a ver com a forma como se negoceia o contrato, porque, às vezes, só o campeão recebe uma porção, pelo que pode estar-se a combater contra o campeão e não receber nada. E não interessa o quão popular ou famoso se é, se não está no contrato não se recebe. É preciso ter managers muito bons, porque tudo tem de ser negociado e falado.

Só tem mais uma luta no seu contrato com o UFC. Já pensou que vai fazer a seguir? Continuar a lutar ou, por exemplo, apostar mais na vertente de modelo ou influencer?

Vou continuar a lutar, com 100% de certeza. Vou deixar o contrato expirar porque sei que estou subvalorizada atualmente. Como é um contrato, sei que não há razão para eles me pagarem mais, porque não estão obrigados a isso. Sendo contratualmente livre terão de me pagar mais para me manter. Se me quiserem, vão igualar as ofertas de outras organizações. Eu gostaria de ficar onde estou, sei que o UFC é mais mainstream e uma das maiores organizações dos Estados Unidos atualmente, mas isto é sobre saber o meu valor. Só tenho 25 anos, comecei a minha carreira muito cedo e tenho, pelo menos, mais 5 anos de luta pela frente.

Marcos Borga

Perguntas rápidas:

Smartphone que usa: «iPhone.»

Serviços de streaming preferidos: «Netflix, Apple Music e YouTube.»

Conta de Instagram de um lutador preferida: «Hum, acho que não tenho… A minha é muito boa (risos). E a do meu marido [Austin Vanderford] também é boa.»

Lutas de sonho em que pudesse participar ou que gostasse de assistir: «Gostava de lutar pelo título. Também gostava de lutar em mais países – o UFC põe-me nos EUA, mas adoro viajar e gostava de lutar fora. E gostava de ver o Conor [McGregor] vs Mayweather mais uma vez.»

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